Uma comédia noir sem muito groove

Longa adapta romance noir de Elmore Leonard, o mesmo de “Jackie Brown”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Elenco. John Hawkes é destaque da produção, enquanto Aniston sofre com uma personagem muito fraca
h2o films / divulgação
Elenco. John Hawkes é destaque da produção, enquanto Aniston sofre com uma personagem muito fraca

Quando as águas de março começam a cair, não se trata somente do encerramento do verão, ou de promessa de vida no seu coração. É Deus chorando pela enxurrada de lançamentos meia-boca que invadem o cinema na temporada pós-Oscar.

O período entre o fim das premiações até o início da chegada dos blockbusters do meio do ano é marcado por filmes sem grande qualidade técnica nem muito apelo comercial, que os estúdios despejam para tapar buraco, na esperança de que algum “cole” com o público.

“Sem Direito a Resgate”, que estreia hoje, é um ótimo exemplo dessa fase. O longa é a adaptação de um autor de renome (Elmore Leonard), com uma estrela no elenco (Jennifer Aniston), mas o produto final não funciona totalmente porque não se decide entre a comédia de erros e o thriller. E isso fica mais latente ainda porque a história se passa no mesmo universo de “Jackie Brown”, que já foi levado aos cinemas no que é simplesmente um dos melhores filmes da carreira de Quentin Tarantino.

Em “Sem Direito a Resgate”, os criminosos Ordell Robbie (vivido por Mos Def aqui e por Samuel L. Jackson em “Jackie Brown) e Louis (John Hawkes) decidem, com a ajuda do neonazista Richard (Mark Boone), sequestrar Mickey Dawson (Aniston), esposa do empreiteiro corrupto Frank (Tim Robbins). O que eles não sabem, porém, é que o casamento dos dois não vai bem. E, apaixonado pela amante, Melanie (Isla Fisher aqui e Bridget Fonda no longa de Tarantino), Frank está prestes a pedir o divórcio.

Quando o marido se recusa a pagar o resgate, as coisas começam a desandar, e as alianças entre os personagens vão mudando, definindo o desfecho da história. Pela sinopse, já é possível perceber um certo parentesco com a trama de “Fargo”. E o principal problema do filme do diretor Daniel Schechter é não se decidir entre o tom farsesco do longa dos irmãos Coen e o suspense dramático de Tarantino em “Jackie Brown”.

Passado nos anos 1970, “Sem Direito a Resgate” abusa do soul e do funk da época na trilha. Associado aos movimentos de câmera, aos figurinos e penteados, isso busca dar uma leveza e certo groove à produção. Só que isso nunca se reflete no ritmo da montagem, mais lento e focado nos silêncios e nos sentimentos nunca verbalizados entre os personagens.

Se, por um lado, a lentidão incomoda – já que, nesse tipo de filme, a velocidade ajuda o espectador a não questionar muito as reviravoltas e o caráter mutante dos personagens –, por outro, ela é coerente com a história. Porque tudo nela – e o maior acerto de Schechter é entender isso muito bem – é movido pelas relações entre os personagens.

Ordell e Louis decidem fazer o sequestro, mas a primeira cena mostra que eles não são tão amigos assim – e Louis não esconde o asco que sente por Richard. O casamento abusivo de Mickey e Frank é o que vai determinar o rumo do sequestro. O amor (ou não) de Melanie pelo amante também vai ser fundamental, assim como a aproximação de Louis e Mickey.

O maior mérito do longa é estabelecer e encenar muito bem essas relações e seus deslocamentos, auxiliados por um bom elenco. O destaque é o sempre competente John Hawkes, que protagoniza o melhor momento do filme, num roubo de carro filmado em um belo plano-sequência. Já Aniston é a que mais sofre com sua personagem, que demora demais em ganhar uma voz e deixar seu papel de vítima, passiva e submissa.

“Sem Direito a Resgate” peca ainda com um final que parece o início de um terceiro ato. Um desfecho que deixa o espectador desejando algo mais genial, mais surpreendente, mais satisfatório. Mas nem tudo na vida pode ser um Tarantino.

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