Disputa acirrada pela estatueta

iG Minas Gerais | Bárbara França |

Michael Keaton em Birdman, um dos filmes favoritos
FOX FILMES
Michael Keaton em Birdman, um dos filmes favoritos

Em meio às tradicionais seções “drama”, “terror”, “comédia”, “guerra”, “infantil” e à estranhíssima “nacional”, não era raro existir nas locadoras de filmes a seção “vencedores do Oscar”. Em algum cantinho do lugar, ficavam reunidos os “melhores filmes” de cada um dos anos de existência da premiação, desde 1929. Hoje, essas locadoras praticamente não existem mais, mas os premiados com a estatueta dourada continuam sendo lembrados. Afinal, ganhar um Oscar, segundo o crítico da revista virtual “Cinema em Cena”, Pablo Villaça, é fazê-lo perdurar na história do cinema. E os novos “imortais” serão conhecidos neste domingo (22), com a glamourosa cerimônia que acontece em Los Angeles e cuja transmissão será a partir das 20h30 pelo canal TNT.

“O Oscar é uma marca, o longa que ganha o melhor filme passa a ser lembrado, mesmo que seja apenas como ‘aquele que ganhou’, afinal, é bem comum filmes muito bons ficarem de fora e alguns considerados péssimos pela crítica ganharem”, comenta Villaça.

Segundo ele, isso acontece por causa do sistema de escolha dos vencedores, que não passa de uma tradicional eleição. E isso inclui fazer intensas campanhas, lobby, organizar festinhas para agradar os eleitores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e tudo o mais que faça o filme ser visto e falado no meio. A intenção, segundo Jefferson Assunção, cineasta e crítico de cinema no site O Formalismo, é agradar principalmente os sindicatos das profissões ligadas à sétima arte em Hollywood, ou seja, os órgãos que mais fornecem eleitores à academia, que hoje conta com mais de 6.000 membros.

Conforme Assunção, as premiações dos sindicatos, antecedentes do Oscar, são como termômetros para indicar os vencedores. Não é à toa que “Birdman” tem sido a grande aposta dos palpiteiros. O longa do mexicano Alejandro González Iñarritú venceu o prêmio do sindicato dos diretores, o que é um passo decisivo em direção à vitória.

“Birdman” é considerado um dos mais ousados entre os indicados, embora há quem diga que essa história de filme todo em plano-sequência já esteja pra lá de obsoleta. Contando a história de um ator caído no ostracismo em busca da fama, talvez seu maior ganho esteja em fazer uma crítica a Hollywood, à indústria cinematográfica e uma crítica à crítica. Já seu principal concorrente, o também favorito “Boyhood”, de Richard Linklater, é considerado por muitos um exercício de cinema árduo e interessantíssimo, na medida em que acompanha a vida de um garotinho em crescimento por 12 anos. O envelhecimento dos atores na telona é real, e não apenas um truque de maquiagem.

Nesta categoria, a principal, também concorrem “A Teoria de Tudo”, “Sniper Americano”, “O Grande Hotel Budapeste”, “O Jogo da Imitação”, “Selma” e “Whiplash”.

Mas, de acordo com Thiago Macêdo, produtor de cinema na Filmes de Plástico, uma questão levantada por Iñarritú no ato de sua premiação no sindicato há que ser discutida: a falta de experimentalismo na premiação. Com eleitorado constituído principalmente por homens, brancos e acima de 50 anos, a Academia tende a privilegiar obras que sejam de mais fácil acesso e não incitem polêmica.

“Muitas produções são mesmo pensadas em termos da premiação, o chamado “filme com cara de Oscar”: normalmente, um drama de superação baseado em fatos reais, feito no jeito pra provocar lágrimas”, aponta o professor de cinema do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG) e crítico no site Pílula Pop, Renné França. Para ele, às vezes a estratégia dá certo, como no caso de “A Teoria de Tudo”, às vezes não. É esperar pra ver.

Enquanto isso, aproveite para assistir outros interessantes indicados, como “O Sal da Terra”, sobre a obra de Sebastião Salgado, realizado por seu filho Juliano Ribeiro Salgado em parceria com o alemão Wim Wenders, indicado a “melhor documentário”, e a animação “Guardiões da Galáxia”, que concorre em “melhor maquiagem e cabelo” e “melhor efeitos visuais” e cuja equipe de animação tem o belo-horizontino Carlos Frahia. (leia mais sobre Frahia na página 13).

Os críticos comentam suas preferências

Jefferson Assunção Melhor filme “Birdman”. - “Critica o universo da indústria do entretenimento e da sociedade do espetáculo” Melhor diretor Alejandro González Iñarritú. - “Ele vem de fora da indústria e apresenta coisas diferentes” Melhor ator Michael Keaton (“Birdman”) - “Acho legal ser um ator que já viveu um super-herói, o Batman, e agora brinca com isso” Melhor atriz Julianne Moore (“Para Sempre Alice”). -  “Embora não tenha uma preferida, é uma atriz maravilhosa, mas o filme não ajuda muito”.   Thiago Macêdo Melhor filme “Boyhood”.- “Nele, é como se eu assistisse minha vida passar” Melhor diretor Richard Linklater (“Boyhood”). - “Gostei pela ousadia da proposta de filmar ao longo de 12 anos” Melhor ator Benedict Cumberbatch (“O Jogo da Imitação”). - “É o único papel com nuances mais desafiadoras, como o fato de ser homossexual” Melhor atriz Rosamund Pike (“Garota Exemplar”). - “Porque é a melhor atriz de sua categoria. Sua personagem vai entrar para a história, com certeza”   Renné França Melhor filme “Birdman” - “Ele e ‘Boyhood’ trazem novidades. Ficaria satisfeito com qualquer um” Melhor diretor Richard Linklater (“Boyhood”). - “A ideia é fantástica e um grande risco artístico do diretor”  Melhor ator Michael Keaton (“Birdman”) - “O trabalho dele neste filme é muito mais difícil do que o dos outros atores, cheio de sutilezas” Melhor atriz Rosamund Pike (“Garota Exemplar”) - “Ela possui a sutileza para que acreditemos nas reviravoltas da história”    Pablo Villaça Melhor filme “Boyhood”. - “É um filme mais ambicioso, muito mais experimental que ‘Birdman’” Melhor diretor Richard Linklater (“Boyhood”). - “É um diretor universal, muito versátil” Melhor ator Michael Keaton (“Birdman”) - “É um trabalho complexo, que exigiu muita energia por ter que atuar durante longos takes sem interrupção” Melhor atriz Julianne Moore (“Para Sempre Alice”). - “Ela é uma excelente atriz e ainda não ganhou um Oscar”.   Curiosidades

Hermanos O argentino “Relatos Selvagens”, do diretor Damián Szifron e com o ator Ricardo Darín, concorre na categoria “filme estrangeiro”. Esta é a sétima indicação de um filme da Argentina ao Oscar e sua chance de ganhar a terceira estatueta.

Queridinha A atriz Meryl Streep concorre ao Oscar pela 19ª, na categoria “melhor atriz coadjuvante” pelo filme “Caminhos da Floresta”. É a maior recordista em indicações entre atores e atrizes. E já ganhou três vezes, duas por melhor atriz, uma por coadjuvante.  Sem diversidade Todos os indicados nas quatro categorias de atuação são brancos. É o Oscar de menor diversidade em 17 anos. A última vez que isto aconteceu foi em 1998. Também não há mulheres indicadas em categorias como “direção”, “fotografia” e “roteiro”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave