Vida e obra de Philip Roth em biografia não autorizada

Jornalista Claudia Roth Pierpont elaborou o livro após conversas gravadas com o escritor

iG Minas Gerais |

Philip Roth tem seu senso de autoproteção revelado em livro
RICHARD DREW/ASSOCIATED PRESS
Philip Roth tem seu senso de autoproteção revelado em livro

SÃO PAULO. O que está sendo feito para calar esse homem?, perguntava um indignado rabino de Nova York, em 1959, quando Philip Roth surgia com seus provocativos textos que expunham a vida judaica nos Estados Unidos. Os judeus estavam genuinamente assustados com o que Roth escrevia. Muitos tinham chegado aos Estados Unidos não havia tanto tempo e as feridas da Segunda Guerra seguiam abertas, conta à reportagem Claudia Roth Pierpont (sem parentesco), autora do livro “Roth Libertado”. 

O ensaio biográfico cobre a carreira do escritor desde “Adeus, Columbus” (1959) até “Nemesis” (2010). A análise literária se entrelaça com a também novelesca vida de Roth, considerado hoje o mais importante autor norte-americano vivo.

Pierpont, que escreve para a revista “New Yorker”, conheceu Roth numa festa, em 2002. Começaram, então, uma relação de amizade que tinha a troca de escritos como principal mote. “Sugeri gravar nossas conversas. Em pouco tempo, vi que já tinha um livro”, diz.

Questionada sobre sua proximidade com o personagem, Pierpont disse que seu trabalho não é uma biografia autorizada. “Ele não viu nada antes de ser publicado.”

De fato, apesar do tom elogioso ao descrever grande parte das obras, Pierpont não se furta a fazer críticas ou ir ao detalhe em passagens biográficas mais sensíveis. É o caso do trágico laço do autor com Maggie Williams. Para Pierpont, o casamento literário mais destrutivo e influente desde Scott e Zelda Fitzgerald. Para convencer Roth a se casar com ela, Maggie forjara um exame positivo de gravidez usando urina tomada de outra mulher. A degradação dessa união teve reflexo no modo como ele se relacionaria com as mulheres e como as retrataria em sua obra, diz Pierpont.

Após o sucesso e o escândalo causados por “O Complexo de Portnoy (1969)”, Pierpont conta que Roth quis afastar-se da fama de escritor obsceno. Ele não queria que as pessoas continuassem a vê-lo como um pênis ambulante. No romance, Roth conta a história de um adolescente judeu que se masturba de forma quase ininterrupta. A busca o levou então a Praga, onde escreveu um ensaio ficcional que Pierpont considera fundamental para a fase seguinte de sua carreira. Em “I Always Wanted You to Admire My Fasting”; or “Looking at Kafka” (sempre quis que você admirasse meu jejum; ou olhando para Kafka), Roth imagina o que aconteceria a Franz Kafka (1883-1924) caso tivesse sobrevivido à experiência nazista e, refugiado, fosse ensinar hebraico numa escola em Newark, onde Roth poderia ter sido seu aluno. A reflexão que fez nessa viagem foi fundamental para criar Nathan Zuckerman, alter ego presente a partir de “O Escritor Fantasma” (1979).

“Roth Libertado” ainda examina as fitas em que o então presidente Richard Nixon surge preocupado com seus escritos e o flerte que o escritor teve com Jackie Kennedy. Revela, ainda, que apesar da imagem de rebelde e de pirata literário, Roth tem um senso de autoproteção tão grande que os amigos fazem troça do fato de não largar seu frasco de álcool gel. Aposentado e às vésperas de completar 82 anos, Roth tem agora dado entrevistas ao escritor Blake Bailey, designado para escrever uma extensa biografia autorizada, prevista para ser publicada daqui a dez anos.

Ficha

O quê. “Roth Libertado”, de Claudia Roth Pierpont, editora Companhia das Letras, 480 págs., R$ 52,90

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