Melhor brasileiro no ranking mundial, Guilherme Toldo quer mais

Além de se consolidar no cenário nacional e mundial, esgrimista sonha em disputar as Olimpíadas no Rio e ver cair os preconceitos que permeiam o esporte no Brasil

iG Minas Gerais | BRUNO TRINDADE |

Guilherme Toldo mescla preparação em Porto Alegre e na Itália para se desenvolver cada vez mais
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Guilherme Toldo mescla preparação em Porto Alegre e na Itália para se desenvolver cada vez mais

No início, com sete anos de idade,  a esgrima era apenas o aprendizado de um novo esporte, por incentivo dos pais, e uma brincadeira de criança. Porém, a diversão virou coisa séria, tornou-se uma profissão e colocou um garoto de Porto Alegre entre os maiores esgrimistas do mundo. Guilherme Toldo, 22, que divide sua preparação entre o Sul do Brasil e Roma, na Itália, ganhou um título simbólico na última semana, mas que pode representar muito para sua carreira na esgrima e para o esporte no país.

Toldo é o brasileiro melhor colocado no ranking da Federação Internacional de Esgrima no Florete. Ele está na 46ª posição com 39 pontos. Além disso, o brasileiro também é um dos melhores esgrimistas do continente americano. Tudo isso fruto do trabalho realizado ao longo dos anos.

“Venho há vários anos treinando muito pra atingir o alto nível da esgrima mundial. Passei por momentos ruins, com muita instabilidade, e alcançar a 46ª posição me deixa satisfeito somente por saber que estou no caminho certo. Acredito que atingir a marca de melhor brasileiro no ranking seja consequência e reflexo do meu empenho. De qualquer maneira, ainda estou evoluindo e, com a minha programação ainda em andamento, pretendendo avançar ainda mais”, disse.

O desempenho recente faz com que Toldo busque voos maiores, como representar o país nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. “Acredito que os Jogos Olímpicos sejam o ponto mais alto do esporte. Somente os melhores do mundo tem a honra de disputar uma Olimpíada. Todos os atletas de alto-rendimento têm conhecimento do  tamanho da realização profissional que é participar de uma edição dos Jogos. E claro que a chance de disputar uma competição tão importante como essa em casa dá uma motivação muito maior. Tenho muita vontade de sentir essa energia nas pistas do complexo olímpico. Estar entre os melhores do mundo está entre os meus objetivos para 2016”, revelou.

Para uma maior divulgação da esgrima no país e um aumento no número de adeptos, Toldo acredita que é preciso “vencer” as barreiras e preconceitos que cercam o esporte.

“Acredito que a esgrima seja um pouco mal vista pelos brasileiros em geral. Desde a preocupação com o corte das armas utilizadas, com a segurança, até o preconceito de ser um esporte para ricos. Acredito que esses mitos ditos pelas pessoas desinformadas se mantém pela pouca divulgação e pelo pouco interesse das pessoas em descobrir e aprender novos esportes”, afirmou.

“A esgrima é um esporte que vem se desenvolvendo desde a idade média. É também um dos únicos esportes a estarem presentes no cronograma olímpico desde a primeira edição da era moderna e é um esporte muito bonito de se ver. Esses e muitos outros aspectos tinham que ser melhor divulgados para que as pessoas pudessem reformular os conceitos e estarem mais disponíveis à esgrima. Acredito que o meu esporte tenha todos os pré-requisitos para despertar o interesse das pessoas a começarem a praticar. Porém, antes de tudo, devemos passar uma borracha nos mitos criados sobre a esgrima para poder chamar a atenção das pessoas por completo”, finalizou.

Confira, na íntegra, a entrevista exclusiva com o esgrimista brasileiro Guilherme Toldo:

Como foi a sua infância e o seu primeiro contato com a esgrima?

Por ser filho de dois professores de educação física, sempre fui incentivado à prática esportiva e tinha uma agenda cheia de atividades. De qualquer maneira, meu único objetivo era aprender um novo esporte e me divertir. Ser um atleta olímpico nunca tinha sido um objetivo. Meu primeiro contato com a esgrima foi através de um programa que o meu clube, Grêmio Náutico União, oferece a crianças de 5 a 10 anos, com o intuito de disponibilizar todas as modalidades esportivas do clube durante o período de férias escolares. Desta forma, a edição de 1999 do 'Projeto Verão' me proporcionou o primeiro contato com a esgrima.

Quando e como você começou no esporte?

Depois de ter o primeiro contato com a esgrima, fui aconselhado pelo meu primo, Tiago, que já havia praticado o esporte anteriormente e também pelos meus pais, a aprender um pouco mais da esgrima durante o ano. Assim, me inscrevi na escolinha do Grêmio Náutico União no ano 2000.

Porque se especializou na Esgrima no Florete? Já competiu com a Espada ou com o Sabre?

Normalmente, a escolha da arma a ser praticada é uma seleção pessoal. Porém, no meu caso, foi um pouco diferente do normal, pois, como já havia dito, eu praticava diversos esportes durante o dia e casualmente, o único horário disponível que eu poderia me encaixar, era o horário do Florete. E por isso a escolha foi fácil. Já participei de uma prova de sabre, porém, foi só por diversão. Durante um campeonato estadual surgiu a ideia de participar da prova, mas somente para experimentar outra arma e me divertir. No final acabou sendo uma ótima experiência. Hoje em dia, as armas da esgrima são muito especializadas, ou seja, cada uma tem suas particularidades. Por isso, é muito inviável manter um alto nível em mais de uma arma.

Quais são as diferenças entre as modalidades da esgrima?

No florete, o toque é validado através do botão localizado na ponta da arma e a área legítima para o toque fica restrita ao tronco (peito, barriga, ombros e costas) do adversário. Na espada, o toque também é validado somente através do botão da ponta da arma, porém, os toques são permitidos em todo o corpo. No sabre é um pouco diferente, pois é validado o toque com a ponta da arma (que não é afiada, nem cortante e não é perigosa) e também com o lado. E o toque é autenticado somente da cintura para cima. Caso a arma toque o adversário com outra parte que não citada ou o toque seja feito em outro lugar que não seja o autêntico, o atleta não recebe pontos.

Como é a sua rotina de treino diário? Quanto tempo se dedica ao esporte?

Meu treinamento é realizado em dois turnos diários. Sendo cerca de três horas pela manhã e outras quatro pela tarde. Durante os dois turnos, eu realizo diversas atividades, sendo de preparação física e/ou técnica. Porém, quando falamos do tempo que nos dedicamos ao esporte, respondo com convicção que um atleta não é atleta somente nos momentos em que está treinando. Somos atletas 24 horas por dia, seja na responsabilidade na hora de comer, na atenção aos horários de descanso, no horário para dormir, em tudo.

Onde você realiza os seus treinos?

Para me preparar de maneira completa, decidi realizar meus treinamentos em dois centros. Como já havia dito, represento as cores do Grêmio Náutico União, de Porto Alegre, e dou continuidade à minha preparação na cidade de Roma, na Itália, onde treino na sala de esgrima Frascati Scherma.

Quais competições você vai disputar durante o ano de 2015?

Participarei do Circuito Mundial por completo (com etapas em San Francisco, Turim, Tóquio, Shanghai, Bonn, São Petersburgo, Havana e Paris), do Campeonato Pan-Americano de Esgrima (que será realizado na cidade de Santiago do Chile), do Campeonato Mundial de Esgrima (que será organizado na cidade de Moscou), e de todas as etapas do Circuito Nacional. Além disso, ainda estou buscando a classificação para os Jogos Mundiais Militares (que ocorrerá na Coréia do Sul) e para os Jogos Pan-Americanos de Toronto.

Você vai disputar as Olimpíadas? São quantas vagas na equipe brasileira? Como país sede, o Brasil dispõe de oito vagas (chamadas de White cards) para todas as armas da esgrima e que serão distribuídas conforme os critérios a serem decididos pela Confederação Brasileira de Esgrima. De toda forma, uma equipe olímpica completa é formada por 16 atletas. Por isso, ainda podemos disputar as vagas pelo ranking mundial e, em último caso, no Pré-Olímpico das Américas. Ainda não estou classificado para os Jogos Olímpicos do Brasil. Porém, como já disse anteriormente, estou treinando bastante para obter a minha vaga e espero alcançar o meu objetivo.

É possível buscar uma medalha para o Brasil na Olimpíada?

Antes de tudo, estou querendo me preparar muito bem para essa competição. Sobretudo, acredito muito no meu potencial e tenho plena confiança que, caso classificado, não me contentarei apenas com a participação e, seguramente, farei papel de protagonista. Contudo, uma medalha é um pouco difícil de afirmar, até porque, a Olimpíada é uma prova única e diferenciada. Como exemplo, posso dar o egípcio Abouelkassem, que depois de anos participando do circuito mundial, conquistou apenas uma medalha de bronze em Copas do Mundo e em sequência foi medalhista de prata na edição de 2012 dos Jogos, derrotando os maiores favoritos.

Quem são os seus principais adversários na luta por uma medalha olímpica?

As competições do circuito mundial de esgrima são tomadas por alguns países que se destacam com mais frequência. Acredito que os integrantes das equipes da Itália, Rússia, França, Alemanha e China sejam aqueles esgrimistas mais favoritos ao pódio olímpico e tenho certeza que eles serão “os caras” a serem batidos.

Como você avalia os brasileiros da esgrima?

Os esgrimistas brasileiros, durante muito tempo, ficaram submetidos a uma confederação que restringia os direitos de participações em provas internacionais. Além disso, antigamente, os recursos eram muito mais reduzidos e isso sem falar da dificuldade cambial dos anos 1980 e 1990. Todos esses aspectos contribuíram para que a esgrima brasileira ficasse baseada na realidade nacional, sem muita disponibilidade para acompanhar os avanços e as novidades que o cenário internacional criava. A um grosso modo, pode-se dizer que os atletas do Brasil estão começando a criar o seu espaço no circuito mundial de uns 15 anos para cá. Estamos em processo de evolução. E por se tratar de um ambiente onde está presente a elite do esporte, os resultados levam tempo para aparecer. No presente ranking mundial, podemos observar uma boa distribuição dos atletas brasileiros. Em provas pan-americanas, estamos sempre emplacando como uma das nações mais bem ranqueadas no quadro de medalhas e já em provas sul-americanas, estamos conquistando certo predomínio. Em suma, fico muito orgulhoso em ser um integrante da geração de esgrimistas que está abrindo cada vez mais espaço para resultados e espero que a futura “leva” de atletas possa continuar o processo de desenvolvimento e representar muito melhor as cores da bandeira do Brasil.

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