Para o armário, nunca mais!

Drag Queens - Classe ganha mais visibilidade, mas luta por legitimidade ainda tem longo caminho

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Velha guarda - Marilu Barraginha foi uma das primeiras ainda na década de 90
Marcelo Loop/Divulgação
Velha guarda - Marilu Barraginha foi uma das primeiras ainda na década de 90

RuPaul: talvez você reconheça esse nome em alguma memória perdida dos anos 1990, quando ela (ou ele, que já disse que não se importa com a forma como os outros o chamam, contanto que o chamem) se transformou na primeira drag queen mundialmente famosa, depois de estampar capas de revista de circulação global, lançar o disco “Supermodel of the World” (1993) e se tornar a primeira modelo drag da grife de cosméticos M.A.C. 

Após um período distante dos flashes, a estrela norte-americana, hoje com 54 anos, retornou à cena e tem sido uma das responsáveis por uma nova – e crescente – onda de interesse pelas drag queens ao redor do mundo, dentro e fora do meio LGBT. Seu programa de TV, o reality show “RuPaul’s Drag Race”, estreia a sétima temporada nesta segunda (2) em franca ascensão de popularidade, chama a atenção para esse universo e é inspiração para uma série de festas de apelo drag, não mais restritas aos espaços tradicionais desse nicho.   Desde o ano passado, a vinda das próprias competidoras do programa de RuPaul dos EUA para festas tem intensificado esse fenômeno e, pela primeira vez, BH recebe uma delas: Jujubee, uma das finalistas da segunda temporada e das mais queridas de todas as edições, vem à cidade se apresentar na festa @bsurda, no Roxy Club, na próxima sexta (6).    Cada vez mais frequentes em todo o Brasil, Belo Horizonte inclusa, eventos, programas de web TV e peças teatrais têm contado com a presença e performance de drag queens. Mas apesar da crescente abertura desse segmento na capital, há um longo caminho ainda a ser percorrido por elas no que diz respeito a legitimidade, valorização, fim dos preconceitos. Na atual Campanha de Popularização, por exemplo, nomes como Nayla Brizard, Kayete e Marilu Barraginha estão em cartaz. Mas chegar até aqui, segundo Barraginha, ou melhor, seu intérprete Rogério Viola, 40, que tem mais de 20 anos de carreira, não foi nada fácil. “Quando começamos ‘As Barbeiras’, ninguém queria nos dirigir. Não tínhamos credibilidade”, lembra. Apesar disso, já são sete anos em cartaz e o espetáculo figura na 12ª posição no ranking das peças mais vistas da atual campanha.   Esses casos, no entanto, ainda são exceções. “Atores que interpretam mulheres são uma coisa. Artistas transformistas nos espetáculos são outra e ainda são poucos, isso ainda precisa avançar”, comenta Bruno Souza Leal, professor do departamento de comunicação social da UFMG e ex-presidente da Associação Brasileira da Homocultura. O que de positivo acontece agora, segundo ele, é fruto de uma ampliação dos espaços de performance que recebem esses artistas.    Os shows de drag queens em Belo Horizonte atualmente se concentram nas casas tradicionais, mas há algum tempo começaram a se expandir para festas de pegada mais alternativa, como a Dengue - Duelo de Vogue e a própria @bsurda, eventos, como a Virada Cultural e os festivais de verão e de inverno da UFMG, além do CentoeQuatro e da Gruta. “É um processo em curso. Considero desejável que esses ambientes se ampliem e se diversifiquem, só não gostaria de afirmar que há plena aceitação. Ainda são poucos os espaços regulares para as apresentações”, diz Leal.   Relações de trabalho Em geral, a maioria dos contratos das drags é informal. “Sou contratada hoje com carteira assinada pela boate Estação 2000, a primeira de BH a fazer isso”, conta Barraginha. Porém, mais uma vez ela é exceção e a realidade profissional continua sendo complicada para a maioria das drag queens. Sob esse ponto de vista, ainda estão na marginalidade. “Mesmo se tratando de uma atividade que envolve o glamour, o aplauso, ela não escapa ao preconceito a que o homossexual está submetido e isso fica evidente nos contratos de trabalho, nas remunerações, no tratamento dos donos dos estabelecimentos”, avalia Luiz Alex Silva Saraiva, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG que orienta dissertação sobre a construção socioprofissional das drags. “Acabamos vendo uma reprodução da violência que sofrem socialmente por conta da orientação sexual estendida ao contexto econômico”.   Foi isso que afastou Malonna da noite belo-horizontina, onde foi figura frequente por quase dez anos. “Há um ano e meio me mudei para São Paulo. Trabalhar como drag em BH é muito sofrido”, diz. Na capital paulista, Mallona conseguiu maior visibilidade e autonomia para o seu trabalho, mas continua tendo que suar para não enfrentar situações de abuso. “Conheço gente que investe R$ 3.000 num look, faz peruca de cabelo humano, compra maquiagem de marca e aceita trabalhar por cachê de R$ 150. Eu, por esse valor, não tiro nem a barba”, conta. “Mas como em alguns cantos é um trabalho tão estigmatizado, entendo que aceitem porque sabem que se não o fizerem, o contratante vai chamar alguém que vai querer fazer por R$ 100”.   Censuradas em BH nos anos 60 A presença de homens “montados”, ou seja, caracterizados com elementos atribuídos ao universo feminino, não é novidade na cena cultural. O significado do termo drag está associado tanto à expressão “dressed as girl” (vestido como garota, em inglês), quanto ao verbo arrastar, e foi usado por Shakespeare, quando mulheres não eram permitidas no teatro, para identificar os atores de suas peças que faziam papel de mulher, em referência às longas saias que eles arrastavam pelo palco.    Em BH, os registros remontam à década de 1960. “Desde meados desta década, havia prática do transformismo em ambientes voltados para o público gay”, afirma Luiz Morando, professor do Uni-BH e pesquisador da constituição das identidades LGBT em BH. Ele cita como um dos pioneiros o clube Montanhês Dancing, na rua Guaicurus, que em seus tempos áureos, décadas antes, chegou a receber o cineasta inglês Orson Welles entre seus ilustres visitantes.    “Na época, era uma prática meio que proibida, até censurada pela polícia, em que homens que tinham identidade masculina durante o dia se transformavam nessas noites, de forma artística, fosse em estilo mais caricatural ou glamouroso”, explica Luiz.    A drag queen vem na esteira da evolução desse processo, já que, mais requintada que a transformista, consegue atingir outras camadas da população. “A popularização do termo na década de 1990 se dá por conta de RuPaul e, principalmente, por ‘Priscilla, a Rainha do Deserto’ (1994), um filme marcante da época, que fez com que esses artistas adquirissem maior status de ‘entertainers’ e vivessem um processo de reconhecimento artístico”, explica o professor do departamento de comunicação social da UFMG Bruno Souza Leal.    Foi aí a primeira saída do gueto, já que não estavam mais restritas à noite gay underground e passaram a ter lugar na mídia e também em confraternizações “convencionais”, como formaturas, casamentos ou mesmo “festas da firma”. 

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