Um templo para a música clássica

Casa nova - Como as principais orquestras do mundo, Filarmônica tem agora uma sede própria, a Sala Minas Gerais

iG Minas Gerais | Priscila Brito |

Acústica - Em sua própria sala de concertos, Orquestra Filarmônica vai “dobrar” de tamanho
André Fossati
Acústica - Em sua própria sala de concertos, Orquestra Filarmônica vai “dobrar” de tamanho

Tem instrumento novo que vai fazer a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais soar diferente, mas ele não se encontra no naipe de metais nem no de cordas. Dotada de detalhados recursos acústicos elaborados exclusivamente para privilegiar o som executado pelos músicos (veja quadro na página 4), a Sala Minas Gerais, novo espaço para concertos que será aberto ao público no próximo sábado (28), é o instrumento que vai mudar a sonoridade da Filarmônica daqui pra frente.

Das poltronas com estofado capaz de equilibrar a distribuição do som às curvas das paredes que ajudam a espalhar a música pelo ambiente, a orquestra tem agora o instrumento apropriado para trabalhar, à maneira das principais orquestras do mundo, todas com suas próprias sedes. “Uma orquestra não funciona sem a sua própria sala. O Palácio das Artes (onde a Filarmônica se apresentava até então) é um palco multiuso, não é adequado acusticamente para as necessidades da música sinfônica. O espaço é muito ‘seco’ e o som não se projeta. Na nova sala, o som é muito vivo”, compara o maestro Fabio Mechetti, regente titular e diretor artístico da orquestra. E não vai ser preciso ter ouvido apurado para perceber as diferenças, ele avisa. “Vai parecer que a orquestra dobrou de tamanho. O volume sonoro é muito maior do que aquele que se ouvia no Palácio das Artes”.

Já da parte dos músicos, o esforço terá que ser maior para se adequar às nuances da nova casa. “Eles vão ter que começar a tocar de uma maneira diferente. Antes, a gente ensaiava num espaço com os músicos dispostos de um jeito e, no palco, eles se distribuíam de outro. Era como treinar de uma forma e jogar de outra. Por conta disso, por exemplo, uma coisa que a gente não tem bem desenvolvida é um sentido de articulação conjunta. O músico não sabe às vezes se a passada tem que ser mais curta ou mais longa”, explica Mechetti. Com a nova sala à sua disposição, maestro e músicos vão poder trabalhar este e outros pontos para construir a sonoridade própria da orquestra, em um processo que vai se desenrolar pelos próximos meses e até anos.

Afinação

Nesse período, o grupo terá não só que aprender a usar os recursos da sala a seu favor – como o teto móvel e as cortinas acústicas, como será preciso “afinar” a sala, dadas as suas propriedades de instrumento musical. “Ao contrário do que se imagina, uma sala de concertos após construída requer muito trabalho de ajuste a afinação”, ressalta José Augusto Nepomuceno, arquiteto especializado em acústica e responsável pelo projeto da Sala Minas Gerais.

Segundo explica Nepomuceno, um comitê formado por ele, Mechetti e dois dos mais importantes acústicos do mundo, o norte-americano Christopher Blair e o inglês Michael Barron, vão fazer a “escuta” da sala enquanto a orquestra executa peças musicais. O grupo vai então discutir como o som está – alto, encorpado, presente, distante – e a partir disso fazer ajustes nos recursos acústicos. “Esta é a afinação inicial. Depois, escutaremos a sala durante um longo período, às vezes um ano ou mais, anotaremos e discutiremos as sensações de escuta com o maestro”, completa o arquiteto.

As preocupações meticulosas com a acústica, presentes desde a raiz do projeto, fazem da Sala Minas Gerais a primeira sala de concertos do Brasil construída “de dentro pra fora”, como descreve Mechetti. Ao invés de se adaptar uma construção já pronta às exigências de uma orquestra, o projeto acústico foi o ponto de partida e deu forma ao projeto arquitetônico. Para o Nepomuceno, que cuidou das duas frentes, isso faz da sala um marco no Brasil. “Não consigo conceber que haja esta diferença como aquela ‘praga’ tão comum no Brasil em que a arquitetura vem antes e depois se ‘pendura’ a acústica”..

Arquitetura

Isso não quer dizer, porém, que forma e estilo foram deixados em segundo plano. O novo espaço tem como uma de suas referências a sala da Filarmônica de Berlim, e com seus 1.477 lugares (mais que o Sesc Palladium, por exemplo, que acomoda 1.321 pessoas), é aconchegante, pois encurta as distâncias entre setores e entre músicos e plateia. “Esta disposição de poltronas parte de uma decisão de acústica e de arquitetura. O público fica mais próximo do palco, a sala tem intimidade visual e acústica e fica muito elegante. É como se o público abraçasse a orquestra, a música”, descreve Nepomuceno.

Mahler na abertura

A Sala Minas Gerais abre as portas para o público no próximo sábado (28), às 20h30, com concerto sob regência de Fabio Mechetti e as presenças da soprano Edna D’Oliveira, da mezzo-soprano Ednéia de Oliveira, do Coral Lírico de Minas Gerais e do Coro da Osesp. No programa que será executado pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, o Hino Nacional Brasileiro, de Francisco Manuel da Silva, e a Sinfonia nº 2 em dó menor, “Ressurreição”, do austríaco Gustav Mahler (1860-1911).

A sinfonia, que levou seis anos para ser finalizada e foi publicada em 1897, foi escolhida para a ocasião por razões peculiares. “É uma peça grandiosa que vai ajudar a mostrar o potencial da acústica da sala. É uma sinfonia que vai desde o momento mais pianíssimo até o momento em que as cadeiras vão tremer. Além disso, envolve não só a orquestra como um coro também”, justifica o maestro Fabio Mechetti, regente titular e diretor artístico da orquestra. Há um simbolismo também por trás da escolha. “É uma sinfonia que simboliza o fato de a gente se erguer para uma coisa melhor, um momento em que a gente aposta no futuro”, completa.   A partir do dia 5 de março, a Filarmônica dá início à Temporada 2015. O pianista mineiro Nelson Freire é o convidado do primeiro concerto desta temporada.    Agora em sede própria, a orquestra será mais ativa. Ao longo do ano, fará 57 concertos, no lugar dos 24 realizados no ano passado, divididos em cinco séries, três delas estreantes. A tradicional série “Allegro” alternará as quintas-feiras com a novata “Preto” (sempre às 20h30). As séries “Vivace” e “Veloce” alternarão as sextas, 20h30. Já a “Fora de Série” acontecerá aos sábados, às 18h. Os “Concertos Didáticos”, “Concertos para a Juventude”, “Concertos de Câmara” e a série “Clássicos na Praça” permanecem na agenda da orquestra. Confira a programação completa em www.filarmonica.art.br.   O órgão de R$ 9 milhões Um concerto aberto ao público no próximo sábado (28) marca a inauguração da Sala Minas Gerais, nova sala de concertos da Orquestra Filarmônica, mas ainda vai faltar a cereja do bolo na abertura do novo espaço – uma baita cereja, diga-se de passagem: um órgão com valor estimado em 3 milhões de euros (aproximadamente R$ 9 milhões) que deveria ocupar o vão atrás do palco ainda não estará presente na sala.    O detalhe, que faria da Sala Minas Gerais a única sala de concertos do Brasil dotada do instrumento, esbarrou em burocracias e liberação de recursos – cerca de R$ 180 milhões foram investidos na obra da nova sede da Filarmônica.   Além do alto custo, o órgão tem um processo de produção praticamente artesanal: é desenhado tendo em vista as características da sala, construído à mão e leva um ano para ser finalizado.    “O governo não pode incluir o órgão no projeto, mas a gente vai começar uma grande campanha para botar esse órgão naquela sala”, revela Diomar Silveira, diretor presidente do Instituto Cultural Filarmônica.   Dentre as possibilidades de captação de recursos, Silveira considera a busca de patrocínio via leis de incentivo e doações de pessoas físicas, através da criação de um programa chamado “Amigos da Filarmônica”.   A presença do instrumento não é um luxo, apesar das altas cifras que o envolvem. “Nós temos uma tradição muito grande em Minas, desde a música barroca, dos grandes órgãos e as principais salas de concerto do mundo hoje têm um. E com a presença do órgão amplia-se muito mais o escopo de repertório que pode ser executado pela orquestra”, comenta o maestro Fabio Mechetti, regente titular e diretor artístico da Filarmônica. Enquanto o instrumento não estiver disponível para a Filarmônica, será preciso fazer um trabalho de adaptação à sonoridade da sala. “A sala foi desenhada tendo em mente a presença desse órgão. A presença do órgão afeta a acústica e a não presença, também”, explica o maestro.   Circuito de orquestras Outras funcionalidades da sala também devem ser postas em prática com o tempo. Uma delas é a possibilidade de dividir a programação entre o calendário de concertos da Filarmônica (que passou de 24 para 57 com o novo espaço) e outros concertos e eventos diversos. “Nós pretendemos fazer um circuito com orquestras do exterior. Atualmente as orquestras que vêm de fora ficam no eixo Rio-São Paulo. Agora, elas vão dispor de uma sala em Belo Horizonte. A sala também tem uma estrutura que se presta para eventos em geral, como congressos e seminários”, antecipa Diomar. O projeto deve ficar para a próxima temporada, uma vez que os próximos meses serão dedicados aos testes acústicos e afinação da sala.   Antes disso, no segundo semestre, está prevista a inauguração de dois novos espaços que vão ampliar as possibilidades de lazer do público da Filarmônica: uma praça de convivência anexa à Sala Minas Gerais e um centro gastronômico com restaurante e bistrô instalado em casarão construído em 1929, que passa por restauração. Todos ocupam o mesmo terreno e, juntamente com a nova sede da Rede Minas e da Rádio Inconfidência, também em construção, compõem o Centro de Cultura Presidente Itamar Franco. “Na praça de convivência, vai ter uma grande escadaria. Há espaço para se fazer concertos abertos. É uma possível ideia”, sugere Silveira.    Futuro O instituto que administra a orquestra também tem projetos mais ambiciosos, que dependem de recursos disponíveis, como a Orquestra Filarmônica Jovem e a Academia Filarmônica, para a formação de jovens músicos.    “A gente entende que a excelência obedece mais ou menos a uma espécie de pirâmide e as orquestras jovens são um canal para absorver um músico que acabou de se formar. Já na academia você tem condição de formar músicos específicos. Por exemplo, não há uma tradição de fagotistas no Brasil e quando a Filarmônica abre audição, quem passa é um músico estrangeiro. Com a academia, um jovem pode receber uma bolsa para estudar fagote”, exemplifica Silveira.   POR DENTRO   Público - A Sala Minas Gerais tem 1.477 lugares e três foyers equipados com café e toaletes.    Interação - O espaço terá um salão de recepção internacionalmente conhecido como “Green Room”. Nele, serão realizadas palestras correlatas ao programa dos concertos. Após as apresentações, o público poderá se encontrar com os músicos no local para cumprimentá-los.    Bastidores - O backstage tem 11 camarins (coletivos e individuais), além de uma sala de ensaios para a percussão e duas salas para os demais naipes. 

 

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