Em breve, Picassos à venda

Marina Picasso se prepara para vender muitas obras herdadas do seu avô para financiar e ampliar sua filantropia

iG Minas Gerais | Doreen Carvajal the new york times |

Mercado. Marina, aos 64 anos, passou a vender as obras por conta própria depois da morte de seu marchand, em 2008
BENJAMIN BECHET
Mercado. Marina, aos 64 anos, passou a vender as obras por conta própria depois da morte de seu marchand, em 2008

Marselha, França. Desde sua infância, Marina Picasso, que viveu no limiar da pobreza e andava pelas vilas francesas com seu pai pedindo dinheiro ao seu avô, Pablo Picasso, lutou com o fardo do crescente legado desse artista.

Quando estava com 20 e poucos anos e herdou uma vila do século XIX, La Californie, além de uma imensa coleção de tesouros artísticos de Picasso, ela, ressentida, pendurou os quadros de face para a parede. Em 15 anos de terapia, dissecou memórias familiares amargas da indiferença de seu avô e do suicídio de seu irmão. Em seu livro de memórias de 2001, “Picasso: My Grandfather” (Picasso: meu avô), ela expôs sua dor e rancor com relação ao clã Picasso.

Agora com 64 anos, Marina reconhece que está ampliando sua rebelião ao se preparar para vender muitas obras para financiar e ampliar sua filantropia – ajuda a um hospital pediátrico no Vietnã e projetos na França e na Suíça que beneficiam idosos e adolescentes problemáticos.

E sua abordagem de venda pouco convencional chamou a atenção do mercado internacional de arte, marchands preocupados e leiloeiros acostumados a desempenhar papéis centrais – e lucrativos – na venda de obras famosas. Em entrevista, Marina disse que venderia os trabalhos particularmente e que decidiria “caso por caso, baseada na necessidade” quantas e quais obras restantes das cerca de dez mil que herdou ela poria à venda.

Marina vende as obras de seu avô regularmente há anos para garantir seu sustento e de suas caridades. E, desde a morte de seu marchand de longa data em 2008, ela já tentou várias estratégias do mercado – leiloando dois grandes quadros em 2013 e exibindo uma coleção de desenhos de nus na Sotheby’s de Paris no ano passado.

Porém, sua decisão de vendê-los por conta própria demonstra um esforço mais agressivo de purgar seu legado. Outros herdeiros de Picasso ocasionalmente vendem suas obras, mas Marina é a única que parece estar “acelerando” a venda de objetos de arte, disse Enrique Mallen, professor de história da arte na Universidade Estadual Sam Houston, no Texas, que criou o Online Picasso Project para controlar o paradeiro das obras.

“Acho melhor vender minhas obras e ficar com o dinheiro para distribuí-lo às causas humanitárias”, disse Marina, em um primeiro pronunciamento público sobre sua nova estratégia enquanto inspecionava um hospital em Marselha, onde está financiando a ala de psiquiatria para adolescentes em crise. “Claro, tenho pinturas que posso usar para financiar esses projetos”.

A notícia de sua estratégia incomum está se espalhando em círculos seletos em um boca a boca que gera rumores e desinformação – incluindo um artigo em um tabloide que afirmou que Marina planeja vender a vila de seu avô e sete grandes obras. Isso está levando à especulação de que ela vai inundar o mercado e derrubar os preços.

“Em vez de usar um marchand para apresentar as obras, hoje não há mais segredo de que muitas estão à venda e as pessoas querem saber quem está interessado”, disse John Richardson, historiador e biógrafo de Picasso, em Nova York. “Muita gente tem me dito: ‘Vamos fazer um bom negócio, e Marina vai vender tudo’”.

Evitar marchands e casas de leilão para a venda de grandes obras não é muito comum, e quem vende por conta própria pode acabar em desvantagem ao tentar estimar o valor de suas obras e vetar compradores e suas fontes de fundos. Ao mesmo tempo, muitas casas de leilão têm aumentado suas taxas, e essa atitude pode acabar sendo vantajosa para o vendedor que precisa de dinheiro.

Marina, que herdou cerca de 300 pinturas entre os dez mil trabalhos de Picasso – cerâmicas, desenhos, gravuras e esculturas, entre outros – disse que ainda não decidiu quantas obras serão vendidas e que não planeja vender a vila. Mas sabe qual das obras venderá primeiro: “La Famille”, o retrato de uma família cercada por uma paisagem árida, de 1935.

“Ela é meio simbólica porque nasci em uma grande família, mas era uma família que não era uma família”, disse ela.

Na memória

“Vivo no presente. O passado ficou no passado. Mas nunca vou me esquecer, nunca. Respeito meu avô e sua estatura artística. Era sua neta e fui sua herdeira, mas nunca fui uma neta querida.”

Marina Picasso - neta de Pablo Picasso

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave