Carreira em plena ascensão

Vencedor de quatro prêmios Grammy, cantor britânico conquista o mercado fonográfico e fãs pelo mundo afora

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Identidade. Sam Smith afirma que não quer ser reconhecido como “o cantor gay”
Jessica Kourkounis/The New York Times
Identidade. Sam Smith afirma que não quer ser reconhecido como “o cantor gay”

Nova York, Estados Unidos. Durante toda sua recente excursão pelos Estados Unidos, o cantor britânico Sam Smith ficou impressionado com o tamanho da plateia. Quando tocou pela primeira vez na Filadélfia, em março, foi em um bar pequeno demais para abrigar a banda inteira; no mês passado, ele lotou o ginásio de basquete da Universidade Temple. Sua estreia em Nova York, em agosto de 2013, foi no minúsculo Mercury Lounge e, algumas semanas atrás, Smith esgotou os ingressos no Madison Square Garden, onde milhares de fãs cantaram juntos hinos como “Stay With Me”.

“Este é mesmo um lugar grande, não é?”, perguntou Smith que, aos 22 anos, tem bochechas de querubim e basta cabeleira castanha, enquanto olhava para o público no Garden. “Nunca pensei que chegaria neste ponto com apenas um ano e meio”.

Smith estourou no cenário da música pop em 2014 com um tipo emotivo de soul que atraiu comparações com Adele. Em seu primeiro álbum, “In the Lonely Hour”, um ciclo de canções sobre um caso complicado, tocou igualmente os corações de ouvintes e dos programadores das rádios, tornando-se um dos três únicos lançamentos do ano passado a ganhar um disco de platina.

Parte central do sucesso de Smith é sua voz doce de tenor, que sobe a picos andróginos intensos. Todavia, seu êxito também é um sinal do que ainda pode acontecer na cambaleante indústria musical quando tudo se encaixa – quando se atinge o equilíbrio correto entre a divulgação online, o ataque relâmpago dos meios de comunicação de massa e as apresentações ao vivo. Em um nível raramente visto em artistas novos, Smith e sua gravadora pareciam fazer quase tudo certo, desde uma primeira participação no “Saturday Night Live” a detalhes comerciais como a gestão das vendas digitais.

“Ele é o novo artista perfeito neste mundo em que vivemos”, afirmou Steve Barnett, presidente da Capitol Music Group, gravadora de Smith. “As pessoas falam que existem tantas coisas erradas no mundo da música moderna, mas cinco anos atrás não daria para fazer o que fizemos nos últimos seis meses”.

Pessoalmente, Smith tem fala mansa, mas deixa claro que o estrelato é uma ambição antiga. Nascido em Londres, ele cresceu idolatrando divas pop como Whitney Houston e Chaka Khan, e passou a adolescência cantando jazz e canções de musicais. A direção futura foi selada aos 11 anos, quando ouviu o primeiro disco de Amy Winehouse, “Frank”, com sua mistura de jazz, ritmos contemporâneos e sexualidade despudorada.

“A coragem e a honestidade em sua música começaram a afetar meu jeito de cantar”, contou nos bastidores antes do show na Filadélfia, no Liacouras Center. “Virei Sam Smith, o cantor, em vez de tentar ser Jean Valjean em ‘Os Miseráveis’. Eu estava criando uma identidade com a minha voz, enquanto antes apenas copiava outros cantores”.

Sexualidade. Três anos atrás, correndo atrás de uma chance na música enquanto ainda trabalhava em um bar londrino, Smith conheceu a dupla de música dance Disclosure. Guy Lawrence, um dos dois irmãos responsáveis pelo grupo, lembra-se de ter ficado impressionado com a voz de Smith em uma gravação demo e o convidou a uma sessão de composição sem nem sequer conhecê-lo pessoalmente.

“Sinceramente, pensei que ele seria uma mulher negra, como Samantha Smith ou algo assim”, contou Lawrence.

A canção “Latch”, que eles compuseram com Jimmy Napes, um dos colaboradores regulares de Smith, é uma música house animada, pontuada pelos agudos do cantor, sua marca registrada. Lançada em 2012, ela ficou em 11º lugar nas paradas britânicas, levando a mais convites em músicas dance e fazendo de Smith uma estrela em ascensão na Grã-Bretanha.

Contratado pela Capitol, ele começou a desenvolver o tema de seu disco solo, que ficou pronto depois que Smith, que colaborou com outros compositores em todas as canções, se deixou guiar pelos sentimentos mais íntimos de seu amor não correspondido por outro homem. “Para esse disco, mostrei aos compositores minhas mensagens de texto”, ele disse.

O álbum flerta com vários estilos: “I’m Not the Only One” e “Stay With Me” têm um som soul retrô simples; a animada “Money on My Mind” traz uma das manobras vocais mais acrobáticas de Smith.

Conectando todas elas estão letras notavelmente reveladoras, mesmo deixando ambíguo o sexo de seu caso. Porém, pouco antes de o álbum ser lançado, Smith revelou a inspiração na vida real das canções em entrevista à revista “The Fader”, e o clipe de “Leave Your Lover”, com toques country, também brinca com a questão de gênero. Depois de seguir Smith em um aparente triângulo amoroso com uma mulher e outro homem, o vídeo mostra no fim que o vocalista estava a fim do cara.

Smith disse nunca ter titubeado em expor seus sentimentos, mas foi cauteloso com como e quando revelar sua orientação sexual. “Eu queria que minha voz fosse o aspecto principal quando se procurasse meu nome no Google”, ele declarou. “Eu não queria ser ‘Sam Smith, o cantor gay’. Eu queria ser ‘Sam Smith, o cantor que vem a ser gay’”.

Ainda segundo ele, “não dá para classificar as coisas. É a mesma coisa com a música, sexualidade, raça. Não se pode botar rótulos neles só porque é fácil para digerir assim”.

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