Sem comodismo, Cairo Santos não teme pressão e projeta mais na NFL

Kicker é o primeiro representante do país na liga norte-americana; em entrevista exclusiva, ele fala sobre os desafios da posição, além dos planos para o futuro

iG Minas Gerais | JOSIAS PEREIRA |

Cairo tem apenas 1,73m, um 'Davi' no meio de Golias da NFL
KANSAS CITY/REPRODUÇÃO
Cairo tem apenas 1,73m, um 'Davi' no meio de Golias da NFL

No país do futebol, o sonho da maioria dos meninos é ganhar a vida chutando uma bola. Até aí nada anormal. É quase como um mantra. Nasceu, correu, chutou, é gol! O TEMPO conta hoje a história de um destes garotos. O negócio dele também é gol. Na verdade o Field Goal. Aos 23 anos, sua altura - 1,73m - engana, mas acredite quem quiser, Cairo Santos é um jogador de futebol americano. Com pouco mais de 70 kg, ele pode até ser um 'Davi' em meio a milhares de 'Golias', porém este paulista não é qualquer um. Muito pelo contrário. Ele é o primeiro brasileiro nato atuando na NFL, a multimilionária liga profissional de futebol americano.

"Representar o Brasil é uma honra. Tenho orgulho desta responsabilidade. Me surpreendo por ter chegado onde cheguei, e de ser apontado como uma referência para várias pessoas no país", destaca Cairo.

Torcedor confesso do Flamengo, fruto dos anos morando em Brasília, hoje ele defende o Kansas City Chiefs, equipe estabelecida no estado do Missouri e com a qual possui contrato por mais duas temporadas. Seu sonho era brilhar com a bola redonda, mas o destino tratou de colocá-lo frente a frente com a bola oval.

"É um esporte que eu conheci aos 15 anos. Vim para os EUA para melhorar minha fluência no inglês. E daí eu fui apresentado ao futebol americano. No início era só um desafio, mas depois eu fui vendo que levava jeito. Entrei no time da escola e depois, graças ao esporte, consegui entrar na faculdade", recorda o jovem kicker, formado em administração de empresas pela Universidade de Tulane.

No futebol americano universitário, Cairo logo obteve sucesso, chamando atenção por sua precisão nos arremates. Em 2012, ele foi agraciado com o prêmio Lou Groza, destinado ao melhor kicker da temporada. Mas, no ano seguinte, sofreu talvez a maior derrota da vida: a morte do pai, que também se chamava Cairo, seu maior fã.

Emocionalmente abalado, seu desempenho caiu, chegou a pensar em desistir, mas o destino já estava traçado. "Eu sempre quis realizar o nosso sonho, e a cada jogo estou concretizando isto lado a lado com o meu pai, não importa onde ele esteja", afirma o camisa 5.

Para ingressar no Kansas City Chiefs, o jovem brasileiro venceu uma dura concorrência com o veterano kicker Ryan Succop, há cinco anos no time. Sua primeira temporada como profissional foi bastante produtiva, com um aproveitamento de 83,3%. Porém, o exigente Cairo quer mais.

"Foi um ano bom, não excelente. Poderia ter acertado mais chutes, mas foi um aprendizado. Acho que só de você estar entre o 32 melhores kickers do mundo já é um grande feito, uma grande responsabilidade", destaca.

"Estou agora priorizando o condicionamento físico, quero sempre melhorar, evoluir, mudar algumas coisas na minha técnica para que eu possa durar muito tempo na NFL", finaliza Cairo.

Leia, na íntegra, a entrevista com Cairo Santos:

Qual kicker da NFL é sua referência? Em quem você se inspira na hora dos chutes?

Antes de jogar na NFL, eu sempre acompanhei e estudava todos eles. Tenho algumas preferências como, por exemplo, o Justin Tucker, do Baltimore Ravens. Mas existem várias maneiras de chutar a bola. Prefiro copiar o que cada um tem de melhor para poder aprimorar a minha finalização. Sempre estou querendo aprender mais, e tenho aproveitado esta oportunidade na NFL para conversar com todos e absorver o que eles têm de melhor.

Como são os treinos de kickers? Existe um acompanhamento constante até mesmo do Andy Reid, o Head Coach dos Chiefs?

A gente está sempre em contato com o pessoal do 'Special Teams' (time de especialistas), mas as atividades são bem parecidas com a dinâmica de um jogo real. A todo o tempo eles estão te avaliando, te observando e fazendo anotações sobre o seu aproveitamento. É bom sempre estar no auge. Até mesmo nos treinamentos, os kickers lidam com momentos de pressão. É uma posição muito cobrada.

Você ganhou a vaga no time titular após disputa por posições com um kicker bem mais experiente. Como lidar com esta pressão imputada a vocês pelas franquias? Teme ser descartado apesar de um contrato por mais duas temporadas?

Eu sempre penso na semana do jogo. Não gosto de ficar pensando no meu contrato. A NFL é uma liga muito competitiva e todos nós somos avaliados jogo após jogo. Não importa para mim ter um ou mais dois anos de contrato. O que vale mesmo é o que vai acontecer naquela semana. Se você não estiver indo bem, os times não têm pena. Você é cortado ou até mesmo trocado. Por isto, eu apenas me concentro na partida que terei que fazer, nada mais do que isto. Ser um kicker na NFL também exige sacrifícios, como abrir mão de uma salário ou reestruturar seu contrato para assegurar a permanência na equipe. Existem muitos kickers ansiosos por uma brecha. É um mercado muito competitivo.

Em algum momento da última temporada você sentiu que tinha chegado o fim de seu sonho na NFL?

No meu segundo jogo (derrota para os Broncos por 24 a 17), eu cometi meu segundo erro (em um chute de 37 jardas). Não compreendia o que estava acontecendo. Vinha chutando tão bem. Resolvi fazer uma avaliação com meus treinadores, precisava mudar minha rotina de chute. Na NFL não importa o que você fez no passado, eles só dão importância ao presente. É por isto que você precisa aprender a superar estas adversidades o mais rápido possível. É levantar a cabeça, melhorar, ir lá e chutar.

Após este momento de instabilidade, você conseguiu dar a volta por cima e converteu o Field Goal da vitória sobre o San Diego Chargers. O que significou aquele lance na sua carreira?

Aquele jogo foi o mais marcante da minha carreira. Foi um lance para dar confiança, para ganhar reputação com os os outros times. Quando você converte um Field Goal decisivo, você marca território. Com certeza, aquele chute me deu confiança para seguir firme e também fez com que o time todo acreditasse no meu potencial.

Os Chiefs estiveram muito próximos de uma classificação aos Playoffs. Qual é sua avaliação da temporada da equipe? O que faltou?

Nós temos um time muito bom, com boas peças no ataque e na defesa. Realmente apresentamos algumas dificuldades no decorrer da temporada, algumas inconsistências na defesa que nos custaram caro. Mas, de positivo, eu tiro nossas vitórias sobre Seahawks e Patriots, os dois finalistas do Super Bowl. Estes triunfos mostraram o potencial da nossa equipe justamente sobre os favoritos. Tínhamos tudo para chegar aos Playoffs, mas as derrotas para Titans e Raiders acabaram sendo determinantes. Isto mostra como a NFL é uma liga muito competitiva. Qualquer erro pode ser fatal. Apesar disto, ficamos muito orgulhosos de ter jogado bem contra os favoritos. Valeu a pena.

Individualmente, qual é a avaliação da sua temporada?

Foi uma temporada boa, não excelente. Eu poderia ter acertado mais chutes, mas foi um aprendizado para mim. Só de estar entre os 32 melhores kickers do mundo é uma grande responsabilidade.

A NFL está no seu período intertemporada. Como tem sido sua preparação durante a ausência dos jogos?

Tenho investido mais na musculação, no condicionamento físico. Estou retomando agora meu treinamento de chutes, tentando aprender com outros kickers. É continuar minha rotina, tentar mudar algumas coisas e me manter saudável. Meu objetivo durante este período é tentar ganhar força para eu durar a temporada inteira.

Você sentiu algum tipo de mudança em seu chute devido à interferência das condições climáticas mais amenas nos EUA?

O inverno é bem rigoroso nos Estados Unidos, e como muitos estádios são abertos, todo mundo perde um pouco de força no chute. Eu senti esta dificuldade. Estou tentando ganhar um pouco mais de massa muscular para melhorar a minha técnica.

Como seus companheiros de time veem o Brasil? Eles têm conhecimento de que o futebol americano possui uma grande audiência no país?

Quando eu comecei a treinar no Kansas City, a Copa do Mundo estava rolando no Brasil. Ficávamos na academia, e enquanto fazíamos exercícios os jogos eram exibidos. Eles ficavam me perguntando sobre o nosso culto ao futebol, além das belezas naturais do país e das mulheres brasileiras. Eles também sabem que o futebol americano no Brasil está crescendo, que muita gente está praticando. Isto é legal. Eles ficam felizes por saber que meu nome está sendo falado em todo o Brasil, que eu tenho sido uma referência no país.

A NFL viveu um período turbulento na última temporada, principalmente com casos de violência doméstica. Vocês chegaram a receber alguma orientação da liga para evitar casos extracampo desta natureza?

O que recebemos de orientação da cúpula do time é não comentar coisas que não pertencem a nós. Evitar falar sobre estas polêmicas extracampo.

Os Chiefs não conquistam um Super Bowl desde 1970. Está na hora de conquistar um título e dar fim a este longo jejum?

Todo ano tem muita expectativa, contratações que vão chegando e fortalecendo ainda mais o time. Está na hora de conquistarmos algo para homenagear nossos fãs, que vem nos ajudando muito a cada ano. Recentemente, o nosso estádio foi eleito o mais barulhento do mundo. Nós devemos muito aos nossos torcedores. Temos que chegar ao menos em uma decisão de AFC, e estar sempre batendo ponto entre os favoritos. Só assim os títulos virão.

E como é sua relação com o futebol da bola redonda?

Eu sou torcedor do Flamengo. Sou paulista, mas me mudei muito cedo para Brasília, por isto a torcida pelo Flamengo. Jogo futebol desde moleque. Entrei ainda novo para a escolinha de futebol e quando fui para os EUA até pensei que seguiria carreira por lá. Continuo jogando uma peladinha com os amigos quando eu posso. Nos treinos pelo Kansas, eu até  procuro fazer algumas embaixadinhas.

E quais são as diferenças básicas entre o chute do futebol e o chute do futebol americano?

É muito importante você ter consistência na hora do chute. No futebol existem várias técnicas para bater falta, lançar alguma bola, fazendo curva. Já no futebol americano, você tem que bater naquele mesmo lugar, é um chute mais mecânico; No futebol comum, o chute é muito explosivo.

Qual jogador de futebol foi marcante em sua infância/adolescência?

Eu sou fã do Frank Lampard, sempre fui muito aficionado pelo Chelsea. Outro jogador que me inspirou foi  o Adriano Imperador. Ele tinha uma bomba no pé esquerdo que me deixava bastante impressionado.

Ainda sobre o futebol, você chegou a ver o Neymar tentando a sorte como kicker? Toparia um desafio com o craque do Barcelona?

Eu assisti sim aquele vídeo que ele fez. Fiquei muito feliz de ver um craque do futebol arriscando alguma coisa com a bola oval. Seria um prazer encontrá-lo e desafiá-lo com meus chutes.

O futebol americano é um esporte de muito contato. Apesar de um trabalho mais simplificado, os kickers também ficam expostos a eventuais choques com os adversários. Isto ainda te traz algum tipo de receio? Como sua família encara sua profissão?

Sempre tem esta possibilidade, principalmente durante o kickoff, momento onde os kickers estão expostos e precisam ajudar na formação. Mas existem certas técnicas, como ir nas pernas ou ir empurrando. De qualquer forma, acho que quem está ali tem que encarar o desafio, é parte do trabalho. É muito raro um kicker sair machucado na NFL por conta disto, mas também temos kickers na liga que parecem jogadores de defesa. Ninguém que se machucar, os nossos oponentes têm o dobro da nossa força. O perigo existe, mas quando você aprende as técnicas do jogo, tudo fica mais fácil.

Contra os Jets, você precisou fazer uma destas intervenções. Só que de uma maneira bem futebolística. Explique aquele carrinho em Percy Harvin, Cairo.

Aquele lance (risos). Foi tudo muito no impulso. Estava bem no fim do 1º quarto. Eu meio que não vi o jogador chegando. Meu instinto, naquela hora, foi de matar a jogada. Acabei salvando o TD, mas não foi a maneira certa de ter matado a jogada. Nem pensei nisto na hora. Meus treinadores até me falaram sobre isto, me corrigiram após o jogo. Todo mundo interpretou aquele lance como engraçado, mas, no fundo, não foi nada bom para mim.

E quais são seus planos para o futuro? Qual a mensagem que você deixa para os torcedores brasileiros, grandes admiradores do seu trabalho?

Eu fico muito feliz em ver este crescimento do futebol americano no país. As pessoas no Brasil fazem isto realmente por amor. Eu, sendo um praticante deste esporte, me sinto ainda mais orgulhoso por ver todo este movimento. Espero que todos continuem lutando por seus ideias e praticando o futebol americano, Quanto aos meus objetivos pessoais, eu quero focar mais na minha carreira, continuar sendo um embaixador do esporte pelo Brasil, se possível fazendo palestras pelo país. O futebol americano abre muitas portas, e eu sou muito grato por esta modalidade ter entrado na minha vida.

Números Cairo Santos

Field Goal mais longo da história da NFL: Matt Prater - 64 jardas, em 2013 Field Goal mais longo de Cairo Santos na NFL: 53 jardas

30 tentativas de Field Goals 25 acertos 5 erros 83,3% de aproveitamento

Dados pessoais

Local de nascimento: São Paulo, Brasil Idade: 23 anos Universidade: Tulane Formação: administração de empresas

- No site da NFL, o kicker Tim Mazzetti, que defendeu o Atlanta Falcons entre 1978 e 1980, aparece como brasileiro. Mas o atleta, que passou quase 17 anos de sua infância em São Paulo, nasceu em Old Greenwich, Connecticut.

- Cairos se tornou o jogador que  mais pontos fez para a equipe em seu ano de estreia, 113, superando os 108 pontos que o kicker Jan Stenerud (que está no hall da fama do Kansas) obteve em 1967.

- Com 25 chutes certeiros, ele igualou a marca obtida em 2009 por Ryan Succop - exatamente o kicker que foi dispensado pelo Kansas e que acabou colocando Cairo como o titular.