Alto risco na prisão

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souzza
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Encostado em sua antiga bicicleta repintada de um azul quase marinho, que parecia uma Monark, o professor João Bosco contou-me que, numa segunda-feira como esta de Carnaval, anos atrás, foi chamado em sua casa no fim da manhã. Demorou a acordar, mas logo percebeu a cabeça latejando pela ressaca da cerveja no domingo carnavalesco. O elemento que ousou despertá-lo nessas condições trazia o pedido dos amigos que suplicavam sua presença na delegacia. Xuranha, Jiló e Binguinha estavam detidos! “Mas o que fizeram?”, perguntou Bosco. “Brigaram entre si ontem de noite e foram dormir no xadrez”, explicou o rapaz que levou o recado. Enquanto aprumava a carcaça para se sentar, o professor quis entender melhor o que havia acontecido, até para saber se iria se meter naquela roubada. O visitante era primo de Jiló, acompanhara a pouca distância o acontecido na praça da feira e, portanto, tinha propriedade para falar. Relatou o rapaz que toda a culpa foi de Djanira. Terminada a rota do desfile, a bateria do bloco continuou a tocar concentrada na praça. Os três amigos inseparáveis, Xuranha, Jiló e Binguinha, já bebiam há algumas horas e, mais pra lá do que pra cá, ocupavam uma mesa de frente para a folia. Foi quando Djanira passou dançando de saia curta e top saltitante. Tudo vermelho. Ela foi e voltou, e voltou e foi até que escolheu aproveitar o Carnaval parada ali, perto da batucada. E daí em diante se esbaldou a dançar de frente e de costas para Xuranha, Jiló e Binguinha. Quando Djanira, cor de jambo, roliça e pingando suor de Carnaval, virava e, rebolando, olhava na direção da mesa, cada um achava que era para si o galanteio da bela. À medida que a música acelerava e Djanira sacudia intrépida, cada um despertava o gigante adormecido entre os panos. Cada qual já não se continha até que todos eles se levantaram ao mesmo tempo para ir em direção a Djanira e trombaram. Não havia como conter a disputa entre eles, que passaram a trocar ofensas para colocar a limpo para quem eram os olhares de Djanira. De empurrão em empurrão a contenda passou para os tapas e depois para os socos. Mais forte, Binguinha enfiava a mão em Xuranha e depois no Jiló, uma confusão só. Até que o dono do bar onde estava a mesa chamou os homens da lei, e acabou com o quebra-pau dos amigos, que não viram mais Djanira. Bosco nem era advogado, mas como professor os três amigos confiavam em sua lábia para convencer o delegado. Assim ele concordou com a súplica, montou na bicicleta e foi até a delegacia. Teve que esperar muito para que a autoridade chegasse e depois o recebesse. E o argumento foi certeiro: “Mas doutor, imagine manter Xuranha, Jiló e Binguinha presos no mesmo lugar, no que isso vai dar?” O delegado refletiu e ordenou ao carcereiro. “Solte esses brigões e que não apareçam na minha frente”.

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