Bardo do bar: Paladino

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Realizada ao longo dos últimos três ou quatro anos às quartas-feiras, a roda de choro comandada por Salomão, Ernesto, Rubens e companhia está consolidada na rotina semanal do Paladino, já com público cativo e a presença constante de muitos músicos, que se revezam em canjas. Algumas noites são mais animadas, outras menos, e naquela em especial a roda estava particularmente inspirada. Muito do caráter harmoniosamente transcendente daquela ocasião se deveu, creio, a uma raríssima sintonia fina entre Salomão, que com seu violão de 7 cordas é uma espécie de regente dos chorões, mais pela idade avançada e pela precisão simples com que toca seu instrumento do que por virtuosismo, e Josias, um jovem clarinetista que gosta de desfilar sua técnica apurada e seu amplo leque de referências. Salomão não gosta quando Josias aparece com seu instrumento. A ética de uma roda de choro determina que se um músico gabaritado quer dar o seu recado tocando, ele necessariamente terá espaço. E quando aparece, Josias aproveita seu espaço exibindo de forma quase arrogante seu indiscutível talento, se permitindo improvisos onde ninguém imaginaria que coubessem, propondo modulações estranhas, evocando influências do jazz, enfim, assumindo uma postura de quem parece querer subverter aquele gênero que, para Salomão, é sacralizado e, portanto, refratário ao que não lhe é nato. “O problema desse moleque é que ele se acha maior que a música”, costuma dizer o Salomão, sem raiva na voz, mas com desdém. “A música é uma maravilha que vem sabe-se lá de onde, passa por você, por suas mãos, pés, pulmões e garganta, deságua no instrumento e, depois de sair dele, volta à esfera do imponderável, do desconhecido, que é a cabeça e o sentimento de quem ouve. Se nesse primeiro momento, quando a música surge e te toma, se aí você tenta ser maior que ela, aparecer mais, você, na verdade, impede a fluência dela”, é o que ele discursa sempre depois que Josias deixa a roda e vai embora. Mas naquela noite não. Por alguma conjunção astral, o clarinetista se portou de maneira mais contida na roda, e Salomão, por sua vez, não só não se importou com alguma eventual firula de Josias como se esforçou genuinamente para entender e acompanhar o que o jovem propunha. A audiência aplaudiu.

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