Dente de molusco é o material mais resistente já descoberto

Nos testes, com um diâmetro cem vezes menor do que um fio de cabelo, substância bateu recorde

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Visão ampliada dos dentes, que têm um milímetro de extensão
University of Portsmouth / Divul
Visão ampliada dos dentes, que têm um milímetro de extensão

Na maré-baixa, coladas às rochas das praias, é fácil identificar as lapas, um tipo de molusco semelhante ao caracol, porém com uma concha calcária de formato cônico. O que não se vê é que, para resistir ao vaivém das ondas, os animais utilizam os dentes para se fixar e raspar as superfícies rochosas, de onde obtêm as algas para seu alimento.

Uma equipe de cientistas da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, descobriu, depois de realizar inúmeros testes de resistência, que esses dentes minúsculos (com menos de um milímetro de comprimento) são o material mais forte encontrado na natureza. Até então, as teias de aranha ocupavam o posto, sendo um material biológico mais forte até do que fios de aço do mesmo diâmetro.

“Esta descoberta significa que as estruturas fibrosas encontrados nos dentes das lapas podem ser imitadas e usadas em aplicações de engenharia de alto desempenho, tais como em carros de Fórmula 1, nos cascos de embarcações e nas estruturas de aeronaves”, afirmou o professor Asa Barber, que liderou os estudos.

Examinando o material, os pesquisadores descobriram que a origem de tanta resistência dos dentes vem de um composto mineral duro, à base de ferro, conhecido como goethite ou goethita, que se forma na lapa enquanto o molusco cresce.

Experimentos. Para testar a resistência dos dentes das lapas, a equipe de cientistas usou uma técnica inovadora. Primeiro, os investigadores moeram dez dentes; em seguida, fizeram uma estrutura em forma de osso de cachorro com o material moído. Desse modo, eles puderam testar qual força seria necessária se aplicar para chegar até a um ponto de ruptura da estrutura.

“Os engenheiros estão sempre interessados em fazer estas estruturas mais fortes, capazes de melhorar o seu desempenho ou se tornarem mais leves, e ao mesmo tempo, utilizando menos material”, disse Barber.

O “osso” testado com um diâmetro quase cem vezes mais fino do que um fio de cabelo humano foi capaz de aguentar uma força cerca de cinco vezes maior do que os fios produzidos pela maioria das aranhas – o que estabelece um novo recorde para a biologia. E também se mostrou mais forte do que um colete de kevlar (um tipo de fibra sintética usada na fabricação de coletes à prova de balas).

“Geralmente uma grande estrutura tem muitas falhas e pode romper mais facilmente do que uma estrutura pequena, mas os dentes de lapa quebram essa regra, tendo a mesma força independente do tamanho. Estes dentes são feitos de fibras muito pequenas, posicionados juntos de uma maneira particular – e devemos pensar em fazer nossas próprias estruturas seguindo esses mesmos princípios”, afirma Barber.

Visibilidade Revista. O estudo da Universidade de Portsmouth foi publicado nesta quarta na revista científica britânica “Royal Society Interface”, que surgiu há mais de 350 anos com um grupo de cientistas.

Embrapa produz teia sintética capaz de substituir o aço No último domingo, o jornal O TEMPO publicou uma reportagem mostrando a resistência e a flexibilidade das teias de aranha e suas possíveis aplicações, principalmente na ciência e na medicina. A matéria entrevistou o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Elíbio Rech, que conseguiu desenvolver fibras sintéticas em laboratório. Na técnica utilizada por Rech, bactérias e sementes de soja foram utilizadas como biofábricas. Segundo o pesquisador, o material pode ser usado como matéria-prima para equipamentos esportivos, coletes à prova de balas, aviões e até cosméticos, e que apesar do alto custo, “podemos vislumbrar alguma coisa em torno de cinco a dez anos”.

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