Brincadeira séria

Movimento de artistas busca fomentar a música infantil produzida em Minas

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Pato Fu virou referência em música infantil em todo o Brasil, mesmo que o álbum “Música de Brinquedo”
Divulgação
Pato Fu virou referência em música infantil em todo o Brasil, mesmo que o álbum “Música de Brinquedo”

Neste mês, a Galinha Pintadinha atingiu 1 bilhão de visualizações no YouTube – a maior marca de um canal brasileiro na história do site. Mas o sucesso da galinácea de penugem azul que entretém a criançada com releituras de “Pintinho Amarelinho” e “Atirei o Pau no Gato” parece não convencer a todos. “É uma tremenda falta de opção: como se você só oferecesse arroz para a criança todo dia: ela pode gostar muito, mas também precisa comer fruta, doce, verduras. Nossa ideia é oferecer um cardápio mais variado do que um entretenimento de televisão”. É assim que a pedagoga musical Cristiane Lima, integrante do grupo mineiro Serelepe, avalia um movimento de artistas mineiros que pretende fomentar a música infantil produzida no Estado.

Somente em Belo Horizonte, são dezenas de nomes que criam arranjos, discos, shows e até musicais autorais para o universo mirim, mas permanecem praticamente no anonimato, com exceção do trio Amaranto e do pioneiro Rubinho do Vale, mais reconhecidos.

Não à toa, o projeto mais bem- sucedido de música infantil no Brasil é o álbum “Música de Brinquedo” (Rotomusic, 2010), dos veteranos do Pato Fu. O disco nasceu por uma lacuna identificada pelo guitarrista John Ulhoa em sua infância. “A gente chegou a ter a possibilidade de lançar esse álbum pela Disney, mas não rolou – e não rolaria nunca se fosse a música autoral do Pato Fu. Na época do disco, eu pensei que tipo de música feita para criança tinha marcado minha infância. E simplesmente não havia nenhuma. Lembro de ouvir Beatles, que era coisa do meu pai. Mas nenhuma música infantil, algum compositor focado em crianças, nada disso ficou na minha memória porque não existia mesmo. É assustador”, avalia John, também compositor da banda mineira, que ganhou Disco de Ouro pelas 40 mil cópias vendidas de “Música de Brinquedo”.

Batalhando longe dos altos números do mercado mainstream, o diretor musical do grupo Ziriguibum, Ricardo Ulpino, decidiu criar o 1º Encontro Mineiro da Canção Infantil, como alternativa para fomentar uma cena independente – e emergente – voltada para as crianças em Belo Horizonte (leia mais no texto abaixo). O festival é inspirado no Movimento Brasileiro da Canção Infantil, criado em 2010 para promover encontros bienais entre artistas dedicados à música infantil. “Nós temos dez anos de carreira e sabemos de uma escola ou outra que adotou nossa música, conhece nosso trabalho. E olha que nos dedicamos a isso com muito afinco”, diz ele. “O intuito do festival é descobrir a galera de Minas para os próprios mineiros, inicialmente, e depois trazer nomes internacionais, propagar shows e fazer a roda girar em casa. Porque a gente se encontra mais fora daqui do que na nossa própria cidade. Assim não formamos público”, diz Ulpino.

É mais ou menos assim que acontece com o grupo Serelepe, criado como programa de variedades em 2005, em uma parceria com a Rádio Educativa UFMG. O conjunto formado por Reginaldo Santos, Cris Lima, Gabriel Murilo e Eugênio Tadeu se tornou banda em 2010. Apesar de manter um programa na 104,5 FM todos os sábados e domingos, às 9h, os educadores infantis fizeram mais shows no exterior do que no Brasil, interpretando até canções em espanhol. “O Eugênio Tadeu faz parte do Movimento da Canção Infantil Latino-Americana e Caribenha, que a cada dois anos realiza um grande festival num país latino (no ano passado, o encontro aconteceu em Curitiba). Então, nos outros países, como Chile, Colômbia, Uruguai e Argentina, recebemos mais convites por ter maior organização da cena. Tocamos em centros culturais, escolas da periferia, sempre com muita receptividade. Porque independente da língua, existe a brincadeira, a interação, o sentimento da canção”, diz Cris Lima.

Quem também rompeu as barreiras das montanhas mineiras foi a cantora e compositora Ana Cristina. Depois de lançar “Histórias Cantadas da Arca de Noé – Volume 1 e 2”, em 2005 e 2007, respectivamente, inspirada na obra de Vinicius de Moraes, a artista colocou no mercado o ousado álbum “Aquático” (2014), que vem complementado pelo audiolivro “Aquático – A Aventura do Jacaré Jabá”. O trabalho explora o samba de roda, maracatu, ijexá e a moda de viola em canções autorais em parceria com Érika Machado e o violeiro Chico Lobo, por exemplo. “O jeito que achei para fazer shows foi correr atrás. Eu apresentei o ‘Aquático’ no Festival Internacional de Choro e Jazz de Jericoacoara (CE). Como um dos argumentos do evento era formar público novo, propus formar desde a base da cadeia ouvinte, que são as crianças. O mais legal foi ver músicos do jazz parando para ver meu show. Com ‘Arca de Noé’ eu fiz mais de 60 shows pelo Brasil. E fui convidada a fazer dez sessões em escolas públicas do Rio porque lá não há tantas produções autorais de música infantil”, diz Ana Cristina.

Mesmo sem um cenário tão promissor, a cantora e compositora Silvia Negrão abandonou a carreira de barzinhos, onde cantava MPB até os anos 2000, para enveredar na música infantil. “Como eu sou pedagoga, comecei a trabalhar com musicalização infantil e de repente vi que tinha um repertório enorme autoral engavetado”, comenta. Dez anos depois, ela começou a colher os frutos de seu trabalho. No ano passado, recebeu a indicação de melhor disco infantil do 25º Prêmio da Música Brasileira pelo aplaudido “Rabiola, Ola, Catibiribola” (2013) – que tem oito músicas autorais e 12 releituras de folclores infantis, com participações de Fernanda Takai, Rubinho do Vale e do músico Hélio Ziskind, dos programas “Cocoricó” e “Castelo Rá-Tim-Bum”. “Além de uma essência rica da música brasileira e mineira, o ‘Rabiola’ tem músicas em hebraico, japonês, espanhol e até alemão. Acredito que não existe barreira entre música e criança. No ano passado, encontrei uma menininha numa festa que não só me reconheceu, como tentou cantar a música ‘Hoppe, Hoppe, Reiter’, um folclore da cultura alemã. E isso é demais para instigar a criança a conhecer o novo, a apalpar outras culturas e conhecimento’, analisa Silvia.

Até a compositora e cantora Érika Machado, conhecida por seus trabalhos românticos nos discos “No Cimento” (2006) e “Bem Me Quer Mal Me Quer” (2009), deu uma pausa em sua “música para adulto” e mudou sua sonoridade justamente para instigar as crianças com seu primeiro álbum infantil, “Super Mega Ultra Fluu” (Natura Musical). As guitarras e violões sutis de seus trabalhos anteriores deram lugar a sintetizadores, programadores, baterias eletrônicas e até barulhinhos de videogame, que pautam as 12 canções do disco, previsto para ser lançado em março. “Eu percebi que as crianças ficavam mais ligadas em canções mexidas e agitadas. Quando rolava balada lenta, elas se dispersavam. Por isso, foquei em arranjos eletrônicos. Acho que a criança pode e deve ouvir de tudo, não só uma musicalização didática infantil”, diz Érika.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave