Consórcios de investidores miram empresas iniciantes

Grupo de investidores estão negociando companhias e adquirindo participações através de sites de "crowdfunding", de acordo com jornal

iG Minas Gerais | Folhapress |

Os consórcios de investidores vêm se tornando cada vez mais frequentes no meio das empresas iniciantes. De acordo com uma matéria publicada pelo "The Wall Street Journal", grupos emergentes de investidores negociam companhias e adquirem participações através de sites de "crowdfunding" [financiamento coletivo].

A matéria cita um investidor chamado Gil Penchina que decidiu investir US$ 25 mil na Beepi, uma empresa on-line de compra e venda de carros usados criada dois anos atrás. Ele disparou um e-mail perguntando a amigos e conhecidos se queriam entrar na jogada.

Em apenas um dia, ele havia conseguido recolher cerca de US$ 2,8 milhões, junto a quase 100 investidores, além de ter rejeitado outros 300.

Penchina, de 45 anos, não é um famoso executivo, mas sim apenas parte deste grupo de investidores emergentes. Os demais investidores confiam que ele tenha pesquisado devidamente a empresa e ele fica com 15% do eventual lucro da transação para grupos de investidores que ele lidera, conhecidos como "consórcios".

A tendência sinaliza o desejo de investidores de tentar aproveitar a corrida do ouro -como a publicação define- no setor de tecnologia. Os investidores estão despejando dinheiro em empresas que vivem estágio muito anterior a do desenvolvimento, na esperança de retornos altos, caso uma delas se torne um sucesso.

Após a Beepi anunciar a conclusão da rodada de capitalização de recursos via "crowdfunding", ela anunciou US$ 10 milhões em capital inicial arrecadado, dentre os quais estava Yuri Milner, bilionário russo famoso por ter sido um dos primeiros investidores no Facebook e Twitter.

Esse esforço de financiamento, porém, preocupa certos profissionais de empreendimentos e grupos de defesa do consumidor. Eles dizem que facilitando a aposta em pequenos jovens investidores de tecnologia, remeteria ao ocorrido durante a bolha da Internet, que estourou em 2000.

"Há essa ideia populista de que devemos permitir que todo mundo invista nas novas startups, mas o problema é que a maioria das pessoas não têm como arcar com esse tipo de risco", disse à publicação Barbara Roper, diretora de proteção ao investidor na Federação dos Consumidores da América.

Segundo o "The Wall Street Journal", o "crowdfunding" consorciado encoraja o tipo de estratégia de "espalhar e rezar", ou seja, o investidor aposta no maior número de empresas possíveis e torce por bons resultados. A prática foi facilitada pela Lei de Estímulo às Startups de 2012, que permite que companhias busquem fundos de maneira muito ampla.

Outra empresa aberta a investidores é a AngelList. Porém, todos eles devem ter renda de pelo menos US$ 200 mil ao ano nos dois anos precedentes (ou US$ 300 mil em caso de renda conjugal), ou que tenham patrimônio líquido superior a US$ 1 milhão.

Porém, essa exigência pode acabar caso novas regras propostas pela Securities and Exchange Commission (SEC), a agência que regulamenta o mercado de valores mobiliários dos Estados Unidos, entrarem em vigor, programado para outubro. Esta proposta permitiria pessoas com renda de US$ 100 mil ao ano investirem até 10% da renda anual.

Naval Ravikant, presidente-executivo da AngelList, diz que sua companhia alerta devidamente os novos investidores quanto aos riscos. Um estudo realizado pela Escola de Administração de Empresas da Universidade Harvard em 2012 concluiu que quase três quartos das empresas bancadas por capital para empreendimentos oferecem retorno zero sobre o capital dos investidores nos Estados Unidos.

De acordo com a publicação, à medida que o crowdfunding se abre a pequenos investidores, pouca gente pode se beneficiar tanto quanto Penchina. Ele já reuniu dois mil investidores no AngelList, sendo que eles concordaram em acompanhar seus investimentos em áreas que variam. Embora qualquer investidor atenda os critérios do AngelList para investir, Penchina utiliza seus contatos para selecionar empresas que ele acredita serem especialmente atraentes aos investidores.

Para cada fundo consorciado, Penchina seleciona diversos investimentos e divulga dados financeiros e outras informações. O grupo se chama "Uprising" [levante], nome que Penchina escolheu pelo seu tom democrático.

Ao contrário dos fundos típicos de capital para empreendimentos, não há taxas de administração. Caso a empresa seja comprada ou abra o capital, o Uprising fica com 15% dos lucros obtidos com o investimento.

Por exemplo, caso Penchina e seus investidores invistam US$ 1 milhão em uma empresa, e ela for adquirida por US$ 100 milhões, ele faturaria US$ 15 milhões com investimento inicial de US$ 25 mil. O AngelList ficaria com US$ 5 milhões e os demais investidores dividiriam US$ 80 milhões. Até agora, ele realizou 15 investimentos e gastou cerca de US$ 1 milhão de seu dinheiro pessoal em transações e em pessoal para ajudá-lo a gerir os consórcios. Todas as empresas continuam a manter seu capital fechado, diz o jornal.

Rodney Saaman, cardiologista em Mission Hills, Califórnia, já realizou investimentos por conta própria no AngelList. Saaman imaginava que o investimento que fez em 2013 no Outbox, uma companhia que digitaliza correspondência, seria uma vitória fácil.

Porém, no ano passado, a empresa abandonou o projeto inicial e recomeçou com serviços de crédito de entre pares. "Foi um aprendizado. Jamais me ocorreu que as pessoas não se interessariam pela ideia", diz Saaman à publicação. Mesmo assim, novos investidores aparecem. Penchina se descreve como um homem do povo. Ele é discreto e sua força está no carisma quase paternal, diz o jornal. Ele diz que ficou chocado quando pequenos investidores dispuseram a investir US$ 500 mil em empresas selecionadas por ele.

Ele ainda espera criar 25 e 50 novos sindicatos de financiamento neste ano, além de 12 que já opera.

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