Um naufrágio na depressão

Cia. Afeta apresenta “180 Dias de Inverno” pela Campanha de Popularização do Teatro e Dança, no Klauss Vianna

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Em cena. Vertida por luminárias que “choram” sobre o cenário, água é metáfora da depressão de Sandra, mulher do artista Nuno Ramos
SamuelMendes.com
Em cena. Vertida por luminárias que “choram” sobre o cenário, água é metáfora da depressão de Sandra, mulher do artista Nuno Ramos

Um quarto inteiro e dois corpos afundando sob uma chuva incessante. Com essa metáfora (e cerca de 120 litros d’água), o drama “180 Dias de Inverno” percorre a história de um casal cuja mulher sofre de depressão e anorexia bulímica. A doença é acompanhada pelo marido, que se digladia entre a vontade de ajudá-la, a impotência de curá-la e o cansaço pela situação.

Encenado desde 2010 pela cia. Afeta, o espetáculo volta em cartaz na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, de amanhã a domingo – nesta e na próxima semana, no teatro Klauss Viana (Oi Futuro).

O enredo é baseado no relato de um dos mais celebrados artistas contemporâneos brasileiros, Nuno Ramos. Em tom de desabafo, o texto surgiu em uma das crises de depressão da mulher, Sandra Antunes, entre dezembro e junho de 1999 (exatamente os seis meses que dão nome à peça). Após escrever o diário, Nuno publicou “Minha Fantasma” em apenas 105 exemplares, distribuídos a amigos – e um deles foi parar nas mãos no diretor da companhia de teatro, Nando Motta.

“Na hora, vi que o texto tinha muito potencial dramático, por causa da relação. Nuno conta a história como se estivesse aos pés da cama dela, traz uma poética forte e ao mesmo tempo muito humana”, afirma o diretor, que nesta temporada assume o papel principal no palco.

Para a adaptação, o grupo convidou o dramaturgo Antônio Hildebrando. Como o texto é recheado de metáforas visuais, o desafio era se concentrar menos nas palavras e sim nas cenas que elas representavam.

Entre as referências que a montagem traz estão desde a dança de Pina Bauch até o cinema de Tim Burton (cuja animação “Alice” é projetada durante o espetáculo). Assim, a peça se equilibra ora na sutileza, ora na agressividade, com uma cronologia não-linear.

“Toda a história acontece no amanhecer e anoitecer, representando as madrugadas que ele passou acordado, cuidando dela. A iluminação foi muito bem pensada para ambientar esse lugar escuro, esse buraco onde ela caiu e não conseguia sair”, explica Motta.

Os cenários e figurinos usam referências também de outras obras de Nuno Ramos – como é o caso da instalação “Maré Mobília”, que deu origem ao quarto onde a peça se desenrola, semi-alagado. “As luminárias ‘choram’ durante a peça. A sensação é que tudo é imerso, mas também há a esperança de salvação. Como diz o clichê, há a metade cheia e a metade vazia”.

Antes de estrear a peça, o diretor foi conversar com Nuno Ramos. “Nós nos conhecemos em São Paulo e ele me recebeu muito bem. Foi uma conversa muito íntima, ele me contou tudo o que passou e como foi aprender a conviver com essa doença. Essa foi apenas mais uma das crises, não a única, nem a menor, mas foi a que ele conseguiu transformar em palavras para extravasar e lidar com o que estava sentindo”, comentou o diretor.

Dentro de toda a complexidade das relações humanas, há uma reação quase chocante: se a mulher melhorar (que na verdade é o que ele quer), o autor perde o domínio que exerce sobre ela ao vigiá-la. “De certa forma, é uma passagem machista, egoísta, porque é sobre ele. É a visão somente dele, e o que queremos é que as pessoas entendam esse olhar. A história é bonita e é triste”, avalia Motta.

Água. Em tempos de crise hídrica, o cenário da peça, que traz um espelho d’água de 2mm, 8 metros de comprimento e 6 metros de largura pode ser alvo de controvérsia. Para o diretor, porém, isso não será problema.

“Desde a estreia da peça, quando isso ainda não era uma questão tão presente, já nos preocupávamos. A mesma água é reutilizada para várias apresentações e, depois, ainda pode ser aproveitada pelo teatro, para a limpeza dos banheiros, por exemplo. Não é desperdiçada”, garante.

Agenda

O quê. “180 Dias de inverno”, da cia Afeta

Quando. De amanhã a 1º de março, de quinta a sábado, às 21h, e domingos às 19h

Onde. Teatro Klauss Vianna (av. Afonso Pena, 4.001, Serra)

Quanto. R$ 15

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave