Do baixo centro ao Vecchio Sogno

Quais as impressões de um crítico da baixa gastronomia de BH ao jantar em um restaurante estrelado?

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Rápida passada de olho no cardápio
Mariela Guimarães
Rápida passada de olho no cardápio

Ele aceitou nosso convite para jantar no Vecchio Sogno porque era uma oportunidade de “comer de graça”. Nós fizemos a proposta porque queríamos descobrir quem era a pessoa por trás do hilário blog Minhas Refeição. Seria uma experiência e tanto compartilhar uma mesa com o cara que foi o assunto na redação quando descobrimos seus posts espirituosos, em que relata uma espécie de passeio pela baixa gastronomia da capital. No mínimo, a ida a um dos mais estrelados restaurantes da cidade resultaria em mais um dos seus bem-humorados textos, até ali protagonizados exclusivamente por self-services, pratos feitos, fast-foods e tudo mais que se pode encontrar nas cercanias.

Missão recebida, lá fui eu encontrar Rômulo Tesch Santana. Quando cheguei à porta do restaurante, às 20h, como combinado, ele já estava lá. À primeira vista, seu rosto me lembrou alguém, só depois atinei: é a cara do Renato Russo! Muito alto, tem os trejeitos desengonçados típicos de quem tem mais de 1,80m. Ele vestia uma camisa azul, jeans e um tênis Adidas, que parecia ter vindo direto dos bloquinhos de Carnaval. Estava vestido de “Minhas Refeição”, descobri depois.

Rômulo é tímido. Isso ficou claro com a chegada de Sidney, o cameraman que iria filmar o jantar para o portal de O TEMPO. Tal qual o ovo estrelado dos seus PFs, Rômulo quase amarelou. Agarrou-se na única coisa que poderia consolá-lo naquele momento: seu celular. Sem pestanejar, tuitou: “Amores eu estou rindo de neuvosor (sic) alguém segura minha mão”.

Bastou a câmera ligar, porém, e seu semblante se transformou. Falou bem das suas expectativas e acrescentou que nunca tinha comido em um restaurante que tivesse mais do que um garfo e uma faca dispostos na mesa. No segundo take, voltou atrás e trocou o “nunca” por “poucas vezes”. Por onde será que Rômulo andou comendo e não contou pra gente?

E a noite nem tinha começado ainda. Foi o maître Rogério que nos recebeu e nos levou até o salão privado. Rômulo desfilou pelo salão com tranquilidade, sem se intimidar pela câmera e pelos olhares dos clientes do restaurante. Ele não parecia tímido?

Rômulo tem 25 anos e é servidor público da Advocacia Geral do Estado. Seu blog, hospedado no Tumblr, tem pouco menos de um ano. Copiando o que amigos já faziam na rede, decidiu compartilhar fotos e descrições do que comia. Até que os textos foram tomando outra forma, aproximando-se mais de crônicas. No Carnaval, foi reconhecido nas ruas de Belo Horizonte, o que espantou o blogueiro. Ele mantém página no Facebook e uma conta no Twitter.

Isso ele me contou quando já estávamos sentados e depois das perguntinhas básicas. “O mais chocante é que eu não tenho ideia do que estou falando. Não entendo nada de gastronomia, nunca li sobre o assunto e fico surpreso quando as pessoas dizem que leem o que eu escrevo. A categoria do blog é ‘bobeiras de internet’, não é comida”, confessou.

Perguntei sobre o almoço daquele dia: ele tinha mandado ver no caldo de mocotó no Nonô, em pé, em plena tarde de um dos dias mais quentes do ano. Normal para quem teve seu paladar forjado em trailers de hambúrguer, daqueles que servem maionese caseira em saquinhos, salmonela já incluída.

Falou que veio de Linhares, no Espírito Santo, para estudar direito em Belo Horizonte e que ficou por aqui depois de formado. Embora a mãe (que não sabe da existência do blog) cozinhe mal, a avó prepara “ótimos pavês e pudins”. Ele mesmo sabe se virar na cozinha, mas acha mais fácil procurar alguma coisa pelo centro do que se aventurar nas panelas.

Enquanto falava, Rômulo não aparentava ser o mesmo cara irônico e mordaz dos textos da internet. Um estilo que veio muito da experiência no Twitter (cujo nome de usuário ele pediu para não ser publicado). Engraçadinho em 140 caracteres, Rômulo trouxe o tom irônico do microblog para seus textos maiores.

O tête-à-tête, porém, é outra história, ainda mais num ambiente que nem de longe lembra o Matias, do qual é frequentador assíduo, principalmente após as 14h, quando o quilo baixa para R$ 16. Será que o restaurante na Tupinambás veio à mente de Rômulo quando ouviu o maître comentar sobre os clientes famosos que já haviam sentado naquela mesa – Ronaldinho Gaúcho, entre eles?

Mas, espera, a gente estava lá para comer! E, sob o pretexto de que “pastel de vento eu como em casa”, Rômulo mal tocou no couvert que já estava sobre a mesa. Dispensou os pães de queijo, pastéis, grissinis e outros mimos da cesta, além de seus acompanhamentos, antepastos como sardela e patê de queijo. Achei que ele estava guardando espaço para o que viria a seguir.

Quando veio o cardápio, ele fingiu que o lia, mas se o menu estivesse de ponta cabeça não faria diferença. Seu critério foi objetivo: escolheu os pratos com os nomes mais longos. O raciocínio foi lógico, quanto maior o nome, maior a chance de ter mais ingredientes no prato.

Optou, então pela Insalata Prima Donna, sugestão do maître: mini alface verde e roxa, abobrinha grelhada, manjericão, mussarela de búfala, presunto de Parma, molho de limão siciliano com gengibre e pinoles, o tal “grãozinho” desconhecido por Rômulo. Bebeu apenas água, muitas garrafas ao longo de todo o jantar.

Na hora de escolher o prato principal, ele tinha à disposição um dos cardápios mais sofisticados da cidade, pratos com ingredientes caros, como foie gras e prime rib. Escolheu bife ancho de black Angus ao molho de pimenta verde, risoto de funghi e cogumelo porto belo grelhado na manteiga negra de ervas. Não tinha ideia do que se tratava, mas aceitou a sugestão. Só depois descobriu que se tratava de um “bifão com arroz”. E disse: “O mais perto que cheguei de um Angus foi do Angus Deluxe”, o sanduíche do McDonald’s que tem dois hambúrgueres e 863 kcal.

Enquanto esperávamos, ele contou que o fato de Minhas Refeição circular pelo baixo centro também não é intencional: é onde ele mora, trabalha e, claro, se alimenta. “Não acho que sejam lugares que quem me lê frequente. Talvez por isso eles se interessem. Há todo uma mística que envolve o centro.”

Na chegada do prato, fez cara de espanto: normalmente “suas refeição” não vêm servidas com um cloche, a tampa de metal que é aberta na presença do comensal. Rômulo se entusiasmou com o “bife de dois dedos de grossura” e que levou quase uma hora para ser vencido. A reação foi imediata: um suspiro, após a primeira garfada. O risoto? “Topíssimo.” Os cogumelos? “Uma explosão de sabores na boca.” Só depois é que se lembrou de sacar o celular para registrar o prato, o que ajudou a revelar, na imagem, o interior rosado e suculento da carne.

Na hora da sobremesa, pediu uma sugestão menos doce, prontamente atendida com uma emulsão de chocolate belga com sorvete de pistache e limão com farofa de avelã, que chegou em um prato muito decorado para os padrões de Rômulo. “Achei o prato delicioso, mas o visual meio exagerado.”

Avaliação final após o jantar de R$ 145? “Vai ser difícil voltar para o self-service de R$ 10!”, disse.

Mas é importante dizer duas coisas para o Rômulo. A primeira é que ele pode ficar tranquilo: a conta não será enviada para sua casa. A segunda é que ele conhece o Vecchio Sogno, mas Ronaldinho Gaúcho nunca foi ao Matias.

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