"Decidi deixar o caso quando vi o bebê", diz advogado de defesa

Contratado pelo suposto pai dos gêmeos assassinados, advogado conta que abandonou a defesa quando viu o corpo de um dos bebês sendo encontrado pela polícia

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

Gêmeos foram assassinados após a mulher insistir para o suposto pai assumir
Reprodução/ Facebook
Gêmeos foram assassinados após a mulher insistir para o suposto pai assumir

“Quando eu vi o corpo de uma das crianças, eu fiquei sem defesa, sem ação, paralisado. Eu não consegui dormir naquela noite”. O relato é do então advogado de defesa do suposto pai dos gêmeos Ana Flávia e Lucas, Odilon dos Santos. Ele foi chamado pelo próprio suspeito, Matuzalém Ferreira Júnior, de 49 anos, para fazer a sua defesa, mas informou nesta quarta-feira (18) que está deixando o caso. 

A mãe das crianças, Izabella Marques Gianvechio, de 22 anos,  foi assassinada na última semana, depois que Matuzalém marcou um encontro com ela sob o pretexto de resolver a questão com as crianças. Izabella insistia para que o homem, que é casado e tem dois filhos, assumisse a paternidade dos gêmeos. De Uberaba, ela foi levada para uma cidade a cerca de 45 quilômetros do Triângulo Mineiro, no interior de São Paulo. “Pedrão”, amigo do suspeito e indicado por ele como sendo o executor do crime, estava com Matuzalém no dia do crime e teria matado a mãe a as crianças. Os corpos dos gêmeos só foram encontrados nessa terça-feira (17).

“Eu decidi deixar o caso por dois motivos. Primeiro, porque ele mentiu para mim desde o começo. Pra família dele e para os parentes também. Passou três dias mentindo, jurando por Nossa Senhora de Aparecida que estava falando a verdade, e eu só fui descobrir sobre os bebês na delegacia. Até então, eu estava pontuando minha defesa com base nas mentiras dele, colocando fatos errados”, explica o advogado. Foi só depois de o homem confessar seu envolvimento na delegacia e levar a equipe policial ao local do crime, que Santos percebeu que ele mentia.

“O segundo motivo foi quando fomos ao local do crime e a polícia encontrou o corpo do primeiro bebê. Quando eu vi o corpo da criança, ainda no bebê-conforto, o corpinho cheio de larvas, cheio de sangue, todo despedaçado, eu me revoltei. Fiquei sem ação. Tive que me afastar. Não vi nem o encontro do segundo corpo. Eu nunca conseguiria fazer uma boa defesa nessas condições”, explica.

Ainda conforme Santos, ele passou o dia pensando nisso e ao chegar em casa, desabafou com a mulher. “Conversei com minha mulher, não consegui dormir à noite. A família dele me ligou diversas vezes para saber o que houve, eles não gostaram muito não. Minha decisão é firme. Não recebi nenhum dinheiro dele, não tem nenhuma procuração, nenhum contrato, nada formalizado que me impede de sair do caso. E eu estou certo de que fiz a escolha certa. Não há dinheiro no mundo que pague a tranquilidade de um homem. E estou mais tranquilo agora”, conta.

O advogado também relata que passou a ser ameaçado e hostilizado desde que aceitou a defesa de Matuzalém. “Quando ele saiu da delegacia e eu estava com ele e as pessoas tentaram virar a viatura, dirigiram ofensas a ele e também a mim. E no Facebook, eu recebi várias ameaças também, de gente dizendo que iria matar a minha filha, a minha esposa”, conta.

Mas segundo ele, não foi isso que o fez desistir. “Eu tenho uma filha de 4 anos, era impossível ver isso e ficar tranquilo. Não precisava ter sido assim, não tem nada que justifica ter matado esses bebês, nada. Deixasse na porta da casa de alguém, dava pra adoção, não precisava ter feito isso. É revoltante. Foi perturbador ver o corpinho da criança, todo despedaçado, não podendo nem ser identificado”, finaliza.

Santos pretende se encontrar com a família do suspeito nesta quinta-feira (19) para oficializar sua saída do caso. Matuzalém pode recorrer a outro advogado para defendê-lo. Caso não consiga, ele tem direito a um defensor público designado pelo Estado para fazer a sua defesa. 

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