Dilma demarcou seu território ao exigir tratamento de “presidenta”

iG Minas Gerais |

DUKE
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A criação do Partido dos Trabalhadores (PT), que fez há dias 35 anos de vida, não foi uma tragédia que se abateu sobre o país. No início, suas ideias e sua pregação em favor da ética na política sensibilizaram alguns milhões de brasileiros bem-intencionados. Com sua chegada ao poder, porém, e obcecadas por um projeto autoritário (a cor pouco importa), suas principais lideranças o conspurcaram. A decepção que manifesto em relação ao PT não é a de um brasileiro (como eu) sem nenhuma importância para o partido. Apenas repito o que já disseram muitos dos seus ex-filiados, imbuídos de belos sonhos e sinceros compromissos, mas que se desligaram dele faz tempo. O partido deixou a ética de lado para se fundir ao que há de pior na política brasileira. E, em relação a seus governos (dois do ex-presidente Lula e um de Dilma), a decepção só não é maior do que o medo causado pelo governo que se iniciou há pouco mais de um mês. Na realidade, na (soberba) exigência do tratamento de “presidenta”, no início do seu primeiro mandato (uma bobagem, que depressa se transformou em chacota nas redes sociais), Dilma revelou sua personalidade autoritária. Que, aliás, já havia se revelado nas duas vezes em que foi ministra de Estado e, também, na Petrobras, ocasião em que atuou (ou deveria ter atuado), ainda como ministra de Minas e Energia, na condição de presidente do seu Conselho de Administração. Não houve, naquele instante, um companheiro sequer para lhe dizer ao pé do ouvido que esse tratamento era forçado, inócuo, antipático e reforçava ainda mais o seu ímpeto voluntarista. Ao contrário, os puxa-sacos que a rodeiam não só a aplaudiram como insistiram em manter o tratamento castiço (para eles) do ponto de vista linguístico, pertinente e politicamente “personalizado”. Viu-se aí que Dilma demarcou com clareza seu território. A exigência, antes feita a seus auxiliares mais próximos, estendeu-se imediatamente aos demais, dos mais humildes aos mais graduados. Voluntariosa, governou de maneira autoritária e solitária e, por isso, colhe agora os frutos que semeou. Depois de uma campanha raivosa, cheia de evasivas e mentiras, a presidente simplesmente se recolheu e desapareceu do mapa, sem dar satisfação, como se não tivesse a ver com o país que preside (preside?) pela segunda vez. O resultado não poderia ser outro: no dia seguinte à celebração dos 35 anos do PT, três meses após sua reeleição, sua popularidade simplesmente despencou, levando-a a córner, quase indefesa, segundo revela recente pesquisa do Datafolha. O instituto registra, também, que 60% dos brasileiros consideram que ela mentiu na campanha e quase 70% a consideram desonesta. O imbróglio que envolve a presidente se agrava a cada dia. O termo “impeachment” – instrumento legítimo de autodefesa do regime democrático, mas que pode servir aos golpistas de ambos os lados – é feio, e mais feio é seu sentido, como disse Carlos Heitor Cony. Mas quem o acordou foi a presidente, que desdisse o que disse a candidata. O economista André Lara Resende, no artigo “O choque de realidade”, no “Estadão” de 7.2.2015, propõe “uma coalizão suprapartidária para reconciliar o país, reconstruir o Estado e resgatar a capacidade de formular políticas para enfrentar a crise”. Isso impediria que “caminhemos no sentido da sua radicalização e da sua divisão”. A outra opção é brincar com fogo, leitor…

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