Um jogo de sedução entre caça e caçador

Astro de “Cinquenta Tons de Cinza” está no melhor papel de sua carreira

iG Minas Gerais | Isis Mota |

Poderosa. Gillian Anderson, loira ao estilo Hitchcock, literalmente assusta os homens na série britânica
fotos bbc/divulgação
Poderosa. Gillian Anderson, loira ao estilo Hitchcock, literalmente assusta os homens na série britânica

De agora em diante, toda vez que alguém vir o rostinho bonito do ex-modelo irlandês Jamie Dornan, vai pensar nas vendas e chicotes que ele usa como o Christian Grey de “Cinquenta Tons de Cinza”. Mas sua melhor performance está em “The Fall”, série britânica pouco conhecida, que já tem suas duas temporadas na Netflix.

Dornan é (de novo) um sádico sexual, apreciador de cordas e amarrações, só que desta vez é um assassino brutal, que não consegue dominar seu gosto por morenas bonitas – de preferência limpinhas, com as unhas pintadas e bem mortas. Paul Spector, seu personagem, é assistente social e conselheiro de luto, marido e pai de família dedicado. De dia. De noite, é uma ave de rapina.

Se a identidade do assassino é revelada ao público desde o início, a polícia local não tem o mesmo privilégio. Os investigadores de Belfast, na Irlanda, sequer desconfiam da existência do serial killer escondido em plena vista, até que a detetive superintendente Stella Gibson é chamada de Londres para fazer uma auditoria num caso agarrado. Stella, interpretada pela estrela de “Arquivo X”, Gillian Anderson, no auge do seu talento, imediatamente conecta outros crimes e identifica as características do autor.

Caça e caçador começam então um tango que seduz o espectador – e um ao outro. Quando ela dá um passo à frente e aparece na TV dizendo que avançou na investigação, ele dá um passo atrás e alivia seu desejo incontrolável amarrando as Barbies da filha em vez de mulheres reais. Quando vê seu retrato falado, ela se rende à beleza: “Até um assassino múltiplo tem sua cota de boas qualidades...”

Quando finalmente se falam, por telefone, ele diz a ela que são muito parecidos. “Obsessivos, implacáveis, vivendo e respirando relativismo moral. A diferença é que você é presa a noções convencionais de certo e errado, e eu sou livre”.

A diferença a que ele se refere é marcada, na série criada por Allan Cubitt e dirigida por Jakob Verbruggen, pelos espelhos. O recurso visual é usado quase à exaustão, com diálogos inteiros travados apenas pelas imagens refletidas. E deixa clara a separação entre a superfície calma e a profundeza turva de Spector. Quando reflete qualquer outro personagem, o espelho mostra apenas o que o olho veria. Quando mostra o assassino, é sempre fragmentado em duas imagens, como nas abas de uma penteadeira, ou obscurecido até quase a invisibilidade.

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