Sobre o silêncio da inocência

Artista Nina Caetano problematiza a violência contra a mulher em “Espaço do Silêncio”, no Memorial da Vale

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Diálogo. Artista permanece silenciada durante a performance e só se comunica por meio de um texto
Thaissa Trancoso
Diálogo. Artista permanece silenciada durante a performance e só se comunica por meio de um texto

Coordenadora do Obscena, agrupamento independente de pesquisa cênica, Nina Caetano investiga desde 2008 a relação entre a performance e o trabalho do artista plástico Artur Barrio. Em 2013, o grupo começou a trabalhar com uma proposta feita por ele para a Documenta 11, envolvendo 30 “espaços-gestos” diferentes, relacionando-a com a violência sofrida pelos índios guarani-kaiowá.

“Mas minha investigação sempre foi ligada ao universo da mulher e do feminismo, então rapidamente passei a trabalhar a questão da violência contra a mulher”, conta Caetano. O resultado disso é “Espaço do Silêncio”, que ela apresenta hoje, às 11h, no projeto Performance no Memorial da Vale. No trabalho, a artista – que também é doutora em artes cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da USP e professora adjunta do Departamento de Artes da Universidade Federal de Ouro Preto – usa um desses “espaços-gestos” como mote para discutir o silenciamento gerado em torno da violência praticada contra uma minoria.

“Não se fala das estatísticas assustadoras do genocídio contra os índios ou jovens negros, nem contra a mulher, porque é espinhoso e só quem é chato fala disso. É esse ‘não tratar a questão’ que eu quis investigar”, ela explica. Como prova disso, Caetano questiona o não uso no Brasil do termo “feminicídio”, já adotado em outros países, como o Equador.

“Existe um índice altíssimo de mulheres que são mortas justamente quando tentam se separar e quebrar o ciclo de violência. Mas eles chamam isso de crime passional, ‘é amor’. Isso não é amor, é homicídio. Amor é outra coisa”, argumenta.

Na performance, essa discussão se manifesta na simbologia das cruzes vermelhas – cor que, para ela, remete à violência, mas também a guerra, luta, resistência e ação. Uma delas é pregada na boca de Caetano, silenciando a artista, que só dialoga com o público por meio de um texto em uma folha. No começo, ela trabalhava com uma carta dos guarani-kaiowá, mas depois se deslocou para um repertório de textos sobre mulheres que são “construídas e destruídas todos os dias”.

“Destruídas por esse comportamento esperado de uma mulher, que acaba sofrendo as consequências disso. E isso não é visto como violência, é naturalizado”, explica. A artista cita exemplos como “ela mereceu”, “porque estava naquele lugar”, “porque estava vestida assim”, “ela estava pedindo” e uma série de frases “que justificam a violência contra a mulher e dão muito pouco espaço para a voz da vítima”.

Acostumada a apresentar “Espaço do Silêncio” em locais de alta circulação de pessoas, como as praças Sete e da Estação, Caetano se prepara para interagir com a beleza arquitetônica do Memorial da Vale. “A vantagem de ser um espaço interno é não ter que lidar com o vento levando meu lençol o tempo todo”, brinca. Além da troca de ambientes, a artista pretende ainda introduzir algumas etiquetas com nomes de mulher na performance. “Nunca fiz, vou experimentar lá pela primeira vez”, adianta.

Agenda

O que. “Espaço do Silêncio” – Performance no Memorial

Quando. hoje, às 11h

Onde. Memorial da Vale – praça da Liberdade, 640, Funcionários

Quanto. Entrada gratuita

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