O amor no tempo da tecnologia

Serviços online ajudam casais que fazem promessas de só assistirem a programas e séries juntos

iG Minas Gerais | Katherine Rosman |

“Mad Men”. Jed Kolko e Eric Rice só assistem juntos
amc/divulgação
“Mad Men”. Jed Kolko e Eric Rice só assistem juntos

Nova York, EUA. A exemplo de muitos casais, Jed Kolko e Eric Rice gostam de assistir juntos seus programas preferidos na televisão. A parte mais complicada é apertar o botão de ligar ao mesmo tempo.

Duas de suas séries favoritas são “Mad Men” e “The Good Wife”. Eles preferem assistir aos seriados logo depois da transmissão para evitar revelações do enredo na internet.

Porém, Kolko e Rice, ambos economistas, viajam com frequência a trabalho. Assim, este é seu truque: os dois se conectam nos smartphones. Então um liga o episódio desejado no televisor de casa enquanto o outro faz o mesmo no tablet em um quarto de hotel. “Nós tentamos começar exatamente no mesmo momento”, disse Kolko.

O simples ato de se reunir ao redor do televisor para dividir a experiência de assistir a um programa juntos parece cada vez mais incomum. Graças aos serviços de streaming, ao acesso na hora desejada e aos pequenos aparelhos que carregamos nos bolsos e bolsas, podemos assistir o que quisermos, quando quisermos, onde quisermos.

Todavia, com todas essas opções, pode ser difícil ajustar o onde, quando e como de duas pessoas ocupadas.

Para Kolko, assistir juntos funciona bem, mas a chateação de alta tecnologia necessária para produzir um prazer antiquado não se perdeu para ele.

“Nem o problema nem a solução existiriam alguns anos atrás”, ele disse.

As dificuldades aumentam quando se leva em consideração as maratonas para assistir (ou no caso de podcasts, ouvir) vários episódios de uma tacada só.

Existem pelo menos duas dinâmicas que complicam tal consumo. Em primeiro lugar, a maratona costuma ocorrer quando se está preenchendo um tempo vago, trocando em miúdos, quando se está aborrecido ou sozinho. Em segundo lugar, se você for viciado o suficiente em uma série, coordenar sua agenda com a de outra pessoa pode se tornar impraticável.

No romance moderno, resistir ao impulso de fazer uma maratona para assistir com o namorado ou a namorada é o novo equivalente de conhecer os pais ou dar um beijo comportado.

“Você sabe que encontrou a pessoa certa quando ela diz que não vai assistir ao próximo episódio do seriado que vocês têm acompanhado junto sem a sua presença”, tuitou Casey McGee, designer gráfica de 22 anos, de Boston.

Casey e o namorado, que mora a cerca de uma hora de distância, passaram um fim de semana em dezembro vendo os episódios de “Misfits”, comédia britânica. Ela ligou para ele durante a semana para saber se havia visto mais episódios e ficou comovida quando ouviu que não assistiria sem ela.

“Ele valoriza a experiência comigo em vez de só querer ver a série”, ela afirmou.

Foi preciso surgir “Serial” – podcast que conta a história real de um assassinato cometido em 1999 em Maryland – para que muitas pessoas tomassem conhecimento do assunto.

Com detalhes viciantes de autoria que lançam alternativamente uma visão de ceticismo e fé de uma forma ou de outra sobre praticamente todos os personagens, “Serial” publicou na internet um novo capítulo quase toda quinta-feira durante dois meses e meio no fim do ano passado. Dava para ouvir semanalmente ou fazer uma maratona com o número de episódios então disponíveis.

“Serial” juntou dois fatores que imploravam por maratonas e audição coletiva: o suspense que lembra um bom romance de detetive que se lê madrugada adentro, bem como um grande número de personagens e reviravoltas sinuosas no enredo que levam os fãs a se falarem para discutir as excentricidades do caso.

Molly Ringwald, atriz que muito tempo atrás foi o rosto da angústia adolescente para muitas pessoas, deu seu pitaco nesse dilema ao tuitar: “A definição da devoção: esperar até o fim do dia para ouvir o último episódio de ‘Serial’ com o marido”.

Telefonei para a Ringwald para debater a questão. Ela e o marido, Panio Gianopoulos, têm vidas ocupadas que incluem três filhos e seu trabalho como escritora e cantora.

Porém, eles também gostam de fazer maratonas com séries como “Breaking Bad” e “Game of Thrones”. A agenda de viagens de Ringwald lhe dá oportunidades para assistir no avião, mas ela costuma viajar sozinha.

Ela contou que o casal tem planos de encarar maratonas em meio a promessas de não assistirem nada sozinhos. “Nós somos bem disciplinados”, ela declarou.

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