Encontro para se despedir

Em comemoração aos cinco anos de atuação, Cia Afeta retorna com o espetáculo“Talvez Eu me Despeça”

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |

Participação. Abertos ao convite, público integra à festa da despedida e agracia atriz com abraços
GUTO MUNIZ/DIVULGAÇAO
Participação. Abertos ao convite, público integra à festa da despedida e agracia atriz com abraços

O enredo parte de uma motivação conhecida: uma homenagem póstuma, no caso, à Ciça Bizzotto, atriz assassinada em 2012, durante um assalto. Ao longo do luto, a amiga e companheira de ideais artísticos, a também atriz Beatriz França, se propõe a usar o teatro para expressar sua perda. “Ciça era uma pessoa que me alimentava e me instigava ao experimento. Por isso, a despedida nos palcos”, comenta Beatriz.

A atriz já havia realizado uma performance em homenagem a Ciça junto à artista Ludmila Ramalho em um encontro organizado por Marcelo Bones e amigos na praça Floriano Peixoto, dias após a morte dela. Vestidas de branco, com as bocas pintadas com o mesmo batom que Ciça usava, elas distribuíam beijos às pessoas que se encontravam ali para se despedirem e também se manifestarem contra a violência. Era o começo do enfrentamento de um novo risco: lançar-se pela primeira vez na criação de um solo, novamente, ao lado de Ludmila, que estreava na direção. O espetáculo seria também o retorno de França para os palcos, após quatro anos. Com dramaturgia de Daniel Toledo, o único da equipe que não era próximo a Ciça, embora ele tenha trazido um necessário olhar de distanciamento, o trabalho se transformou no que Beatriz chama de “performance documentária” ao levar a realidade para o palco e colocá-la em um estado de cena. Entre a personagem e a não personagem, o espetáculo se desenvolveu a partir de uma disposição por se revelar. “Toda essa experiência resulta em autoconhecimento, claro. Não tenho como negar o efeito terapêutico que isso me trouxe, mas não criamos o espetáculo com essa intenção”, diz. Valendo-se de cartas, textos, fotos, vídeos e até de uma gravação da voz de Ciça, o espetáculo transforma-se em um verdadeiro ritual de pequenas despedidas, em que se canta, chora, abraça, e mais do que esquecer, atriz e público revivem suas perdas. “É isso que dá a universalidade à peça. Todo mundo já perdeu alguma coisa”. Beatriz ainda lembra que o espetáculo é uma lembrança à consciência do fim e da imprevisibilidade da vida. “Podemos desligar o telefone agora e nunca mais nos falarmos. Ou podemos nos ver no espetáculo, se você for, quem sabe?”, brinca a atriz. Aberta ao dilaceramento, a pergunta que fica é como dar conta de representar inúmeras vezes a própria dor desde a estreia em agosto de 2014. Beatriz explica que depois de tantas apresentações, as técnicas do próprio ofício ajudam a dimensionar o trabalho e as camadas de proteção vão sendo criadas, o que, por outro lado, pode causar um esfriamento. Tendo isso como uma preocupação, para manter o espetáculo vivo, ela se propõe a outras despedidas. “Eu recebo o público, cada dia diferente, convido-o para essa festa estranha e me despeço dele, ali, em 50 minutos, como se não fosse ver aquelas pessoas nunca mais.” E a despedida acontece olho a olho, um por um, e desperta uma sensação de intimidade adquirida em tão pouco tempo.

Mostra Carreira. Em busca da experimentação de linguagens e novas tecnologias em torno do teatro contemporâneo e da performance, a Cia Afeta realiza mostra de repertório em comemoração aos seus cinco anos de atuação. Além de “Talvez Eu me Despeça”, estão também em cartaz os espetáculos: “#140 ou Vão” e “180 Dias de Inverno”, ambos com direção de Nando Motta. “Talvez eu me despeça” Quando. Desta quarta a 8/3, de quarta a sábado, às 20h, e domingos, às 19h Onde. Centro Cultural Banco do Brasil (praça da Liberdade, s/n. Funcionários) Quanto. R$ 5 “#140 ou Vão” Quando. Até 4/3, de segunda a quarta, às 19h Onde. Teatro Alterosa (Avenida Assis Chateaubriand, 499 - Floresta) Quanto. R$ 15 “180 Dias de Inverno” Quando. Até 1/3, de quinta a sábado, às 21h, e domingos, às 19h Onde. Teatro Oi Futuro (Avenida Afonso Pena, 4.001 - Mangabeiras). Quanto. R$ 15

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