A amizade nos tempos de Zuckerberg

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Começou com mensagens in box. Primeiro, se desculpando por um post em que ela tirava onda com o Corinthians, depois um elogio de uma crônica, aí veio o parabéns pelo meu aniversário... até que Feliciano nos uniu. Foi a partir da descoberta de que o pastor polêmico havia se transformado no presidente da Comissão de Direitos Humanos que descobrimos nossas afinidades ideológicas. Foi no dia seguinte a um diálogo em nossa timeline sobre nossa indignação a respeito do caso que começou nossa relação epistolar. Ela tem idade para ser minha filha, mas fala e age como se tivesse bem mais. Madura, uma das primeiras coisas que me disse foi que “não tinha saco” para os meninos de sua idade. “Muitos deles não sabem quem é Chaplin”, me disse. Por isso, me confidenciou, preferia os homens mais velhos. Depois falou que era leitora assídua das minhas crônicas e que, inclusive, uma delas havia lhe inspirado a escrever um texto sobre seu pai. Inevitável, depois, que ela também discorresse sobre a relação que teve com ele. Conversamos, pois, sobre os mais variados assuntos desde o início de março. E sempre via in box, a mensagem oculta do Facebook. Adoro nossas conversas. Me rejuvenescem. Ela é uma menina esperta, atenta, cheia de conteúdo e atitude e, principalmente, é segura de si. Essa relação que se dá via Facebook é inédita para mim. Bato longos papos com amigos que estão longe ou nem tanto - outro dia, fiquei duas horas teclando com uma querida amiga que mora no bairro ao lado do meu; um jeito que arrumamos para botar o papo em dia já que nos encontramos com menos frequência do que gostaríamos – mas são pessoas que conheço há anos e o Facebook é apenas uma forma mais fácil de chegar até eles. Com essa “nova” amiga, não. A amizade nasceu no Facebook. O importante, no caso, é que essa relação é igual a tantas outras que existiram em épocas de distâncias longas em que as pessoas se correspondiam por cartas. A única diferença é que nossas longas conversas são online, não precisamos esperar dias ou meses para responder ou ser respondida. Claro que uma relação epistolar como essa não gerará nenhum livro, como aconteceu com nomes famosos da nossa história. Mesmo que uma de nós se torne uma celebridade no futuro. Mas gerou uma amizade, o que pra mim basta. O Facebook é, de modo geral, uma bobagem. Mas reserva essas boas surpresas. Não fosse ele, teria menos chances de conhecer essa nova amiga, que compartilha dos meus ideais políticos, que gosta de samba e de rock como eu e que sabe conversar sobre tudo. E mais: que me confidencia seus segredos, ansiedades e sonhos. Considero um privilégio. Nossa amizade pode ou não ultrapassar os limites da rede social. Afinal, estamos falando da amizade nos tempos de Zuckerberg, em que se tem a ilusão de se ter 835 amigos. Mas seria bom se ultrapassasse. Assim, ela poderia conhecer minha casa, meus outros amigos (quem sabe até não se interessaria por um deles?), provar da minha comida, folhear meus livros, ouvir meus CDs, afagar o Paco e, juntas, poderíamos ir ao cinema, a um show e até mesmo enxugar a garrafa de Jack Daniels que está lá esperando uma boa oportunidade para ser aberta. É, uma amizade epistolar via Facebook pode ser interessante, mas sou da velha guarda – sabe, como é? – e sempre vou preferir o têtê-a-têtê. Texto originalmente publicado no dia 10/4/2013

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