Comércio fecha as portas após morte de adolescente

Toque de recolher foi imposto na segunda (23), depois que sobrinho de um dos líderes do tráfico do bairro foi executado

iG Minas Gerais | DAYSE RESENDE |

Comércio na Duque de Caxias não funcionou na segunda (23) e na terça (24) após toque de recolher
João Lêus
Comércio na Duque de Caxias não funcionou na segunda (23) e na terça (24) após toque de recolher

A maior parte dos comerciantes da avenida Duque de Caixas, no Teresópolis, fechou as portas no fim da tarde de segunda-feira (23) após um adolescente de 17 anos ter sido morto em um tiroteio entre gangues rivais que disputam o controle do tráfico de drogas na região. Segundo moradores, o menor seria sobrinho de um ex-líder da gangue do Gás, o Rodriguinho. Ele está preso há mais de um ano no Centro de Remanejamento Prisional (Ceresp) de Betim, mas continuaria dando ordens de dentro da prisão.

Apesar de a Polícia Militar (PM) negar que foi imposto um toque de recolher no bairro, as lojas ficaram fechadas na segunda (23) à tarde e na terça (24) e só foram reabertas na quarta (25). Tudo começou quando o menor foi atingido por cinco tiros. Testemunhas contaram aos militares que os suspeitos chegaram em um Fox de cor prata. De acordo com o boletim de ocorrência, populares levaram  o menor para a Unidade de Atendimento Imediato (UAI) do bairro. Ele chegou a ser transferido para o Hospital Regional, mas não resistiu aos ferimentos. Um outro rapaz que estava com ele ainda trocou tiros com os autores, mas conseguiu fugir e não foi atingido.

Após o crime, bandidos passaram nos comércios mandando os proprietários baixarem as portas. “Após a morte do rapaz ser confirmada, dois homens passaram nos comércios e deram a ordem para baixarmos as portas. Os comerciantes que ignoraram, foram intimidados. Os dois estavam com armas na cintura”, disse um comerciante.

Na terça (24), vários policiais estiveram no bairro para dar segurança e impedir novos ataques. Viaturas das Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas (Rotam), com 24 militares de Belo Horizonte, e do tático móvel reforçaram a segurança.

Ao todo, 45 policiais participaram da ação, que terminou na apreensão de dois revólveres, uma submetralhadora, drogas e cinco quilos de explosivos. A submetralhadora estava na casa de um homem e havia sido roubada de uma carga da PM, além de estar com a numeração raspada. Dois homens, Eri Johson de Jesus Santos, 19, e Helberton Souza dos Santos, 26, foram apreendidos. “Fomos a algumas residências, uma delas, inclusive, é de um indivíduo que teria ordenado o toque de recolher, e fizemos grandes apreensões. Há realmente uma disputa entre grupos dos bairros Teresópolis e Jardim Perla”, disse o sargento Washington Gonçalves, da Rotam.

Por causa do ocorrido, comerciantes e moradores do Teresópolis se sentem amedrontados. Em janeiro, a região liderou o número de execuções ocorridas na cidade. “Já há inocentes sendo atingidos por balas perdidas. Infelizmente, a polícia está perdendo a guerra para os traficantes”, disse o comerciante. Ele completou, ainda, que quem vive e trabalha no bairro está apreensivo. “Estamos com medo. Eu mesmo quero vender meu comércio”.

Outra execução Outro menor foi assassinado a tiros no Teresópolis na madrugada de quarta (25). A vítima foi atingida enquanto estava na porta de um bar.

Segundo a PM, testemunhas contaram que o menor estava sentado em uma calçada conversando com outra pessoa quando foi assassinado. “Dois homens chegaram e começaram a atirar. O menor tentou se esconder no estabelecimento, mas acabou sendo atingido”, contou um militar.

Apesar de o crime ter ocorrido menos de 48 horas depois da execução do sobrinho de Rodriguinho, a polícia não vê ligação entre essas duas mortes, que serão investigadas pela  Polícia Civil.

 

Minientrevista

Quantas gangues disputam a liderança do tráfico de drogas no Teresópolis atualmente?

Basicamente, são duas: a do Campo, antes controlada pelo Gleissinho, e a do Gás, que também já foi controlada pelo Rodriguinho. No passado, essas gangues eram unidas. A briga delas era com as gangues do Vila Recreio e do Campo Formoso. No entanto, desde que o Rodriguinho e o Gleissinho foram presos e tiveram uma briga dentro do presídio, houve um racha, e a guerra prevaleceu entre a do Gás e a do Campo. Esses dois líderes continuam impondo ordens de dentro do presídio. Mas quem os representa aqui fora?

O Rodriguinho está sendo representado por um de seus irmãos, o Alexandre, conhecido como Normal, e o Eltinho. Já no lugar de Gleissinho estão o Ezinho e o Naná. Qual dessas gangues estaria mais forte? É difícil opinar. A turma do Rodriguinho expulsou a do Gleissinho do Teresópolis, e hoje ela está concentrada no Jardim Perla. Os integrantes de cada uma delas andam sempre armados, tentando dar fim ao poderio do outro. Por isso, ocorreram tantas mortes nos últimos meses. O menor de 17 anos, que era sobrinho do Rodriguinho, foi apenas mais uma  vítima. Como os moradores e os comerciantes se sentem? Com muito medo. É comum, a qualquer hora do dia, ver homens armados andando pelas principais ruas do bairro. Tem muita gente nova na região. Eu mesmo me mudei do Teresópolis há cerca de seis meses, desde que minha filha de 8 anos presenciou um homem sendo baleado no portão da minha casa. Ela ficou traumatizada, não dormia. Vendi minha casa e recomecei minha vida em outro lugar. Agora, quero vender meu comércio. A gente precisa trabalhar para sustentar a família, mas não tem paz. Qual o maior desejo da população? O que a gente espera é que haja policiamento permanente na região. Já há inocentes sendo atingidos por balas perdidas. Infelizmente, a polícia está perdendo a guerra para os traficantes. Você recebeu ordem para baixar as portas do seu comércio na segunda (23)? Sim. Após a morte do adolescente ser confirmada, Alexandre e Eltinho passaram nos comércios e deram a ordem para baixarmos as portas. Os comerciantes que ignoraram foram intimidados. Os dois estavam com armas na cintura.

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