Henrique busca um 'acerto de contas' com a história

Volante, um dos remanescentes da equipe vice-campeã de 2009, garante que esqueceu o passado, mas perseguição pela América ganhará um novo capítulo

iG Minas Gerais | JOSIAS PEREIRA |

Esportes - Belo Horizonte - MG
Treino do Cruzeiro

Na foto: Henrique

FOTO: FERNANDA CARVALHO / O TEMPO - 23.02.2015
FERNANDA CARVALHO / O TEMPO
Esportes - Belo Horizonte - MG Treino do Cruzeiro Na foto: Henrique FOTO: FERNANDA CARVALHO / O TEMPO - 23.02.2015

Henrique é um jogador eficiente, seu próprio estilo em campo e fora dele denota isto. Mas o perfil, por vezes, bucólico sofre uma mutação quando a bola rola. Aos 29 anos, ele é, sem dúvidas, um dos jogadores mais experientes do plantel cruzeirense. Dono de uma identificação com a camisa azul iniciada lá atrás, em 2008, quando Adilson Batista o tirou do Jubilo Iwata-JAP para defender as cores celestes. E é este prestígio que o faz ser uma das referências da Raposa, única peça que restou do meio-campo bicampeão brasileiro.

Titular absoluto no setor, Henrique chega a sua sexta Libertadores. E foi com a camisa celeste que ele viveu grandes momentos no certame internacional em 2009. Contra o São Paulo, veio a pancada de fora da área. Uma bola que pegou um efeito surreal e venceu a meta defendida por Denis. Mas foi também naquele fatídico ano que Henrique sofreu uma das suas maiores decepções na carreira. Aos seis minutos do segundo tempo, ele fez o gol que poderia selar a conquista, mas a dolorosa virada do Estudiantes-ARG silenciou a festa no Mineirão.

O grito do tri ficou preso na garganta, mas Henrique sabe que a vida é sempre marcada por novas oportunidades. Por isto, uma pá de cal no passado. Nesta quarta-feira, contra o Universitario, em Sucre, a luta pela América recomeça, e o volante celeste está ansioso para acertar algumas contas com a história. 

Confira, na íntegra, o bate-papo exclusivo com o volante:

O primeiro desafio será o Universitario. O que o torcedor pode esperar do Cruzeiro logo neste estágio inicial de competição?

Libertadores sempre são jogos complicados, jogos mais truncados, uma verdadeira batalha dentro de campo. Nós sabemos que a dificuldade é muito grande, ainda mais quando se joga fora de casa. Mas o Cruzeiro vai forte para este jogo, sabendo que tem grandes chances de vencer. A gente está confiante, ansioso para fazer um bom jogo lá em Sucre.

O fantasma da altitude é um discurso recorrentes dos times bolivianos. O quanto isto pode influenciar no desempenho do time? E como fazer para esquecer isto?

Altitude tem vários fatores, claro que ela prejudica porque nós não estamos acostumados a jogar nestas condições. Alguns sentem mais, outros menos, mas, para mim, o fator psicológico influencia bastante neste aspecto. Se ficar falando muito, colocando isto como o maior obstáculo, nossa mente vai estabelecendo o empecilho. Temos que ir tranquilos, sabedores de que as dificuldades existem, mas que podemos ir lá, superar tudo isto, fazer um bom jogo, com pensamentos bons, positivos, para que nada disto (altitude) interfira no nosso desempenho.

O Universitario não lhe é um adversário estranho. Você esteve em campo na vitória conquistada em 2009, em Sucre. O que você recorda daquele duelo?

Foi um jogo bem truncado, bem difícil, vencemos por um gol apenas. Mas fomos lá, mostramos o nosso futebol, jogamos, tivemos as dificuldades naturais, porém superamos tudo isto e fomos merecedores porque buscamos o gol a todo tempo. Buscamos sempre a vitória, passamos por cima de todos os obstáculos, e fomos premiados com o gol do Thiago Ribeiro.

Naquele mesmo ano, você marcou um belo gol contra o São Paulo, balançou as redes em uma final de Libertadores, mas o título não veio. Aquela derrota ainda lhe vem à mente?

A gente fica chateado porque foi uma dura derrota dentro de casa. Nós não contávamos com isto, gostaríamos de ter vencido, mas acredito que isto faz parte do futebol. Algumas circunstâncias internas que aconteceram naquele dia podem ter influenciado dentro de campo, mas faz parte do passado já, eu não fico lamentando muito porque o que aconteceu não tem como a gente mudar mais, não fico mais lembrando disto. Claro que a noite de uma derrota como aquela sempre é ruim, nem dormi naquele dia, mas isto já foi superado, faz parte do passado. Agora a gente vai em busca dos objetivos que temos pela frente para que venhamos ter grande êxito e conquistas por aí.

Após quatro jogos oficiais no ano, o Cruzeiro já mostra um certo entrosamento. Quando o time conseguirá atingir este ápice? Aquelas saídas em série te assustaram?

Tivemos um começo de ano com muitas mudanças, até a equipe encaixar, se entrosar, leva um tempo. Este jogo contra o Boa já revelou uma equipe mais solta, mais equilibrada dentro de campo, tendo bastante opções de passe, além de chances de gol. Nos jogos nós vamos adquirindo este entrosamento tão falado por todos, vamos adquirindo confiança. Acho que estamos crescendo, evoluindo no Mineiro, nestas competições maiores também. Estamos no caminho certo, de crescimento, esperado por todos os torcedores e quem vem acompanhando o Cruzeiro.

Já são 18 anos sem levantar o caneco da Libertadores. Você fez parte da equipe que poderia encerrar aquele jejum. A pressão para conquistar este título a cada ano multiplica?

Ela sempre vai existir, independentemente se for Brasileiro, Libertadores, claro que existe um desejo muito grande do clube, de nós jogadores, comissão técnica, por esta competição. Mas não é só nossa. Os clubes tradicionais, sejam eles brasileiros, estrangeiros, sempre entram neste torneio querendo vencer porque sabem que é uma competição desejada por todos. Sabemos que a torcida tem este desejo, também temos este objetivo, mas vamos com tranquilidade, com responsabilidade, vamos fazer o melhor para que este ano seja de conquistas também na Libertadores.

Como encarar este jogo pegado da Libertadores? Tem alguma preparação especial? O que passar aos jovens jogadores?

Esta catimba é natural, ela existe, mas nós, como atletas profissionais, estamos preparados e acostumados a vivenciar estes jogos, vivenciar esta pressão feita por estas torcidas sul-americanas, sempre bem apaixonadas. Quando a gente entra dentro de campo, a gente esquece o que está fora e busca fazer o nosso melhor.

No ano passado, o Cruzeiro demorou para encarnar o espírito de Libertadores e acabou passando por apuros na primeira fase. O que ficou de aprendizado daquela competição? O que é possível melhorar?

É uma competição que a gente queria, tivemos um começo mais complicado, buscamos a classificação, corremos atrás. Depois, nas oitavas, passamos, com dificuldades, mas tivemos o êxito, e nas quartas perdemos para um time que vinha bem (San Lorenzo), foi campeão. Devemos ter consciência de que este torneio tem algumas peculiaridades, não é uma competição qualquer, às vezes não só a técnica vence a partida, é preciso ter algo a mais, a dedicação dentro de campo, a vontade, querer mais. Com êxito ou não êxito você sempre tira lições. Quando conquistamos o Brasileiro, nós tiramos grandes experiências, como também na derrota aprendemos muitas coisas.

Neste início de ano, muitos afirmam que o Cruzeiro é um time mais brigador e menos técnico. Vocês também possuem esta percepção ou é só questão de dar tempo ao tempo?

É um começo, mudou-se muito, e claro que para você ter uma mobilidade como a do ano passado demora-se um tempo. O outro time já era mais leve porque tinha um entrosamento, o conhecimento um do outro. Este ano a gente apresenta um tipo de jogo mais intenso fisicamente porque tivemos várias mudanças, deixando o time com uma característica diferente. Até nos acostumarmos, até adquirirmos isto leva algum tempo.

Você é uma das lideranças do time. Qual a importância de ter esta avaliação da equipe nos momentos cruciais do duelo?

Dentro de campo, a gente fica em um setor que recebe bastante a bola, um setor que é necessário ter um bom posicionamento. Procuro sempre orientar, sempre falando da maneira que eu enxergo o duelo dentro de campo, corrigindo para que no jogo aconteça tudo certo. Se às vezes tem algo errado, a gente se ajeita entre nós mesmos porque às vezes não conseguimos ouvir o que o Marcelo fala.

Hoje você está atuando como um segundo volante. Se sente um titular absoluto? Não. Esta concorrência é boa, é legal, faz parte do futebol, sempre vai existir esta briga por vagas. É bom termos concorrência, o grupo fica mais qualificado, mais forte, a gente fica satisfeito por ter todos estes jogadores à disposição e é cada um lutando por espaço e todos ajudando o Cruzeiro a vencer. Vamos em busca deste tricampeonato, mas o grupo todo, unindo nossas individualidades e lutando partida a partida.