Jihadista John, de jovem londrino gentil a carrasco do Estado Islâmico

"Quero me tornar um jogador de futebol e marcar gols", dizia Mohammed Emwazi aos 10 anos de idade em seus registros acadêmicos publicados pelo jornal 'The Sun'

iG Minas Gerais | AFP |

Integrante do Estado Islâmico aparece em vídeo com dois reféns japoneses e exige 200 milhões de dólares para libertá-los
AL-FURQAN MEDIA / AFP
Integrante do Estado Islâmico aparece em vídeo com dois reféns japoneses e exige 200 milhões de dólares para libertá-los

Testemunhos sobre Mohammed Emwazi, vulgo "Jihadista John", carrasco do grupo Estado Islâmico (EI), traça a jornada de um jovem londrino que nasceu no Kuwaiti sem problemas, era fã de futebol e videogame até a sua radicalizaçãom, quando se tornou um assassino descrito como "frio, sádico e cruel".

"Quero me tornar um jogador de futebol e marcar gols", dizia Mohammed Emwazi aos 10 anos de idade em seus registros acadêmicos publicados pelo jornal The Sun.

O jornal também revela uma foto de turma em que ele aparece sorrindo, sentado de pernas cruzadas, uniforme vermelho e colarinho branco, entre seus companheiros.

"O aspecto, talvez, mais impressionante na jornada do Jihadista John, o homem mais procurado do mundo, é como ele era uma pessoa comum em sua juventude", ressalta o Daily Telegraph sobre este homem apresentado como o carrasco mascarado que aparece em vários vídeos do EI de decapitações de reféns.

Emwazi nasceu no Kuwait em 1988. Seus pais, Jasem e Ghaneya, instalaram-se na capital britânica em 1993, após a primeira Guerra do Golfo, quando ele tinha seis anos, de acordo com relatos da imprensa.

Em Londres, a família Emwazi, "pacífica e apreciada", segundo um ex-vizinho, seguia uma vida tranquila no oeste da cidade. Seu pai dirigia uma empresa de táxi, enquanto sua mãe era dona de casa.

O jovem Emwazi era um londrino típico, que brincava com seus amigos e parecia "não estar focado na religião naquele tempo", segundo descreveu um antigo colega, citado pelo Telegraph.

 

A radicalização

Bom aluno, ingressou na Universidade de Westminster em 2006, no curso de informática, e mantinha, pelo menos inicialmente, uma reputação de jovem "polido", "com uma propensão para a moda".

Mas seu comportamento começou a mudar, sinal, talvez, de um início de radicalização:  deixou a barba crescer e evitava contato visual com mulheres.

O ano de 2009 parece ter sido um ano crucial para Emwazi, que começou a despertar a atenção do serviço de inteligência interno britânico (MI5).

Depois de se formar, mudou-se para a Tanzânia com dois amigos, justificando que faria um safári. Mas, em Dar es Salaam, foi preso por um curto período, após as autoridades locais  receberem, aparentemente, instruções de Londres, que temia que ele tentasse viajar à Somália.

Ele então retornou para o aeroporto de Schiphol, na Holanda. De acordo com seu próprio relato, divulgado pela Cage, uma organização de defesa dos direitos dos muçulmanos com sede em Londres, ele passou a ser assediado pelo MI5, que supostamente tentou recrutá-lo.

Interrogado por um agente secreto sobre a guerra no Afeganistão, ele respondeu: "O que eu acho? É que tenho visto inocentes sendo mortos todos os dias nos jornais".

Em seguida, Emwazi seguiu para o Kuwait, seu país de origem, para viver com a família de sua noiva, tendo voltado para Londres em maio de 2010.

 

'O inglês que mata pessoas'

A inteligência britânica estava convencida de que havia algo suspeito em Emwazi. De acordo com documentos judiciais citados na imprensa britânica, o jovem tinha relações com o "London Boys", uma rede extremista próxima dos shebab, ramo somali da Al-Qaeda.

Emwazi também visitava em Londres Bilal al-Berjawi, um combatente shebab que mais tarde foi morto em um ataque com drone em janeiro de 2012.

Os próximos passos no Reino Unido foram cada vez mais tênues. No início de 2012, tentou sair do país, mas as autoridades britânicas conseguiram evitar, antes que ele desaparecesse.

Em 2013, Emwazi chegou a Síria. A este estágio, várias testemunhas já o descreviam como um assassino de sangue frio.

"Nos últimos dois anos ele subiu na hierarquia da organização (Estado Islâmico) e passou a desempenhar um papel importante entre os combatentes estrangeiros", de acordo com o The Guardian.

Como muitos jihadistas, mudou seu nome para "Abu Abdullah al-Britani", e se fez notar em Raqa, reduto do EI na Síria.

"Lembro-me de vê-lo várias vezes", contou um ex-membro do EI citado pelo Guardian. "Para nós, era o inglês que matava pessoas".

"Um tipo frio, sádico e impiedoso", descreve um ex-refém.  

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