Na mira da polêmica

Indicado a cinco Oscars e prestes a se tornar a maior bilheteria do ano nos EUA, “Sniper Americano” divide a crítica

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Linha de fogo. Bradley Cooper produziu e protagonizou o longa, que seria originalmente dirigido por Steven Spielberg
Keith Bernstein
Linha de fogo. Bradley Cooper produziu e protagonizou o longa, que seria originalmente dirigido por Steven Spielberg

No século XVIII, o filósofo Voltaire cunhou uma das frases mais icônicas do Iluminismo: “posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. “Sniper Americano”, que estreia hoje nos cinemas, tornou-se um dos maiores exemplos dessa máxima na sétima arte.  

O filme sobre o texano Chris Kyle (Bradley Cooper) – o sniper mais fatal da história do Exército norte-americano, com mais de 160 vítimas durante os seis anos em que serviu no Iraque – já é a maior bilheteria de um filme de guerra nos EUA, arrecadando mais de US$ 300 milhões. E caminha para se tornar a maior bilheteria de um filme lançado em 2014, ultrapassando nada menos que “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte I” e “Guardiões da Galáxia”.

Mas se o público recebeu o longa de Clint Eastwood de braços abertos, o mesmo não aconteceu com a crítica. Mesmo aqueles que reconhecem o filme como o melhor trabalho do diretor em anos, questionam os recortes políticos e morais feitos pelo roteirista Jason Hall ao adaptar a biografia escrita pelo próprio Kyle. “O protagonista é celebrado como um herói quando, na verdade, ele é um serial killer, parte de um exército que invadiu um país sob pretexto falso, e matou mais de 160 pessoas”, argumenta o crítico Pablo Villaça.

Ele faz eco a um vasto coro de jornalistas que não concordam com o fato de que o longa ignora os pontos mais problemáticos da autobiografia para construir o arco ficcional de um herói trágico. Além de várias inverdades (veja box acima) que já foram desmentidas, o protagonista afirma no livro que “ adorava matar, é divertido” e que, quando um colega ameaçou seu recorde, ele começou a matar indistintamente. “A questão não é o filme ser pró-guerra. Ele não é. Mas sim que ele celebra alguém que não merece ser celebrado”, explica Villaça.

Já o crítico Marcelo Miranda acredita que, mais importante que se ater ao que ficou de fora, é discutir as questões que estão no filme. “A receptividade negativa está mais baseada na moralidade de quem vê, do que aquilo que vê. Usar o livro para atacar o longa é usá-lo para atacar algo que não se consegue com o filme”, contrapõe.

Para ele, “Sniper Americano” não faz de Kyle nem herói, nem vilão – mas se insere num contexto de 40 anos da filmografia de seu diretor. “Eastwood é o cineasta da desconstrução. O filme desconstrói o imaginário do herói norte-americano. Mas para fazer isso, ele precisa reconstruí-lo primeiro”, analisa.

E, segundo o crítico, isso não significa que o longa assuma o ponto de vista do protagonista. “Ele mostra o mundo como ele é visto por aquele personagem – pelo norte-americano, algo muito mais coletivo que individual. Nesse sentido, mostrar o outro lado não faz sentido porque não é um filme de oposições, e sim de posições, de imaginários. Entrar nesse mundo ou não é opcional”, argumenta.

Apesar de concordar com o talento de Eastwood na condução da obra, é nessa questão do ponto de vista que Villaça pensa diferente. “O filme é perigosamente bem dirigido porque, ao assumir a visão de mundo de Kyle, te leva a celebrar coisas das quais você não é a favor”, avalia.

Ele compara a situação com “A Queda!”, em que o espectador se compadece de Hitler fragilizado no bunker com a aproximação dos Aliados, ou mesmo “Scarface” e os finais de “Dogville” e “Tropa de Elite”, em que o público se vê do lado de extermínio em massa. “A arte tem esse poder de te fazer se identificar com pessoas que, na vida real, você desprezaria. Isso não é raro. O problema é quando isso envolve política e fatos reais”, afirma, comparando “Sniper” a “O Nascimento de uma Nação” e “Triunfo da Vontade”, dois dos maiores clássicos do cinema que defenderam, respectivamente, a Ku Klux Klan e o nazismo.

Contudo, do ponto de vista estético, Villaça reconhece que um longa que incluísse também o ponto de vista iraquiano, mesmo moralmente melhor, provavelmente não seria tão bom. “Eu acharia fascinante um longa sobre o outro sniper iraquiano, mas isso nunca vai acontecer porque eles não vão questionar os soldados no Iraque agora. Talvez daqui a 70 anos”, suspira.

E ainda que discorde das polêmicas, Miranda celebra que elas estejam colocando em pauta um grande filme, de um mestre do cinema. “Só pelas pessoas estarem discutindo Eastwood, e não ‘Cinquenta Tons de Cinza’ ou ‘A Entrevista’, já valeu”, brinca.

É tudo verdade?

Quatro inverdades que Chris Kyle escreveu em seu livro e já foram desmentidas. Ele deu um murro na cara de um ator que criticou a guerra. Desmentido e processado pelo ator. Ele matou dezenas de saqueadores em Nova Orleans, durante o furacão Katrina. Desmentido pelo exército.  Ele atirou em dois homens que tentaram roubar sua caminhonete. Nunca provado. Ele encontrou armas químicas no Iraque que teriam vindo da França e Alemanha. Nunca confirmado pelo exército.

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