Carlos Fraiha

Animador - Mineiro de Belo Horizonte fez parte da equipe que animou personagens do sucesso “Guardiões da Galáxia” e concorre a Oscar de efeitos visuais

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Referências - Livros e filmes, muitos deles lidos e vistos antes de se especializar, são parte fundamental da formação de Carlos Fraiha
LEO FONTES / O TEMPO
Referências - Livros e filmes, muitos deles lidos e vistos antes de se especializar, são parte fundamental da formação de Carlos Fraiha

Desde que deixou Belo Horizonte, em 2007, para perseguir um sonho profissional, o animador Carlos Fraiha, 32, retorna à sua cidade natal todos os anos. Além de reencontrar família e amigos, aproveita para caminhar pelas ruas e matar a saudade da comida – um de seus maiores orgulhos ao falar de suas origens para quem não as conhece: “é onde tem a melhor culinária do país”.

Desta vez, pôde ainda acompanhar o nascimento do primeiro sobrinho, filho de sua única irmã. E é daqui também que ele vai assistir à cerimônia do Oscar 2015, neste domingo (22), na qual ele disputa uma estatueta na categoria efeitos visuais, por ter feito parte da equipe responsável pelas animações do campeão de bilheteria “Guardiões da Galáxia”.

O interesse pela animação vem desde muito cedo, sempre acompanhado da curiosidade sobre os bastidores e como aquilo era feito. Mas na hora de estudar, como sabia que a realidade de BH não era propícia para uma carreira como essa, escolheu áreas com certa afinidade, mas que pudesse exercer aqui.

“Cursei rádio e TV, com formação complementar em cinema, na UFMG, e design, na UEMG. Cheguei a trabalhar por dois anos como designer gráfico. Mas mesmo gostando do que fazia, o desejo de me envolver com a animação ainda era forte”, conta. Então, ele resolveu correr atrás.

Primeiro passo

Foi uma professora da época em que fez um intercâmbio nos EUA, aos 16 anos, quem deu o empurrão decisivo. “Talvez ela tenha sido a primeira pessoa a me encorajar, e acabou sugerindo que eu mandasse uma carta pros estúdios Disney, falando da minha vontade. Eu escrevi e fui respondido com sugestões de universidades, livros, exemplos de desenhos, modelos vivos, coisa que eu tenho até hoje”, lembra. “Escrevi pro estúdio que eu mais admirava e o fato de terem respondido me fez acreditar que era uma possibilidade real, não uma coisa inalcançável”, conta Carlos, que ressalta também o incentivo da mãe e da professora Magda Rezende, da Uemg, também animadora e que reconheceu nele este talento.

Depois de um rigoroso processo de seleção, Carlos foi aceito numa pós-graduação na Central Saint Martins, renomada universidade de artes visuais, em Londres. Seu curta de animação “Ceci N’est Pas Une Mouche”, feito como projeto de graduação, foi exibido em mais de 60 festivais, em cerca de 35 países, e premiado no Reino Unido, Canadá, Itália e Austrália. Um desses prêmios fez com que o filme fosse exibido em mais de 200 salas em todo o Reino Unido, durante um ano, o que foi providencial para a inserção do mineiro no mercado.

Hobbit

Ele então trabalhou em diversos clipes de música, séries de TV e comerciais – chegando a trazer Bruce Lee de volta à vida, por meio da animação – até fazer seu primeiro trabalho em cinema, com “Guardiões da Galáxia”. Desde então, trabalhou também em “Êxodo: Deuses e Reis”, de Ridley Scott, e recebeu uma oferta de trabalho nos estúdios Weta Digital, que tem Peter Jackson entre seus fundadores e é responsável pelos efeitos especiais de filmes como “O Senhor dos Anéis”, “Avatar” e “King Kong”. Desde então, mudou-se para a Nova Zelândia, onde fica a sede da empresa, e já trabalhou em “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” e outras produções que ainda não pode revelar.

Durante o tempo que passou em Londres, Carlos aproveitava seu tempo livre para ir muito ao cinema e ao teatro. “Fui a muitos balés, musicais, óperas. Tenho os ingressos guardados e, apesar de nunca tê-los contado, tenho certeza que foram mais de cem”, diz. “O teatro tem muito a ver com a animação, essa coisa do movimento coreografado, estilizado. Gostei muito de ter tido a oportunidade, principalmente de assistir a tantos balés clássicos, que são mais raros no Brasil”.

Desde agosto do ano passado, mudou-se para Wellington, na Nova Zelândia, onde mora com o marido e a gata Zoe. Numa realidade totalmente diferente, tem aproveitado as belas paisagens e o contato com a natureza. “Já fiz rafting duas vezes”, conta.

Carlos se diz realizado com seu trabalho, sobretudo vindo de um lugar em que esse tipo de carreira não é incentivado. “No colégio, sempre nos estimulam a fazer engenharia, direito, medicina. Profissões da área criativa não são valorizadas. Mas eu batalhei e consegui superar essa barreira, me orgulho quando vejo meu nome nos créditos dos filmes”, diz. Mas ainda tem um sonho a realizar. “Queria muito trabalhar em longas de animação pura, como os feitos na Pixar e na Disney. Foi meu sonho inicial e ainda é uma coisa que eu planejo alcançar”.

Um pouco mais de Franha 

Nostalgia “As partituras são do tempo em que eu tocava sax alto na banda do colégio Dom Silvério, entre 1995 e 2007. A sensação de tocar em conjunto é uma das melhores que existem e essas partituras são algo precioso dessa época da minha vida”

Representante “O livro que eu queria, na verdade, era ‘Grande Sertão: Veredas’, mas não o tenho em BH. De qualquer forma, quis incluir uma referência a Guimarães Rosa, o melhor escritor da língua portuguesa”

Reconhecimento “Este é meu primeiro prêmio relacionado à produção audiovisual. Meu projeto de graduação em rádio e TV, um documentário feito por mim e outras três pessoas, foi premiado na Mostra de Tiradentes de 2005”

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave