“Não há pílulas milagrosas para tratar todos esses transtornos”

Marc Cuesta - Pesquisador do departamento de psiquiatria Universidade MC Gill, em MontreaL (Canadá)

iG Minas Gerais |

Pesquisadores da Universidade MC Gill, no Canadá, desenvolveram uma pílula capaz de “inverter” o sono. Com base no glicocorticoide, hormônio esteroide que sincroniza as células do sangue, a pílula promete ser a solução ideal para as pessoas que precisam trabalhar à noite e dormir de dia.

Como os 16 voluntários responderam à medicação? Eram pessoas saudáveis de 18 a 30 anos, sem problemas de saúde. Oito participantes receberam um placebo, enquanto outros oito receberam glicocorticoides. Todos respondem bem sem efeitos secundários.

Qual é o papel dos glicocorticoides no corpo? Os glicocorticoides são comandados pelo controle rítmico do relógio central, produzidos pela glândula adrenal e liberados na circulação sanguínea e têm muitas funções. Eles têm ação anti-inflamatória, ajudam na regulação do metabolismo etc. Estávamos interessados no seu papel entre o relógio central, localizado no fundo do cérebro, e nos relógios periféricos que encontramos na maioria dos órgãos e células do corpo. Nos animais, já sabíamos que os glicocorticoides expressam o ritmo biológico que pode sincronizar os relógios periféricos. Nesse estudo, mostramos pela primeira vez, que eles também podem sincronizar os relógios periféricos em humanos.

Qual a diferença para as pílulas de melatonina? A melatonina está disponível em farmácias nos EUA e no Canadá para tratar jet lag, mas não há nenhuma pesquisa que explica quais são os mecanismos subjacentes à sua ação. Nós não sabemos se ela age sobre os relógios periféricos ou como poderia agir. Nessa pesquisa, no entanto, mostramos que os glucocorticoides atuam em relógios periféricos para promover o ajuste através da modificação da atuação de genes que são responsáveis pela expressão de ritmos biológicos. Assim, o estudo revela que é possível a utilização de tratamentos farmacológicos para ajustar nossos relógios periféricos.

Pílulas devem chegar ao mercado? Um tratamento a longo prazo de glucocorticoides induz efeitos secundários se for realizado cronicamente e, portanto, não será possível utilizá-los como um tratamento. Porém, não vimos quaisquer efeitos secundários em nosso estudo, porque nós só administramos corticóide durante seis dias. No entanto, com base em nossa pesquisa, nós agora sabemos que podemos desenvolver tratamentos farmacológicos, sem efeitos colaterais que poderiam ser utilizados como terapia. A melatonina pode ser um deles, mas vamos ter de mostrar primeiro que ela age em relógios periféricos.

Como a melatonina, esse remédio também pode ser indicado para o tratamento de obesidade, hipertensão e diabetes? Nem a melatonina, nem os glucocorticoides podem ser utilizados para tratar a obesidade, a hipertensão e diabetes. Não há pílula milagrosa para tratar todos esses transtornos. Nosso estudo sugere que é possível impedir que uma dessincronização dos diferentes relógios do nosso corpo com certos tratamentos, e, minimizando essa dessincronização, nós podemos prevenir o desenvolvimento de obesidade, hipertensão e diabetes.

Qual seria o próximo passo deste estudo? Desenvolver uma droga farmacológica que atua sobre os relógios periféricos, mas sem quaisquer efeitos colaterais secundários. Esse tratamento pode, assim, ser associado com luminoterapia, que atua principalmente no relógio central. Com essa dupla terapia teríamos então como agir com os nossos diferentes tipos de relógios biológicos e, assim, obter um melhor ajuste dos nossos ritmos em resposta ao trabalho por turnos ou jet lag. (LM)

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