Vamos passear na praça?

iG Minas Gerais |

O que qualquer cidade tem além de casas e ruas? Pelo menos uma escola, uma loja e um hospital (ou algo que o valha) normalmente há. Mas essencial mesmo, no que diz respeito à pretensão urbana, é a praça, onde normalmente fica a igreja. Uma cidadezinha imaginária, por mais ínfima e prosaica, não se desenha em nossa cabeça sem uma praça. É ela o ponto de confluência social – muitas vezes o único – em torno do qual gravita tudo que existe. A igreja é do padre, a loja, do comerciante, a escola, ainda que pública, é do diretor e dos professores, como o hospital é dos médicos e enfermeiros. As casas, cada família tem a sua. Agora, a praça não tem dono, ou melhor, ela é de todos. Muito por conta disso, a memória coletiva de um lugar, preservada na mente dos cidadãos ausentes, por exemplo, registra aquele espaço comum, tão do povo “como o céu é do condor”. Inegável a relevância afetiva e geográfica das praças. Logo, ressalte-se ainda seu peso social e político. Lembre-se, leitor, de uma manifestação de massa importante ocorrida no Brasil nos últimos 50 anos. Pense onde são realizados os comícios eleitorais. O cenário preferencial é o mesmo, até por conta da necessidade de acomodação de tanta gente. Esse significado de utilização do espaço central de todos como fórum de decisão coletiva e de debate de ideias talvez venha da tradição das assembleias gregas, as ágoras. Milênios depois, em Belo Horizonte com seus mais de 2 milhões de habitantes, é curioso e saudável observar como a praça está sendo reapropriada. O calor ajuda a expulsar as pessoas de casa, e, no ambiente público, as crianças brincam, o cachorro passeia conduzido pelo dono, o jovem canta em roda com os amigos, a mulher faz cooper na pista em volta e todos convivem, compartilham seu quinhão de espaço. As praças da Liberdade, do Papa, a de Santa Efigênia, a de Santa Tereza, a da barragem Santa Lúcia, todas andam bem cheias em qualquer dia, especialmente nos fins de semana. Já foi o tempo em que o medo, com suas muitas caretas, parecia maior do que a vontade de sair e fazer qualquer coisa. E é nesse “fazer qualquer coisa” no meio dos desconhecidos que se exerce, pela constância do hábito, o sentimento grupal de pertencer e de se apropriar. Também parece já ter sido o tempo em que o poder público insistia em cercar de grades jardins, pistas e chafarizes. Vã gerentice! O governador e o prefeito não são mais donos da praça do que eu, nem na atribuição de seus cargos. São tão somente os zeladores contratados por quem usufrui da área. Claro que responsabilidade e consciência plural são princípio para o usuário. Quem não conhece regra de convivência precisa aprender. O povo está na praça, convivendo, conversando e se divertindo. “Lúdica revolução”? Talvez não se chegue a tanto. Mas quem disse que ocupar o espaço público, seja para fazer o que for, não é um gesto político? Convém repetir: nem sempre foi assim, e aproveitar talvez garanta o passeio como hábito irreversível. Coluna publicada originalmente no dia 14.1.2014

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