Novo ano, de novo

iG Minas Gerais |

Fim de Carnaval, e o ano, enfim, vai começar. Hora de colocar em prática as promessas, de espantar a preguiça e parar de fugir de si mesmo. Retomar as dores e delícias da vida. Enfrentar problemas e preocupações, mesmo que contra a vontade. A mente ainda está confusa, de ressaca... Quer sorrisos gratuitos, muitos amores, quer batucar. Ainda com o desejo de “que a fantasia fosse eterna”... Mas não é. Os quatro dias de festa se foram. O vai e vem de gente nas ruas e avenidas deu lugar ao zigue-zague dos carros. Enfim, é hora de voltar ao mundo real. “É duro, mas necessário”. A frase não é minha, é do João. Ele não queria ir trabalhar ontem. Na verdade, se dependesse só do seu desejo, não voltava para a empresa nunca mais. Viveria um eterno Carnaval. Sentia-se novo, aos 27 anos, para tantas responsabilidades. Tinha que bater metas de vendas e estava ansioso diante de tanta pressão, ainda mais num mês menor e com feriado: fevereiro. Além disso, o dia estava nublado, convidando para horas a mais na cama. Por alguns minutos, sentiu vontade de sumir do mapa. Não podia. O jovem promissor, no qual a família deposita expectativas de sucesso, ainda precisava dar um jeito de reatar com a namorada. Brigaram há pouco mais de um mês, e ele achou prudente esperar a festa passar. Prudente para que se decidissem sobre o futuro e também providencial para “se jogar na festa”. Talvez fosse uma das últimas com o status de solteiro, embora também se considerasse novo para um decisão tão séria. João tem medo de se casar e passar por dificuldades financeiras, por isso trabalha quase dez horas por dia. Ainda cheio de dúvidas, lá foi ele, recomeçar a maratona. Os dias de pausa também cessaram as dores de cabeça de seu Antônio. “Um descanso. Dias de fingir que estava tudo bem”. Tomou as cervejas que podia e, como se o Carnaval fosse mágico, esqueceu-se de todas as suas dívidas. Só no cartão de crédito são quase R$ 30 mil. Sem contar um consignado. E ainda tem a escola da filha, que está em negociação. E as contas do próximo mês já vão chegar... Ah, o seu Antônio está afogado em números, e não há mais como fugir deles. Passado o Carnaval, o chefe de família, de 53 anos, quer recomeçar. Vai colocar tudo no papel, tentar cortar os supérfluos da vida e, principalmente, quer partir para os acordos. Está pronto para buscar alternativas. Ele quer mudar de vida. A mulher, antes só dona de casa, vai finalmente trabalhar fora. Por enquanto, o salário é pequeno. Mas o que entrar de novo já será lucro. Não há mais como protelar, a família precisa se reorganizar para viver melhor. O João e o seu Antônio são apenas recortes da situação de tantos brasileiros. Tem a Nina, que quer ter coragem para mudar de emprego. A dona Tereza, que prometeu viajar mais neste ano. E a Ariana, que quer trabalhar menos para não perder tanto a infância dos filhos. O Zé finalmente vai abrir um negócio. A Anita e o Lucas terão um filho. Cada qual teve o seu Carnaval, parou por alguns dias: para pular e quebrar tudo ou só para arejar as ideias. Agora se foi a fantasia, retornam as metas. O novo ano recomeçou e é preciso que a gente siga com ele. Virão outros Carnavais, outros refrescos pra vida fingir pausas, virão outras histórias, porque o tempo segue insano, rápido, disposto e real. Ele não para. Não se aflige se você chora, nem se regozija com seus sucessos... continua correndo num relógio apressado. Não para nem um segundo: nem para trazer soluções, nem para brindar as glórias. Lá vai ele, mais uma vez, ligeiro e sempre animado, seja qual destino for.

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