Perigo se estende às famílias

Tráfico de drogas, ameaças e tiros são comuns em ambientes já marcados por carências sociais

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

Perfil. Em regiões de aglomerados, chance de adolescentes serem alvo de violência é maior, de acordo com pesquisador
alex de jesus - 13.12.2014
Perfil. Em regiões de aglomerados, chance de adolescentes serem alvo de violência é maior, de acordo com pesquisador

Quem são as principais vítimas de homicídio no Brasil? Jovens de até 24 anos, do sexo masculino e moradores de favelas e periferias. A resposta presente em diversos estudos de violência é nítida na cena de qualquer cidade. A vulnerabilidade começa ainda na infância, com falta de comida em casa, de incentivo escolar e até cuidados básicos de higiene e saneamento. Na adolescência e na fase adulta, vem a convivência ou o envolvimento com as drogas. Muitos fecham os olhos para o sistema do tráfico como forma de sobrevivência, e outros acabam mortos por bala perdida, dívidas ou desentendimentos.

“Mês passado, mataram um menino aqui na rua. Passaram atirando pra todo lado, por pouco não pega na gente (sic)”, disse Neuza Silva*, 45, moradora do conjunto habitacional Parque Arrudas, no bairro Jardim Industrial, em Contagem, na região metropolitana. Dados do Índice de Homicídios na Adolescência: IHA 2012, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SDH), revelam que a violência contra jovens na região metropolitana é igual ou maior do que na capital.

Vespasiano é a mais perigosa entre as pesquisadas, com taxa de 7,09 homicídios por mil jovens de 12 a 18 anos, seguida de Betim, com 6,42, Sabará, com 6,17, e Contagem, com 4,88. No conjunto habitacional Parque Arrudas, há moradias rodeadas por “bocas de fumo” e adolescentes expostos ao crime. “Está vendo aquela turma? Ali é uma boca quente dia e noite”, disse outra moradora, apontando para um dos blocos residenciais.

Logo ao lado fica a casa de Neuza Silva e seus seis filhos, que têm entre 1 e 20 anos – incluindo a primogênita, que estava no último mês de gravidez no início de fevereiro. Há seis meses, o apartamento de dois quartos ficou menos apertado com a morte de um dos filhos de Neuza. Com 16 anos, o adolescente foi assassinado com dois tiros na linha de trem que passa no bairro. “Ele usava cocaína e começou a roubar. Eu sabia que algo de ruim iria acontecer”, relatou a mãe.

Hoje a preocupação maior dela é com a filha de 15 anos, que também está usando drogas. “Ela passa dias fora de casa, e não sei mais o que fazer. Meu sonho é mudar daqui. A gente vive com medo”, comentou Neuza, que está desempregada e tem alimentado os filhos com a ajuda de doações.

A reportagem tentou contato com várias famílias que perderam adolescentes vítimas de homicídio em 2015 e 2014, mas em todos os casos se deparou com o medo delas em falar. Além da dor pela morte dos filhos, muitas não podem sequer cobrar por Justiça por medo de represália. “Aqui as mães sofrem caladas para proteger os outros filhos”, disse uma das lideranças do Parque Arrudas.

“As famílias vivem sob tutela de traficantes e com medo de retaliação”, comentou Sérgio Campos Souza, 43, amigo de um jovem de 18 anos que morreu no ano passado após ter sido agredido no bairro Alto Vera Cruz, na região Leste da capital. Ele disse que a família do rapaz teme represálias.

“Acabaram com nossa família. Meu filho mais velho ficou cinco meses sem sair de casa e ainda temos medo.”

Mãe de Felipe* (jovem morto no bairro Ouro Preto)

“Aqui até para comemorar gol eles dão tiro. É o lugar onde as mães perdem seus filhos sem ver.”

Neuza Silva* - Mãe de jovem morto em Contagem

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