Um baú de arte diverso e espontâneo

Além de artista plástico, Fernando Fiuza é lembrado por ter sido grande fotógrafo da cena musical mineira

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Prática. Fernando Fiuza flagrado na década de 1980, entre suas tintas e pincéis
EmersonMoreira
Prática. Fernando Fiuza flagrado na década de 1980, entre suas tintas e pincéis

O multiartista Fernando Fiuza não cabia em um só. Talvez por isso, suas diversas facetas de pintor, fotógrafo, ilustrador, desenhista, artista plástico etc se projetaram na mesma intensidade durante os seus 56 anos de vida. Além de quadros, ele também assinou capas de discos de Gilberto Gil e foi responsável por fotografar boa parte da cena musical mineira, a exemplo de Toninho Horta e Milton Nascimento. Até hoje, seus amigos mais próximos encontram, antes de qualquer definição para quem foi o artista Fernando Fiuza, uma espécie de sorriso inconsciente para descrevê-lo numa memória pra lá de carinhosa. “O fraco dele era o coração, mas o irônico disso era que ele era puro coração”, diz a escritora Malluh Praxedes.

Fernando Fiuza nasceu em Belo Horizonte, em 1953, e chegou ao mundo com um desafio: sobreviver mais do que dois anos. “Esse era o diagnóstico médico. Ele não viveria uma infância, segundos os médicos que fizeram o parto. Mas o Nando contrariou todo mundo com sua alegria e vontade de viver”, diz a viúva do artista, Luciana Radicchi.

Cercado de cuidados, Fiuza não podia beber café, tomar chá, fumar ou ingerir bebidas alcoólicas e, claro, nenhuma adrenalina que ameaçasse seus batimentos cardíacos.

O chargista Duke, que dividiu as ilustrações de com Fernando Fiuza entre 1998 e 2004, também é o idealizador do documentário “O Homem Roxo” (2010), feito em parceria com a Carabina Filmes. “Eu lembro dele contar histórias fantásticas todos os dias. Um dia perguntei se ninguém tinha proposto fazer um filme da sua própria vida e ele até estranhou, dizendo ‘claro que não’. O que a gente queria era registrar a essência desse cara sensacional. O mais maluco é que o Nando morreu numa sexta-feira e o filme tinha ficado pronto na quinta: foi exatamente um dia antes. É muito louco pensar nisso”, diz Duke. “A princípio a gente não queria relacionar a doença com a arte dele, mas isso é impossível. Porque acho que ele só sobreviveu até os 56 anos por causa da arte. Ele se entregava de corpo e alma em vários estilos diferentes”, completa o chargista.O TEMPO

Antes de se dedicar com mais afinco aos quadros e desenhos no papel, Fernando Fiuza começou sua carreira artística como fotógrafo, registrando momentos do músico Marco Antônio Araújo, que ganhou o epíteto de Egberto Gismonti na década de 1980. “Eu conheci o Nando nesse período, inclusive. Ele era obcecado pelas fotos de músicos e por qualquer forma de arte”, lembra Malluh Praxedes, que teve 11 dos seus 15 livros publicados ilustrados por Fernando Fiuza. “A casa dele era repleta de livros que nem cabiam lá. Mas o principal é que Nando era um artista que frequentava outros artistas. No metiê das artes, um artista tem dificuldade com o outro ou alguma rusga, é algo comum. Além de ele admirar todas as artes, ele não tinha qualquer problema com ego”, diz.

Na mesma época, Fernando Fiuza produziu mais de cem capas de discos para artistas como Toninho Horta, Weber Lopes, Gilberto Gil, Marco Antônio Guimarães, Belchior e Juarez Moreira, que lembra com carinho do trabalho do amigo. “Nunca tive coragem de sugerir outra ideia para o Nando. Ele apresentava o conceito pronto, e eu gostava de cara, era só colar no disco e embalar”, lembra aos risos Juarez Moreira.

“Ele era um frenético. Pouco antes de morrer, internado no hospital, ainda estava com uma caneta a tira colo desenhando. Temos um arquivo grande que pode gerar outras exposições, claro. Como as imagens de natureza dele”, completa Luciana.

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