O real valor de uma peça

Além de conferir mais personalidade, mesa de madeira vira o centro das atenções

iG Minas Gerais | da redação |


Quarto do casal é arejado e todo iluminado com luz natural
JANE BEILES
Quarto do casal é arejado e todo iluminado com luz natural

No ano anterior ao lançamento do filme, seu trator Cleveland Cletrac, novinho em folha, deu um pulo quando vovô deu a partida, na base da manivela, e o esmagou contra a parede de um dos celeiros mais afastados da propriedade. Um dos ajudantes tinha deixado a marcha engatada por engano; só depois de várias horas é que seu corpo foi encontrado.

Como muitos acidentes trágicos, a morte do meu avô foi uma fatalidade brutal. Ele sobreviveu como motorista de ambulância nos campos de batalha, na primeira Guerra Mundial, e depois ainda completou mais de 30 missões como piloto de caça. Encontrou sua alma gêmea na segunda mulher (minha avó, Polly Damrosch) e a adorava, assim como os quatro filhos – e os cachorros, como alguém diria. Estava no auge da carreira, gozando de boa saúde e da mais completa felicidade. Tinha 48 anos de idade.

A mesa de madeira. Parece que me esqueci totalmente dela, mas não. Quase na mesma época em que meu romance “The Visionist” foi publicado, o trabalho foi concluído na casa que meu marido, John Herrera, projetara nos limites do campo de feno menor e mais alto da propriedade.

A construção em si é despretensiosa como a área que a cerca, feita com materiais simples e básicos: vidro, concreto, aço e madeira do velho celeiro. Por dentro, é clara e arejada – tanto que, quando as tempestades de verão sacodem as árvores e os pingos gordos castigam o telhado de metal, fico olhando para as portas de correr de vidro e ainda me espanto de continuarem secas. É fácil assim esquecer que não estou lá fora.

Foram oito anos, desde os primeiros sonhos e planos, até o momento em que nos mudamos com o único móvel que tínhamos: a escrivaninha do meu avô. Hoje, quase todas as manhãs, é onde eu me sento, os cotovelos apoiados nas tábuas irregulares, bebendo meu café e pensando (muito mais preguiçosamente do que meu avô permitiria) em escrever.

Ela já não é mais uma mesa de trabalho. É nela que comemos, e há muitas noites em que três gerações se reúnem a sua volta, tendo que levantar para pegar uma fatia de pão ou uma pitada de sal do outro lado, por causa da largura.

Embora tenha passado várias décadas escondida em um porão úmido após a morte de meu avô, ela hoje é o centro de tudo na nova casa da minha família, situada exatamente no meio da sala principal que, por sua vez, fica bem no meio da casa que, também por sua vez fica exatamente no meio do caminho entre o templo shaker em que ele vivia e o campo em que morreu.

Às vezes esse alinhamento geográfico me dá arrepios, mas na maior parte do tempo tenho a sensação de que tudo está exatamente onde deveria estar.

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