Uma maioria que aceita ser enganada

iG Minas Gerais |

Não sei se é característica da alma brasileira satisfazer-se em expor-se ao engano. Também confesso a minha ignorância em desconhecer alguma monografia a respeito da relevância do tema. Aprecio o pensamento famoso de Lincoln: “É possível enganar a todos por algum tempo; é possível enganar alguns por algum tempo; mas não é possível enganar a todos por todo o tempo”. Reflexão magistral que muitas vezes revelou aspectos da face de povos de variadas origens e culturas, em determinadas fases da vida das nações, tanto ontem quanto hoje, inclusive nos Estados Unidos. Também não sei se é óbvio preferirem mais os demagogos que utilizam a segunda hipótese do ex-presidente norte-americano. De qualquer forma, a soberania popular muito sofre com as manipulações das sociedades humanas quando, por esse processo diabólico, os dirigentes e governantes fazem murchar as sementes da liberdade e abalam as estacas das democracias até o seu desaparecimento. É o preço que a sociedade política livre paga quando os controles sobre o exercício do poder colapsam e as instituições soçobram. Infelizmente, esse patrimônio formado para conter o Estado se esvai, especialmente na América Latina, como tem acontecido na triste Venezuela, muito aplaudida e apoiada por setores da esquerda brasileira mais retrógrada. Essas considerações me vieram ao espírito, já com certo atraso, ao ler o artigo de Merval Pereira de “O Globo” de dias atrás. O título vem a propósito nesta quadra da vida política do país: “Me engana que eu gosto”. Parece a exclamação de uma maioria que, pelas pesquisas de opinião recentes, já não são nem mais as mesmas maiorias apertadas que deram a reeleição à sra. presidente da República, refém de um pequeno deus, supostamente capaz de interpretar milhares ou milhões de desejos e esperanças das pessoas, manipulando-lhes a vontade pela força do engodo, que oblitera a faculdade de compreensão para escolher. Instrumentos a mancheias, a criatura sobrenatural realizou a burla sem limitações, a fim de tornar vitoriosa uma candidatura sem estatura para governar. Senhor da candidata, conduziu-a, de maneira absurda, a crer que o escândalo na Petrobras se deveu à incúria do presidente FHC, que, descumprindo os deveres de chefe do governo, deixou de mandar investigar a empresa em 1996 e 1997. Se o tivesse feito cerca de 20 anos atrás, ter-se-ia, sem denúncia à época de um sr. Barusco, posto a mão nele e desbaratado uma quadrilha que nem na fantasia de ninguém existia. Raciocínio fantástico para um golpe genial... Comentário do articulista Merval Pereira: “Todos esses fatos mostram que o PT sabe mesmo é fazer luta política, sem se importar com a veracidade do que é dito nem com as consequências”. Disso tudo, sobra uma conclusão para o balanço final, como na síntese de Brás Cubas: os anos do PT foram tempos do maior atraso imposto ao Brasil, em qualquer período da sua história. O partido me lembra o aforismo de Miguel de Unamuno: “a liberdade é a consciência da lei”.

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