Relaxa, mãe!

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Rafael, o sobrinho mais velho, foi pra serra do Cipó, e o abacaxi, naturalmente, sobrou para ela descascar. – O que é que tem, mãe?! Qual o problema de a gente ir ao show do Iron Maiden com o amigo do namorado da irmã da Fatinha? Não, ela nem sabia direito da existência da Fatinha, muito menos do amigo do namorado de sua irmã. Quanto ao “a gente ir”, isso quer dizer a mais velha, de 15, e a caçula, de 14 anos; definitivamente, NÃO! – Já está tudo combinado, mãe, já que o Rafa não pode nos levar, vamos com o pessoal da Fatinha. Qual o problema? – Todos. – Foi curta e grossa na resposta, afinal, o tal Iron Maiden, com certeza, era um desses grupos heavy metal, com mania de quebrar guitarras e estourar tímpanos. Não, não, e ponto final. – Mas, mãe – insistia a caçula –, nunca mais vamos ter a oportunidade de ver o Iron Maiden em Belo Horizonte, já temos até o ingresso. O do Rafa depois a gente vende na porta... – O quê? Vocês já compraram ingresso pra isso? Não acredito! – Foi o Rafa, mãe – interveio a mais velha –, ele sabe que com ele está liberado, então comprou. Pena que acabou indo pra serra do Cipó... – Filhas – voltou a mãe na defensiva –, vamos ser razoáveis. Nem com o Rafa, nem com ninguém eu deixaria vocês irem a esse show. Não é ambiente para vocês. Muita droga, bebida, músicas horríveis... – E você? – Eu o quê? – E se você for com a gente? – Ai, ai, ai, e agora? – pensa, desolada. – É, mãe! Já que não tem outro jeito, a gente até paga esse mico – completou a caçula. – Está bem. – Decidiu como por impulso, sem ter a menor ideia de como agir nessa situação. – Taí. Legal! Vou com vocês. Legal! Tentava dar naturalidade e entusiasmo a suas palavras. Afinal, seria uma ótima oportunidade de ver “in loco” o ambiente que as filhas pretendiam frequentar, conhecer a tal Fatinha e, discretamente, na retaguarda, protegê-las. Mal acreditaram na resposta da mãe, ainda mais com todo aquele entusiasmo. Mas, antes que ela mudasse de ideia, deram-lhe um abraço rapidinho e saíram correndo pro telefone. Tinham que combinar horário e o local de encontro, com a turma da Fatinha, claro. O show seria às 21h, e às 16h começaram a azucrinar a coitada. – Anda, mãe! Anda logo! – Como assim, anda logo? Pra onde? – Pro Mineirinho, né, mãe! – Gente, mas o negócio não é às 21h? – É, mas todo mundo chega mais cedo pra pegar lugar lá na frente. Desolada, descobriu que fazia parte do “todo mundo” e, pega de surpresa, dirigiu-se ao armário para se trocar. Calça jeans, camisetinha branca, sandalinha baixa etc., etc. Pronta para sair, é interrompida pela mais velha, ou melhor, pelas duas, que, como se tivessem combinado, gritam ao mesmo tempo: – VOCÊ VAI ASSIM??? – Uai! Qual o problema? Já estava começando a se enervar com essa história, afinal, já estava fazendo um grandessíssimo favor em acompanhá-las nessa “coisa do demônio”, como bem definiu a vizinha. Impotente perante a insistência das filhas, de repente se viu no espelho com uma calça preta, tênis All Star de cor indefinida e, para o seu espanto, uma camisa também preta, na qual estava escrito “Nirvana” de todo tamanho. Sempre achou bacana esse negócio de mãe vestir e calçar o mesmo número das filhas, mas, nessa hora, confessa que desejaria ser enormemente mais alta, mais cheinha e calçar 38. Entraram no carro, naturalmente para estacionar no fim do mundo. Chegando ao Mineirinho, descobriu que não estava vestida, estava “uniformizada”. Não havia um, sequer unzinho, com camisa branca ou colorida: 70% Nirvana, 10% Iron Maiden, alguma coisa de Black Sabbath e derivados. Todos os “uniformes”, sem exceção, eram pretos. – Se sumir, como é que acha? – perguntava ela, apavorada e já pensando no pior. – Relaxa, mãe! Relaxa! – dizia a mais velha, correndo atrás da irmã, que, entusiasmada, entrava na multidão. Claro, correu junto, trombando em Deus e o mundo até conseguir segurar a mão de uma delas. – Não façam mais isso, entenderam? Se sumirem, como é que eu as acho? – voltou a perguntar. – Relaxa, mãe. Relaxa! – voltou a responder a filha, enquanto, puxando-a pelos braços, levou-a para conhecer a Fatinha. E abraça daqui, abraça dali, gritinhos entusiasmados, beijinhos, até finalmente se lembrarem dela – a mãe vestida de Nirvana. – Ei, Fatinha, esta aqui é minha mãe! – Oi, como vai? Tudo bem? – Tentou ser o mais simpática possível, apesar da total consternação. – Oi! – respondeu a menina, cuja veste mais normal era a camisa do Black Sabbath. Na orelha, uma fileira de brincos disputava espaço com uma fileira de piercings, no nariz, argolas e tarraxinhas, na boca, mais um bocado de coisas, e nos cabelos, fios lilases e alaranjados completavam o visual. De repente... – Ahhh! Cara, que bom te encontrar! – Véio, tô aqui desde as 15h. Descobrindo que metade das pessoas ali se tratavam por “véio”, pensou horrorizada: “Se um rapaz de 16 anos é chamado de ‘velho’, imagina eu! O que eu vou virar na boca desses meninos?” O tempo foi passando, e as pessoas, se empurrando cada vez mais. Comprimindo-se como podia, de repente escutou um grito: – Ana! Você por aqui? Deus! Era o Dudu, amigo de adolescência. Mas que diabos o Dudu estava fazendo ali e, ainda por cima, vestido de “Sepultura”? A resposta veio rápida, quando um garoto de 15 anos, intrometendo-se em meio aos dois, pediu dinheiro para o pôster. – Puxa, Du, pensei que só eu me sujeitasse a isso. – Pois é... – respondeu, com aquela cara de quem já tinha entregado os pontos. – Uai, Du! Você voltou a fumar? – Pois é. Voltei hoje, para ser mais exato, há duas horas... O assunto estava ficando bom quando foram interrompidos pela multidão que, aos gritos, saudava o conjunto que entrava. O show começou alucinante, ensurdecedor. – Engraçado, parece que já vi essas figuras em algum lugar – pensa ela com seus botões. – Ué! Eu conheço essa música! – pensa o Dudu, também com seus botões. E no meio da confusão, entre jovens e roqueiros, dois pais se entreolham, numa espécie de cumplicidade. Sem perceber, movem seus pés, suas mãos e seus braços até se entregarem ao ritmo. Voltam no tempo, quando, também jovens e irreverentes, decoravam músicas e letras de Led Zeppelin, Bob Dylan e outro que prometia, um tal de Iron Maiden.

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