Comando para matar: Iraque

Longa tem ótimas sequências de ação, mas evita psique de seu protagonista

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Perspectiva. Longa peca ao assumir ponto de vista simplista do protagonista, o sniper texano Chris Kyle
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Perspectiva. Longa peca ao assumir ponto de vista simplista do protagonista, o sniper texano Chris Kyle

Segundo “Sniper Americano”, que estreia hoje, a guerra do Iraque é um conflito de vítimas heroicas contra terroristas selvagens. De homens bons contra criminosos maus. Porque esse é o ponto de vista do protagonista Chris Kyle (Bradley Cooper). E como a primeira imagem do filme deixa claro, com um plano em primeira pessoa dele ajustando o alvo de sua escopeta, essa é a perspectiva que o filme vai assumir pelas próximas duas horas.  

Quando criança, o pai de Kyle disse ao filho que ele era um cão pastor em meio a lobos malvados – algo mostrado em um daqueles flashbacks encenados por Clint Eastwood com a sutileza de uma bateria de escola de samba. E é com esse complexo de herói que o protagonista enxerga a guerra: uma disputa entre ele mesmo, o sniper americano que salva, e Mustafa, o sniper árabe que assassina.

Essa delineação maniqueísta de mocinhos e vilões é o que faz de “Sniper Americano” um retrocesso em relação a longas como “Guerra ao Terror” – em que o inimigo nunca era identificado porque ele vivia dentro do próprio protagonista. Até a quarta temporada de “Homeland”, ao mostrar o Paquistão como a terra-pátria do título e a CIA como os invasores, fez um retrato político bem mais complexo e ponderado. E mesmo Eastwood já fez isso com “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”.

Aqui, porém, ele faz escolhas bem diferentes. Quando Kyle se prepara para um tiro, ele é enquadrado sempre em conjunto com a arma: é ela que mata, não ele, uma mera vítima do conflito. Já Mustafa é sempre mostrado em closes do rosto, que representa a maldade por si só. E quando o protagonista alveja alguém, é sempre um ser sem identidade para o espectador, que vê o alvo sempre de longe, do ponto de vista de Kyle. Já os tiros de Mustafa sempre resultam em mortes sangrentas, de alguém que iria se casar ou que tinha estabelecido uma relação com o público.

Tratam-se, no entanto, de escolhas narrativas coerentes – questionáveis politicamente, mas executadas com excelência do ponto de vista técnico. “Sniper Americano” é o melhor trabalho de Eastwood desde “Invictus”. O primeiro em que ele parece realmente interessado e empenhado no que está filmando. Isso fica claro nas sequências no Iraque, com o suspense de “Guerra ao Terror” dando lugar a uma decupagem guiada pela atenção e os sentidos de Kyle no campo de batalha, colocando o espectador dentro da mente dele e mostrando por que ele era tão bom no que fazia.

Já quando o filme volta para os EUA e para a família do protagonista, a história é diferente. O papel da mocinha que pede para o herói não ir salvar o mundo é sempre ingrato, mas a fraca Sienna Miller não ajuda muito como a esposa Taya. O maior problema, no entanto, é que o longa se recusa a se aprofundar na psique e no Transtorno de Stress Pós-Traumático de Kyle.

A falha já veio do roteiro que, ao adaptar a autobiografia do sniper real, excluiu as partes mais violentas de seu distúrbio – assim como suas colocações mais racistas, ainda que em algumas cenas, ele se reflita aos árabes e iraquianos em geral como “selvagens”. Mas mesmo a direção de Eastwood se recusa a olhar para seu protagonista como algo mais que um herói e a vítima de uma guerra iniciada por inimigos da “verdade, justiça e do modo americano”.

As cenas parecem rasas e amedrontadas, com Cooper em uma boa atuação que nunca é puxada ao seu limite pela direção. A sequência final, principalmente, e a opção de não mostrar o desfecho de Kyle são uma ofensa a todos os soldados norte-americanos que sofrem de TSPT. A sensação é que, na dinâmica de forças entre Eastwood, Cooper e Kyle, os dois primeiros se curvam diante da imponência do último – um herói a ser venerado, como os créditos deixam claro, mas não dissecado.

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