Festa feita pelo povo tem que continuar

Desafio dos blocos e da prefeitura é melhorar a organização do Carnaval sem impor amarras

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

MARIELA GUIMARÃES/O TEMPO
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O Carnaval pode até ter ficado para trás no calendário, mas o poder transformador da festa continua ecoando em Belo Horizonte. Os blocos de rua passaram como um verdadeiro abalo sísmico, multiplicador não só de foliões e instrumentistas nas baterias, mas de laços de amizade, emoções, reflexões sobre a cidade e mudanças de atitude. Nesse turbilhão de lembranças e sentimentos que fica, a certeza é que a folia, feita pelas pessoas e para as pessoas, tem que continuar na capital, da forma como ressurgiu, há seis anos: “livre, leve e solta”.   Qualquer amarra, segundo os organizadores de blocos, pode fazer o Carnaval local morrer, como aconteceu na década de 1980. O historiador e músico Guto Borges, 33, conta que Belo Horizonte já teve outros Carnavais com essa efervescência de hoje, como no bairro Lagoinha, na região Noroeste, antiga zona boêmia da cidade. “Mas todos morreram, e esse Carnaval que se vê hoje também pode morrer”, diz. No passado, alguns dos motivos teriam sido a falta de estrutura e a tentativa de controle pelo poder público.   Agora, o que não pode acontecer, segundo Borges, é a prefeitura continuar se apropriando do Carnaval, divulgando a programação como se fosse a produtora da festa, tentar colocar patrocinadores de cerveja e controlar público, trajetos e dias de desfile. “A característica do Carnaval de BH é a liberdade, ele nasceu assim”, diz.   Isso não significa não comunicar à prefeitura sobre dia e local de passagem do bloco. Organizadores de alguns dos maiores blocos de Belo Horizonte concordam que é preciso avisar o poder público. “Os blocos têm essa preocupação com a cidade e o público”, afirma Borges, que neste ano integrou grupos como Então Brilha!, Pena de Pavão de Krishna e Filhos de Tcha Tcha. Como medida de segurança, o Então Brilha! optou por não divulgar o desfile na programação oficial da prefeitura e a sair cedo (às 9h do último dia 14), para evitar aglomerações.   Um dos fundadores do Juventude Bronzeada – bloco que atraiu cerca de 10 mil foliões, na última terça-feira –, Thales Silva, 29, afirma que os blocos estão se organizando, embora tenham nascido de maneira espontânea. “Que surjam regras é natural, mas elas não podem ser excludentes. O que se tem hoje é o Carnaval de rua, com carga política muito forte”, declara Silva, que também é cantor e compositor.   Princípio. A construção dessa festa que se vê hoje na capital não começou nos últimos dois ou três anos. Segundo os fundadores dos blocos, vem desde 2009, quando grupos de amigos se juntaram espontaneamente e criaram o Tico Tico Serra Copo e o Bloco do Peixoto. Silva acredita que a expansão da festa tem relação com o movimento estudantil e sociocultural de ocupação dos espaços públicos, que se consolidou nos últimos cinco anos, como o Praia da Estação, que atrai milhares de pessoas à praça da Estação.   Ao longo do ano, os integrantes dos blocos fazem ensaios, criam músicas, contratam carro de som, compram instrumentos, tudo com dinheiro do próprio grupo. O presidente da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), Mauro Werkema, diz reconhecer que o “Carnaval é do povo”, e diz que, entre seus atores, estão blocos, escolas de samba e a prefeitura. “Não queremos nos apropriar do Carnaval. Os blocos são uma manifestação espontânea, eles só têm que fazer registro na Belotur”, conclui.   Minientrevista. Mauro Werkema, presidente da Belotur    Qual avaliação o senhor faz do Carnaval de Belo Horizonte? A primeira conclusão é que o Carnaval se insere nos grandes Carnavais das capitais brasileiras, cada um com sua característica. O de 2015 foi o maior evento da história da capital mineira. Os grandes responsáveis por essa festa são os blocos de rua. Como o senhor enxerga esses blocos? O atrativo desse Carnaval foi a festa de rua, que é espontânea, familiar ou tribal, mais segura, alegre, e com o melhor custo-benefício para participantes e órgãos públicos.    A prefeitura está se apropriando do Carnaval criado e organizado pelos blocos? Não. O Carnaval é do povo, tendo como atores principais os blocos, as escolas de samba, mas também a PM e a prefeitura. Diferenciamos eventos de bloco de rua, que são uma manifestação carnavalesca espontânea. Essa característica tem que existir.   Como evoluir? Talvez comecemos a monitorar os dez blocos mais cheios. Achamos que tenha que se criar uma regulamentação de eventos. Mas eu já estou esgotado para tudo isso.  

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