Guiné: apenas a bola da vez

iG Minas Gerais |

Partiu de Neguinho da Beija-Flor a declaração mais impactante e mais sincera deste Carnaval. Com a malandragem de quem tem samba no pé e poucas papas na língua, mas que está longe da esperteza dos políticos, que falam muito sem dizer nada, o sambista expôs, a sua maneira, aquilo que nunca foi segredo para ninguém. Escrachou o que existe por trás de tanta ostentação e gastança no “maior espetáculo audiovisual do planeta”. Os R$ 10 milhões de patrocínio, garantidos à escola vencedora do desfile carioca por recursos extraídos da população de Guiné Equatorial ou de empreiteiras brasileiras (sempre elas!) que trabalham fazendo obras megalomaníacas para um ditador que mantém o poder naquele país há mais de 30 anos, são mero detalhe diante do que ocorre de fato, aí, sim, no maior culto à impunidade do mundo. Desnecessário dizer que o Carnaval, em essência, é um anseio popular, inerente ao povo brasileiro e que nada tem a ver com a opulência da Marquês de Sapucaí ou de outros sambódromos pelo país afora. Brota em qualquer canto, sem muitos recursos e com o voluntarismo dos foliões e de quem gosta da crítica, da música, da rua e da dança, do deboche e de passar por esses quatro dias entorpecidos por alegria ou graus etílicos. Os gatunos, nacionais ou internacionais, transformam essa manifestação em portais para novos enriquecimentos, enquanto bolhas brotam nos pés de passistas e porta-bandeiras. A bola da vez é a Guiné. O espanto, porém, deve-se à excentricidade do patrocínio, que vem de uma nação longínqua e que só agora passamos a conhecer, reconhecendo-nos também, pois, como aqui, trata-se de uma República que ostenta um dos maiores PIBs de sua região ao mesmo tempo em que mantém sua gente em níveis cruéis de IDH e opressão. No ano que vem tem mais! O vice-presidente guineense, que também é filho do ditador acusado de silenciar adversários com prisões e execuções, além de ser amigo de presidentes brasileiros e muito familiarizado com empreiteiras daqui, talvez já tenha se esquecido da rainha da bateria da Beija-Flor que o encantou. Mas o jogo do bicho, os traficantes e a reverenciada contravenção das bandas de cá, além de políticos, empreiteiras, papagaios de pirata, direitos televisivos e interesses de multinacionais estarão novamente reunidos em torno da corte momesca. Solução? Quem há de ter? Quem sabe se espalhe a ideia de ganhar as ruas sem depender de poder público ou de dinheiro patrocinado? Que o digam os blocos de BH, que reinventaram a festa sem alegorias caras, cachês absurdos, parafernália exagerada e dinheirama fácil. Com alegria e bom humor, mais de 1 milhão de pessoas deram o exemplo: fizeram a farra sem gastar o que é dos outros.

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