Balanço de uma folia sem fim

Regentes de blocos de rua de Belo Horizonte, Chaya Vásquez e Rodrigo Castriota refletem sobre a folia em 2015

iG Minas Gerais | LUCAS BUZATTI |

Marina Magalhães/Acervo pessoal e Fernanda Carvalho/O TEMPO
undefined

Foi curioso passar por um Brasil 41 tão bucólico e tranquilo no último domingo, depois de ver o lugar, por dias a fio, respirando Carnaval. A Praça Floriano Peixoto também retomara o cotidiano, com crianças brincando e adultos praticando exercícios. Enquanto marcava os passos com o ritmo das marchinhas ainda fresco na cabeça, minhas costas, canelas e joelhos doíam um bocado, depois de mais um mês tocando surdo em ensaios e blocos diários. Mas, logo à frente, sentados na grama, estavam dois incansáveis condutores do novo Carnaval de rua de Belo Horizonte, provavelmente mais exaustos que eu. De diferentes gerações, mas contemporâneos na transformação da folia, Chaya Vásquez, 35, e Rodrigo Castriota, o Chapinha, 25, tentavam assimilar a festa que acabara de terminar.

Impossível não sorrir ao ver a dupla um dia depois do Vira o Santo, encontro de blocos na praça da Estação que marca o fim do Carnaval de BH. É que, na ocasião, o onipresente Chapinha se fantasiou de Chaya – com direito a lente azul e tatuagens –, em homenagem à argentina-brasileira, pioneira na história do Carnaval de BH. “Quando acaba, dá um vazio, né?”, reflete a percussionista, que puxou, além da Alcova Libertina (banda/bloco da qual é uma das criadoras), os blocos da Praia, Mamá na Vaca, Blocomum Luiz Estrela, Peixoto, Manjericão e Filhos de Tcha Tcha. Já Chapinha ajudou a puxar todos os citados por Chaya, além de reger seu bloco do coração, o Então Brilha, e os blocos Pula Catraca!, Chama o Síndico, Tchanzinho da Zona Norte, Juventude Bronzeada, Pisa na Fulô, o anárquico Bloco do Mendonça e o nonsense Filhas de Lux. Cansados, porém satisfeitos, os regentes analisam o saldo do Carnaval; positivo, como deixam explícitos os sorrisos. “Fiquei muito feliz com as pessoas. Vi muita alegria, muito respeito, dentro e fora da bateria. É claro que tem problemas, como em qualquer aglomeração. Mas não é uma coisa específica do Carnaval”, analisa Chaya, com seu característico sotaque portenho. Pego por uma amigdalite, felizmente no fim da festa, Chapinha concorda que o sucesso do Carnaval de rua, feito por blocos espontâneos e independentes, afastou temores de superlotação que o antecederam. “Esse lance do medo rolou muito na imprensa, de que os blocos não iam conseguir se organizar, que estavam cancelando ensaios. Mas a coisa foi outra. Foi tudo lindo, cheio de amor, sem confusão”, ressalta, ponderando que sua visão, assim como a de Chaya, se refere a um circuito muito específico, formado por blocos responsáveis pela revitalização recente da folia, que começou em 2009. “Não dá para a gente falar como foi o Carnaval. O que vivemos é só um recorte”, diz o economista, envolvido com a folia desde 2011. Dentro desse recorte, ambos destacam a persistência e a humildade de batuqueiros que compareceram aos ensaios para fazer bonito e deram garra durante a festa. “Fica muito claro quando um bloco ensaia ou não. O som é outro. A galera tem que ir aos ensaios, mesmo. Estamos mexendo com história, com tradição. Acho muito legal quando o povo consegue entender e respeitar isso”, pontua Chaya. “Vibrei ao ver muita gente que nunca tocou sabendo se respeitar, olhando quem está com o apito, que é uma pessoa que está ali para ajudar a organizar. Não é um mestre, um maestro”, defende a percussionista, que também reaprendeu a lidar com a regência nas ruas. “Eu vim do maracatu, que é muito rígido, não pode errar. No Carnaval, cheguei achando que a regência era só o que eu tinha aprendido, mas depois vi que aquilo não servia para rua. Só aí consegui ceder e sorrir o tempo todo”, relembra Chaya, que conduz blocos de BH desde 2009. “O equilíbrio entre a festa e o compromisso, com a vontade de aprender e de ajudar o bloco, que é lindo. E vi muito disso nesse ano”. Dono de uma energia invejável, Chapinha conta que “virou” regente quando deram-lhe pela primeira vez um apito e o incentivaram a organizar a bateria. “Fiz um movimento com a mão e todo mundo parou, certinho. Aí eu vi que rolava”, conta ele, que concilia a economia com a música. “Não sou músico de formação, mas sempre respirei música. Estou preparando um disco, na amizade mesmo, com amigos parceiros como o pessoal do Graveola, o Rafael Martini”, revela. Para o entusiasta-mór da folia, o Carnaval de 2015 teve duas diferenças primordiais com relação aos anos anteriores. “O primeiro ponto é que está atingindo, mesmo, outras camadas de público. Vi gente que eu nunca que pularia Carnaval aqui. O segundo ponto foi a tentativa de apropriação comercial. Bloquinho colando com patrocínio, com balões de cervejarias”, critica. Chaya lembra que houve, pela internet, cooptação por páginas ligadas a uma cervejaria, que aplicaram logomarcas em fotos e materiais de divulgação dos blocos, assunto que rendeu um manifesto de repúdio, divulgado nesta manhã pela página "Carnaval de Rua BH". Sobre os aspectos negativos, Chapinha lembra a ausência de apoio do poder público, que se limitou, quando muito, a colocar banheiros químicos, deixando a segurança e a organização da festa por conta da autogestão dos blocos. “Isso sem contar a falta de transparência com o recurso público, que é um problema em qualquer instância. Mas, no Carnaval, que é uma coisa pequena, a coisa fica evidente. É muito duvidoso, sabe. Como não conseguem botar dois banheiros químicos num bloquinho de 100 pessoas, mas consegue montar estruturas gigantescas em outros circuitos?”, questiona. Chaya completa e analisa: “A impressão que dá é que estão gastando o dinheiro com outras coisas, porque há mesmo um descompasso. Mas, ao mesmo tempo, parecem querer se apropriar do Carnaval, o que nós não vamos deixar. O sucesso desse ano mostrou, de novo, que o povo, coletivamente, é capaz de fazer sozinho”. Chaya também destaca a situação tensa vivida pela Alcova Libertina durante uma apresentação no palco da prefeitura, na praça da Estação. Um dia antes, a banda havia tocado em um trio elétrico na avenida dos Andradas, arrastando mais de 60 mil foliões. “Topamos fazer o show porque precisávamos do cachê, totalmente simbólico, para ajudar a pagar o trio, que foi custeado com dinheiro do nosso bolso, sem nenhum outro tipo de recurso”, explica. “Quem conhece a Alcova sabe que temos um discurso político, de contestação. Então, pouco depois que o Thiakov (guitarrista) falou sobre a desmilitarização da polícia, surgiu um cordão de PMs atrás do palco, querendo interromper o show e prendê-lo. Fazendo terror mesmo, sabe. Eles vieram truculentos, abrindo caminho pelo público com cacetetes. Uma vergonha”, critica a percussionista, concluindo que a corporação “só mostrou porque o assunto é mesmo urgente de debater”. “Água, mãe, quero água”, interrompeu a pequena Maia, filha de Chaya, lembrando que o papo já havia passado de uma hora e meia. Mas, para fechar, perguntei: “E nos próximos anos, o que virá?”. “Ai, é tão difícil. Nunca dá para saber. Eu e Guto (Borges, historiador e regente de blocos) nunca conversamos sobre o que vai acontecer e sempre dá certo, sabe? Ainda estou tentando assimilar o que foi esse ano”, diz Chaya. Chapinha defende que o caminho é fortalecer a união entre os blocos, que devem seguir se organizando coletivamente para que a festa continue cada vez mais bonita e afinada. “Estou pensando em fazer um crowdfunding para uma oficina sopros. Agora, tem muita gente na bateria, mas sopristas novos mesmo são poucos. Até porque exige mais estudo, mais dedicação”, sugere frenético, já pensando a próxima folia. “O bom é isso, né. A festa acabou, mas o Carnaval continua o ano todo. Nunca vai ter fim”, conclui Chaya.

Leia tudo sobre: CarnavalBelo HorizonteBH2015foliafestabalançoentão brilhappkalcova libertinachama o síndico