Coração colorido de saudade

Artista referência das artes visuais na capital ganha a primeira exposição individual no CCBB após seu falecimento

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Documental. Fernando Fiuza durante entrevistas para o documentário “Homem Roxo”, lançado em 2010
silvana mascagna/divulgação
Documental. Fernando Fiuza durante entrevistas para o documentário “Homem Roxo”, lançado em 2010

Seria genial por si só, mas Fernando Fiuza não foi apenas o homem que desafiou uma doença rara no coração e viveu 54 anos a mais do que a previsão da medicina. “Ele tinha as recomendações médicas para uma vida regrada e limitada: ele fumou, cheirou, bebeu, correu, pulou, transou, fez tudo o que podia e não podia ser feito para um sujeito cardíaco. Dentro da relação dele com o mundo artístico, podemos afirmar com certeza que a vida inteira dele é uma obra de arte linda”, crava o chargista Duke.

Lembrada com saudade em qualquer esquina que reúna fagulhas culturais em Belo Horizonte, a memória do multiartista Fernando Fiuza, ou simplesmente Nando para os amigos, permanece viva. Depois de ter sua vida contada no documentário “O Homem Roxo” (2010), o fotógrafo, ilustrador, pintor e desenhista mineiro terá inaugurada a primeira exposição individual após sua morte, em 2009. A montagem “Mulheres: O Traço Poético de Fernando Fiuza” estreia no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a partir desta quarta-feira, dia 25, com entrada gratuita.

A exposição é idealizada pela viúva de Fiuza, Luciana Radicchi, e vai revelar feixes inéditos de um artista referência para as artes visuais e os processos criativos em Minas Gerais. “Há muito tempo eu queria fazer uma exposição dele. Mas como o acervo é muito grande, ficava difícil selecionar. Escolhemos a temática de mulheres porque é fator fundamental na história do Nando. Desde a infância, como não jogava bola ou fazia extravagâncias de garotos por causa da doença, ficou sempre muito próximo do universo feminino, já que ele naturalmente tinha uma sensibilidade muito forte”, diz Luciana.

A enfermidade de Fiuza nunca abalou sua produção. A Doença de Raynaud, também chamada de moléstia azul, acabou transformando o raro problema cardíaco em incentivo para sua arte se expandir, inclusive fora do pais – seu auto-retrato “O Homem Roxo” está exposto do Museu de Quito, no Equador. A doença também não o impediu de, durante 13 anos, exercer a função de ilustrador de O TEMPO, paralelamente às suas atividades como artista plástico e fotógrafo. 

Após a morte de Fiuza, sua mulher conservou um acervo de 200 a 250 obras “guardadas em duas mapotecas enormes”. Deste material, foram selecionados 63 criações do artista, datadas desde os primórdios da carreira em 1982 até seus últimos dias, em 2009. No arquivo há pinturas, gravuras, colagens e desenhos em aquarela, carvão, guache, grafite e pastel seco – lápis ao estilo giz de cera com cores fortes.

A diversidade exposta no trabalho de Fiuza foi uma das premissas da curadoria, dividida entre Luciana Radicchi, o artista plástico Marcelo Xavier e o produtor cultural Cláudio Rocha – amigos de Nando. “O cara tinha o dom da diversificação, usava técnica por cima de técnica. E desenhava o tempo todo. Na mesa de bar, em casa, na rua, se bobear até tomando banho. A gente quis trazer esse universo de obras espontâneas e muito plurais tecnicamente, mas dentro da temática mulher, que ele tem produção em maior escala”, diz Rocha.

SIMPLICIDADE. O mais interessante na exposição é o conceito proposto para as duas Galerias do Térreo, onde a mostra estará montada. Em vez de ocupar todo o espaço, Marcelo Xavier, responsável pela museografia e programação visual da exposição ao lado do arquiteto João Diniz, prezou por uma montagem natural e simples.

“Você não vai encontrar nada certinho ou formal, como manda o figurino de exposições. Optamos por deixar as paredes das galerias sem nada, porque elas têm uma beleza natural óbvia com aquela meia parede de madeira nobre. Concentramos toda a exposição no miolo das salas, com os quadros emoldurados em cavaletes de madeira cru. A ideia é fazer um contraste com o refinamento do CCBB. As pessoas vão encontrar uma exposição com o espírito do Nando, que era um cara simples e sem frescuras. Ele ia se sentir em casa se estivesse aqui”, diz Xavier.

Agenda

O QUE. “Mulheres – O Traço Poético de Fernando Fiuza”

ONDE. Galerias do Térreo do CCBB (praça da Liberdade, 450, Funcionários)

QUANDO. De 25.02 a 13.04

QUANTO. Entrada gratuita

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