Uma vigorosa e doce senhora

Empresa mineira de balas e chocolates completa 90 anos esbanjando fôlego para enfrentar a concorrência com sabores que fazem parte da história de BH

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Gerações: Stanislau Grochowski (dir.), seus filhos e netos estão à frente da Lalka
Uarlen Valério
Gerações: Stanislau Grochowski (dir.), seus filhos e netos estão à frente da Lalka

Nascida em uma cidade pequena, que mal acabara de dar os primeiros passos rumo à Belo Horizonte de hoje, e construída partir de uma história de amor entre dois poloneses que se conheceram no Brasil, a fábrica de balas e chocolates Lalka completa 90 anos em 2015.

Em um setor que sobrevive de novidades, a marca se mantém com sabores que atravessaram as décadas, como a icônica bala azedinha de maçã, que fala diretamente à memória afetiva de muitos belo-horizontinos. Experimente citá-la em uma conversa: sempre alguém vai lembrar da própria infância.

O que muitos consumidores nem imaginam é que a bala preserva a mesma receita criada pelo fundador da marca, o polonês Henryk Grochowski. Em julho de 1925, ele abriu a fábrica no bairro Floresta e dois anos depois a transferiria para a avenida do Contorno, na mesma redondeza, onde funciona até hoje.

Mas não só as receitas que seguem as mesmas. Na avaliação de Roberto Grochowski, neto do pioneiro, cuidado com os produtos e a busca de qualidade que marcaram os primeiros anos do negócio se mantêm. “Desde a época do meu avô, nenhum dos produtos leva conservantes. Mantivemos assim em função da qualidade. Até hoje, a produção é semi-artesanal e isso nos dá muito orgulho”, explica Roberto, hoje diretor comercial e de qualidade da empresa.

Ao lado da balinha nonagenária, o bombom de licor é outro hit da casa. Quando ele foi criado, chocolates eram artigos finos para presentear. O processo de fabricação, mantido até hoje, entrega todo o cuidado no preparo: na receita, não é usada gordura hidrogenada (assim como em nenhum outro chocolate Lalka) e o licor de frutas que recheia o bombom é de fabricação própria.

Falar em ingredientes e composições está fora de questão: as receitas são tratadas ali como segredo industrial. “Só podemos dizer que a matéria-prima tem de ser a melhor possível”, desconversa Roberto. Na linha de produção, balas e chocolates são feitos em máquinas das décadas de 1940 e 1950.

Tanto a bala quanto o bombom estão inseridos em uma variedade que passa dos 150 produtos – muitos deles pouco conhecidos, caso da bala de violeta, com essência das pétalas da flor. Ou o açúcar candy, ingrediente hoje mais usado para a fabricação de cervejas de estilo belga. “São produtos que têm clientela própria. Mesmo que não estejam muito difundidos, continuamos fazendo para agradar quem nos acompanha”, comenta Roberto.

Pequena. Ao longo da trajetória da marca, ela passou por várias fases e chegou a ensaiar uma expansão por meio de franquias, no início dos anos 2000. A ideia, porém, foi abandonada.

A produção de 2,5 toneladas mensais de balas e a mesma quantidade de chocolates é pequena e fracionada para que a marca não precise ter estoque – a intenção é ter tudo sempre fresquinho. “Queremos manter o padrão em tudo que entregamos, desde o sabor até o atendimento nas lojas. Nada disso é viável para uma operação altamente industrializada”, diz ele. “Estamos bem sendo uma empresa familiar e pequena, por termos a certeza da qualidade do que vendemos”, completa o diretor, que até hoje gosta de atender no balcão das lojas, para poder conversar com os clientes.

Em Belo Horizonte, são oito lojas, todas controladas pela família. Um dos poucos pontos de venda fora do Estado é a Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. Ainda mais longeva do que a mineira, a casa carioca foi fundada em 1894. “É a mais tradicional do ramo, e estamos lá. Para mim, essa é uma das maiores provas da nossa importância e qualidade”, diz.

A Lalka pode ser considerada uma sobrevivente em um mercado inundado por gigantes do setor, inclusive com multinacionais. “Somos constantemente assediados por investidores que querem comprar a marca. Além disso, sempre vai ter uma loja de industrializados aberta ao lado de uma Lalka. Felizmente, essa estratégia não tem dado certo porque nossa clientela é fiel”, diz.

A preocupação, hoje, é com a quarta geração, de jovens já envolvidos na administração, mas que em breve deverão assumi-la por completo. “Só pedimos que não vendam a empresa”, clama Stanislau Grochowski, filho do fundador e que ainda hoje, aos 89 anos, vai todos os dias à fábrica.

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