O feminismo íntimo da atriz

Cida Falabella estreia “Domingo” para plateia reduzida de 20 espectadores em sessão na intimidade da sua casa

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |

Thiago Macedo
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O muro é chapiscado. Não tem campainha. É preciso bater no portão, e, quando ele se abre, lá está a casa amarela. De janelas de madeira e grades arabescas pintadas de azul. Do portão até a casa, um caminho curvilíneo de tijolos construído em meio ao jardim vai levar o público ao encontro de Cida Falabella, diretora e atriz, que faz da sua casa o palco para contar sua história em “Domingo”, peça com estreia marcada para amanhã, às 16h30.

A descrição detalhada do ambiente não é mero capricho textual. Os detalhes são reveladores de uma parte íntima do universo da atriz, que, logo nas primeiras palavras, explicita o que faz ali. Ela se entrega de bandeja, “de carne viva”, como diz o texto inicial do espetáculo.

Sem aparentes preocupações, Cida se viu na urgência de realizar um trabalho franco, físico e pouco racional e, também por isso, convidou a artista e pesquisadora da arte da performance Denise Pedron para assumir a direção. Cida, que sempre foi a diretora que sugere, viu-se no momento em que ela mesma pudesse realizar suas sugestões. “É quando estamos naquele momento em que a vida te deixa na beira do precipício. E, aí quando você pula, a asa aparece, e você voa. Esse voar é reinventar-se”, divaga.

Do feminino, tão latente no espetáculo, nasceu a ideia de fazer sessões apenas para mulheres. Mas em uma pré-estreia, realizada também com a presença de homens, os retornos recebidos, como o comentário de um senhor que revelou que a peça o fez pensar sobre sua esposa, fizeram brotar o desejo de tocar também o masculino. Os direitos da mulher, o novo feminismo recriado em meio ao conservadorismo estão presentes no espetáculo, mas pelo lado avesso. “Eu faço de dentro, do lado do íntimo, que, claro, está inserido em um contexto maior”, diz Cida. Denise Pedron ressalta que as particularidades das minorias, no caso, das mulheres, dizem respeito ao outro também, como um tipo de singularidade que se torna plural. Mas as duas ainda alimentam o desejo de fazer uma sessão apenas para o público feminino.

Valendo-se inicialmente de um diário regularmente alimentado em 2008, quando vivia um momento de separação amorosa, Cida logo começou a escrever o blog A Louca Sou Eu, como estímulo para a construção do texto do espetáculo que seria seu primeiro solo. “As rupturas são deflagradoras. O outro sempre nos dá uma medida, e a gente acaba se esquecendo um pouco de si. E quando este outro nos falta, a gente se vê diante do espelho. Mais do que querer, este trabalho, era uma necessidade”, comenta.

No texto, ela retrata a trajetória da mulher, hoje com 55 anos, e suas tentativas de não se enlouquecer diante da vida. Rasga-se sem pudor. “Saramago (escritor português) diz que tudo é autobiográfico. Os textos seguem o tom do confessional. Não tem como se desvincular do corpo, da pele dela”, acrescenta Denise. Em cena, Cida revela-se sem exibicionismo. “Quando a vida é matéria, tem que entregar. De nada adiantaria eu colocar silicone, fazer uma lipo para fazer esse espetáculo. Aqui não tem personagem, não tenho que virar outra. Mas, claro, tudo tem um certo tratamento estético e artístico”, ressalta.

Mutações. Revelando fortalezas e fragilidades – mais fragilidades que fortalezas –, Cida mostra-se dúbia e complexa como qualquer ser humano, de identidade mutável que se transforma ao longo da vida, construindo diferentes “Cidas” que conversam entre si. Ela não é só isso, nem só aquilo, embora realce algumas marcas sempre presentes, como a melancolia, mesmo que, em geral, ela se apresente como uma pessoa alegre, engraçada e de voz alta. “Tudo me afeta demais”, diz uma de suas falas na encenação.

Visitada por duas senhoras, Dona Alegria e Dona Tristeza, esse é o momento em que, como ela diz, brinca de criar personagens, duas partes dela mesma. “Aprendi que a alegria é uma loucura para fora e a tristeza é uma loucura para dentro. Não sei viver sem nenhuma dela, ri.s”

A peça será encenada sempre aos domingos. Essa escolha é uma tentativa de dividir com a plateia o peso das horas solitárias desse dia. A solidão para ela é desagradável, embora importante, não só para o exercício da criação. Cida, que vem de uma história coletiva muito pautada nas reuniões que o teatro promove, pensa a solidão como uma possibilidade de autoconhecimento. “Aprendi a ficar sozinha muito tarde, depois dos 50 anos. Hoje isso é um exercício que eu prezo muito”.

O corpo é elemento fundamental. Nele estão algumas marcas – reais e figurativas – que conduzem a história. Os braços flácidos, os seios que murcham e os cabelos brancos. Mas o corpo sempre foi sua briga, uma questão que não vem apenas do envelhecimento, esse que talvez seja um dos temas mais difíceis para ela. Embora não o enxergue como um tormento, Cida tenta vivê-lo de forma prazerosa, mesmo com as limitações, física ou mentais, que vêm com ele. “A gente tem que conseguir viver apesar dos limites que vão nos sendo colocados. Voltar a atuar é uma forma de encarar esse processo de envelhecimento de uma forma mais leve. Posso pensar que vivo de uma profissão que a cada dia eu vou poder ser melhor nela, apesar de estar envelhecendo e também por isso”, reflete. A morte que caminha também próxima ao envelhecer está mais associada, para ela, às pequenas mortes diárias que seguem fazendo transformações.

Em meio ao jardim, ela relembra a infância, as heranças que carrega de sua avó, a maternidade, a menopausa. Compartilha alguns hábitos, como regar suas plantas. É na terra, um dos elementos da n, que ela enterra e desenterra, mais uma vez, na crença na transformação. “A gente enterra as coisas, e elas se decompõem, viram outra coisa”.atureza trazidos para a cena

Na casa amarela, o público entra descalço. Na cozinha americana, a informalidade toma conta. Cida passa café enquanto proseia com o pequeno público de no máximo 20 pessoas por apresentação. Com início sempre às 16h30, Cida aproveita a iluminação natural e as luzes da própria casa e faz das suas próprias roupas o seu figurino.

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