Antônio Conselheiro revela o futuro a Euclides da Cunha

iG Minas Gerais |

Intervenção sobre foto de Antônio Conselheiro morto (Flávio de Barros, 1897)
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– O mais importante na vida é sexo – disse Ana, mergulhando os olhos negros nos olhos verdes de Dilermando de Assis, de 17 anos, estudante da Escola Militar. – Mais do que marido, filhos, religião, pátria? – indagou Dilermando. – Mais do que tudo. Mais até do que Deus. Ana da Cunha continuava encarando Dilermando, que baixou a cabeça. EM CANUDOS Diante de duas canecas de chá, sentados em bancos toscos junto a uma mesa rústica, Euclides e o Conselheiro conversavam. Não, não era conversa. Talvez telepatia, sugestão, hipnose, premonição, alguma coisa do gênero. Na semana anterior, o jornalista, engenheiro e militar solicitara uma entrevista ao chefe dos jagunços. Escoltado por quatro mestiços fardados, saíra do acampamento do Exército ao despontar do sol. No meio do caminho, sua escolta de soldados fora substituída por quatro mestiços maltrapilhos, armados de peixeiras e facões. Agora estava ali, na cafua miserável, quartel-general do Conselheiro, ouvindo e vendo – com a maior clareza – o que conversavam sua mulher e o amante. NO RIO DE JANEIRO – Quando eu era menina – disse Ana, continuando a fitar Dilermando –, sentia esse fogo que arde sem se ver dilacerando-me o corpo. Não sabia o que era. De noite, na cama, enfiava o cobertor enrolado entre as pernas e gozava. – Por que se casou com Euclides? – perguntou o rapaz. – Por sexo, certamente. E também porque ele era importante. Dia e noite eu o procurava, mas ele raramente estava disposto. Minha vida era um inferno. “Como a minha está se tornando”, pensou Dilermando. – Quando ele passou a viajar, todos os homens que eu via eram maravilhosos. Ficava o dia inteiro na janela. Os vizinhos espiavam pelas gretas. Quantos entraram em minha casa? Não sei. Até que surgiu você. EM CANUDOS – Mas isso é loucura! Nada disso pode ser verdade! – Euclides enfiou a cabeça entre as mãos e começou a soluçar, tentando espantar o pesadelo. – Não sei, meu amigo. Você pediu o chá, quis saber o futuro. Pode ser verdade, mas pode ser apenas sua imaginação inventando horrores. – É vergonhoso um soldado chorar, não é? – Nem tanto. Já vi muito valente chorar. Eu mesmo, quando surpreendi Brasilina, minha mulher, na rede com um sargento, chorei que nem criancinha. Euclides fez uma careta. – E pensar que ontem escrevi, em meu caderno de notas, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Não, ninguém é forte. Mais forte é a natureza. NO RIO DE JANEIRO – Tenho 33 anos e você, 17, quase o dobro – disse Ana. – Não foi apenas sua juventude, sua beleza ou seu uniforme que me atraíram. Foi minha carência, acima de tudo minha carência. Euclides viaja muito, vive metido nos matos... Dilermando entendeu e ficou magoado: não fosse ele seria outro qualquer. Ali estava uma mulher em que não poderia, nunca, confiar. E nele, poderia ela confiar? Mais dez ou 15 anos, começaria a envelhecer e ele seria ainda moço. Seria promovido, tenente ou capitão. Valeria a pena ficar preso àquela mulher insaciável? – Sei o que está pensando – disse Ana. – Que estou envelhecendo. Toda mulher pensa nisso o tempo todo. Toda mulher tem medo do futuro. Dilermando ficou calado. EM CANUDOS Euclides virou a caneca e esperou que a última gota do líquido verde e viscoso escorresse pela garganta. O Conselheiro pedira cuidado, que bebesse lentamente. – Você talvez pense que sou bronco, mas está enganado – disse o Conselheiro. – Fiz meus estudos, fui professor primário, li bastante. – Nunca pensei isso – disse Euclides. – Na Capital é que pensam. – Conheci um cabra, dos melhores. Valente, corajoso, disposto a tudo. Mas era insaciável. A qualquer hora, mesmo durante as batalhas mais ferozes, arrastava a mulher para o capinzal. Foi morto a baioneta, pelas costas. Em cima da mulher. – Tudo isso é horrível – gemeu o jornalista, engenheiro e militar. – Conhecer o futuro, verdadeiro ou falso, é horrível. Onde estava eu com a cabeça? NO RIO DE JANEIRO – Por que não fugimos para longe? – perguntou Ana. – Você não consegue transferência? Meu pai poderia ajudar. – Essa, agora! Pedir ajuda ao general Solon Ribeiro, para sua filha fugir do marido com o amante? – espantou-se Dilermando. – Onde está você com a cabeça? – Entre as pernas – disse Ana, séria. – Exatamente entre as pernas. EM CANUDOS O efeito do chá chegou ao máximo. Foi então que Euclides viu realmente o futuro. Não o futuro do próximo mês, nem o do próximo ano. Viu a tragédia. Viu-se atirando em Dilermando e no irmão dele, Dinorah. Viu-se baleado por Dilermando. Viu seu filho Quidinho, de 22 anos, tentando vingá-lo e sendo morto a tiros. Viu Dinorah, aleijado, pedindo esmola e se suicidando no Guaíba. Viu seus filhos com Ana e os filhos de Ana com Dilermando. Viu os dois se separando e Ana implorando, desesperada: “Não!”. Viu-se morrer lentamente. Euclides se levantou devagar, colocou o chapéu e saiu. Sem se despedir. 

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