Bart e a resistência roqueira

Dono da loja 53 HC, Bart Ramos é responsável por manter acesa a produção de shows de rock em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | lucas buzatti |

53 HC. Há 16 anos Bart Ramos começou a história na loja que se tornaria grande referência para os roqueiros de Belo Horizonte
Mariela Guimarães
53 HC. Há 16 anos Bart Ramos começou a história na loja que se tornaria grande referência para os roqueiros de Belo Horizonte

O ano de 1980 marcou a década de ouro para a música pesada internacional. Enquanto o pop tentava se entender, importantes expoentes do metal, do punk rock e do hardcore viviam o auge da inspiração. É o caso de bandas como Ramones e Iron Maiden, as primeiras que o produtor e empresário Welbert “Bart” Ramos ouviu, ainda moleque, em Governador Valadares. Também é o ano em que Bart nasceu, e que o AC/DC lançou seu disco preferido, o clássico “Back in Black”. Começava a história de uma figura que se tornaria crucial para os camisas-pretas de Minas. Apesar da blusa de banda e dos óculos escuros característicos, alguns fios grisalhos no topete de Bart denunciam: muita coisa mudou desde a abertura de sua loja – a 53 HC –, 16 anos atrás. O espaço, na Galeria Praça Sete, foi o embrião do selo e da produtora de shows que levam o mesmo nome, e tornou possível que Bart realizasse antigos sonhos de roqueiro. Trazer Max Cavalera de volta à capital mineira, ao lado do irmão Iggor, e produzir o show de 30 anos dos Ratos de Porão são alguns desses feitos – que serão contados em um livro sobre a história da loja, que já começou a ser escrito e deve sair em, no máximo, dois anos. Já em Belo Horizonte,em 1997, Bart começou a apresentar um programa na extinta rádio Santê FM, quando a semelhança com o filho de Homer Simpson sacramentou o apelido. O rádio o levou a conhecer João e Patti, donos da Cogumelo Records, que queriam abrir uma nova loja. Bart sugeriu o nome de 53 HC e conseguiu seu primeiro emprego. Um ano depois, após assistir ao festival Porão do Rock, em Brasília, Bart voltou decidido a expandir os negócios e comprou a loja, que também virou selo. Bandas emblemáticas da cena independente brasileira, como DFC, Deceivers, Calibre 12 e Questions lançaram discos pelo selo 53 HC. Não demorou para o produtor ficar pilhado na ideia de fazer um festival em BH, só com bandas do selo. E daí surgiu a primeira edição do 53 HC Fest, em 2002, no saudoso Lapa Multshow. Três anos depois, veio a ideia de ampliar o evento. “Fizemos uma parada ousada, sem nenhum centavo de patrocínio. Um festival de dois dias, com oito bandas por dia. Conseguimos colocar 10 mil pessoas, no total. Foi maravilhoso”, relembra. A “cara de mau” de Bart, inclusive, é fruto dos anos de batalha à frente de um negócio difícil e de uma cena que sempre foi alvo de discriminação. “Fui proprietário da 53 HC muito novo, e o preconceito com o roqueiro sempre foi forte, ainda mais naquela época. Acho que esse foi um jeito que achei de me impor, uma marca registrada que seguiu. Mas, no trabalho, na verdade, sou um chefe até ‘banana’”, brinca. Expansão. Quando o 53 HC começou a ficar mais profissional, Bart abriu caminho para trazer bandas internacionais à cidade. “Nós tomamos muita porrada. Nunca tivemos equipe grande nem aportes financeiros. Foi tudo feito com amor. É muito fácil ser produtor com grana, né?”, ressalta. Entre as bandas gringas, Bart lembra dos primeiros shows de Suicidal Tendencies, Skatalites, DRI e Slackers em BH. Aos poucos, a mistura de gêneros também foi se tornando uma marca registrada dos eventos da produtora, como lembra o roqueiro: “Em 2007, colocamos Matanza e Móveis Coloniais de Acaju para tocar no mesmo dia. Deve ter sido a única vez que eles tocaram juntos, no mesmo festival”. Logo pintou a ideia de fazer shows para públicos menores, em casas pequenas, surgindo assim o 53 HC Sessions. A ideia casou com o convite para produzir o show de comemoração dos 30 anos do clássico dos Ratos de Porão, “Crucificados Pelo Sistema”, em 2014. Bart conta os percalços que marcam a produção de shows, mas o que dirá manter uma loja de discos na era da internet? “Claro que não dá dinheiro. As gravadoras abusaram, veio a internet e elas se deram mal. Mas a loja é muito mais que isso. É por causa dela que todos os shows, toda a história, aconteceu. É meu primeiro e único emprego. E eu faço por amor. Enquanto eu puder, e tiver condições, essa loja vai estar aberta. A 53 HC é resistência, e sempre será”, afirma, decidido. 

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