Poderosas mulheres do pedal

Ciclistas belo-horizontinas ‘rasgam o verbo’ e falam das dores e delícias de pedalar na capital

iG Minas Gerais | João Paulo Costa |

Atitude. Elas provam que podem usufruir dos mesmos espaços dos homens, sem perder o charme
Arquivo pessoal
Atitude. Elas provam que podem usufruir dos mesmos espaços dos homens, sem perder o charme

Sabe aquela parte da música “Selim”, da banda de rock Raimundos (“eu queria ser o banquinho da bicicleta”)? E aquele axé “Saia e bicicletinha”, do grupo Psirico (“ela sai de saia e de bicicletinha, uma mão vai no guidão e outra tapando a calcinha (...)”) ? Lembra? Não? Elas se lembram muito bem e têm escutado muito isso por aí.

Segundo ciclistas belo-horizontinas, esses refrãos podem até agradar aos fãs das bandas, mas um “basta” e um “chega” nesse tipo de abordagem machista seriam bem-vindos. Muitas vezes, as mulheres que andam de bike em BH se sentem duplamente oprimidas. Primeiro, porque usam a bicicleta como meio de transporte em um ambiente “carrocêntrico”. E, segundo, porque a questão do gênero ainda é um tabu. São meninas pedalando por uma cidade que, assim como outros lugares, teima em evidenciar preconceitos sexistas. De acordo com a estudante de arquitetura e membro do Massa Crítica Feminista Enne Maia, 28, essa forma agressiva de alguns homens abordarem as ciclistas virou uma espécie de “assédio simbólico”, que, em casos mais graves, caracteriza o assédio sexual no trânsito. “São momentos em que alguns homens aproveitam esse teor apelativo e sexista de algumas músicas para demonstrar seus lados machistas”, lamenta Enne. No entanto, ela diz que esse tipo de situação não pode intimidar as mulheres a pedalar. “Infelizmente, ainda vemos essa forma distorcida de discurso, e acho que as meninas não podem se vitimar. Mas, sim, ver isso como uma forma de resistir e se impor nos espaços urbanos. Tanto pelo uso da bike como meio de transporte, como por uma luta para mudar esse quadro preconceituoso”, avalia a estudante. Reflexo. Já a professora de artes plásticas Bárbara Ahouagi, 35, diz que o assédio sofrido pelas ciclistas é mais uma expressão das dificuldades vividas pelas mulheres na sociedade. “É tão constrangedor, parece que estamos peladas em cima da bike. Alimentar essa hostilidade revidando esse tipo de agressão é muito chato, mas não reagir também nos torna frágeis”, conta. Segundo Bárbara, as ciclistas devem ponderar suas atitudes com relação às “piadinhas” e continuar a pedalar. “Quanto mais mulheres pedalarem, menos isso vai acontecer”, acredita.

Discussão MEDELÍN, COLÔMBIA.A membro do BH em Ciclo Amanda Corradi, 24, está participando do 4º Fórum Mundial da Bicicleta, realizado na Colômbia. “Os assédios não são exclusividade das brasileiras. Podem vir até disfarçados de ‘elogios’. As mulheres podem e devem ocupar os espaços e se posicionar contra isso”, diz.

Piadinhas entre turmas de bike ainda incomodam as meninas O universo ciclístico é, ainda, um ambiente majoritariamente masculino. E apesar do número pequeno de mulheres que andam de bike na capital, o que mais incomoda, segundo elas, são as piadinhas dentro dos grupos. “Já ouvi um ciclista em um desses grupos noturnos dizer: ‘você até que pedala bem!’ Ficou subentendido algo do tipo: ‘para uma garota’, no final da frase”, diz a professora de francês Renata Aiala, 27. m“Acho que essas coisas que ouvimos refletem o machismo da nossa sociedade. Isso precisa acabar entre os ciclistas”, afirma.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave