Sexo, drogas e João Gilberto

Conhecido como Woodstock tupiniquim, Festival de Águas Claras voltará a ser realizado 40 anos após última edição

iG Minas Gerais |


1983. 
Artífice da bossa nova, João Gilberto tocou no festival em 1983 e está nos planos para este ano
JOAO GILBERTO
1983. Artífice da bossa nova, João Gilberto tocou no festival em 1983 e está nos planos para este ano

Bauru, SP. O Festival de Águas Claras faz 40 anos com uma novidade. A quinta edição está prevista para setembro, em Brotas (256 km de São Paulo). A ideia é ressuscitar o espírito paz e amor que marcou as outras edições (1975, 1981, 1983 e 1984) realizadas em Iacanga, também no interior. Banhos coletivos no rio, homens e mulheres sem roupa, sexo nas barracas, drogas consumidas livremente, lama, poeira e shows ecléticos entraram para a história da música brasileira naquele período – em plena ditadura militar. Mas a nova edição do evento deve ser mais comportada, com segurança e câmeras na área interna e no entorno.

“Pretendemos coibir excessos”, diz Edgard Galvão, um dos organizadores, sobre o uso de drogas. Antônio Checchin Júnior, o Leivinha, idealizador das quatro edições, faz questão de lembrar que sempre houve segurança na fazenda Santa Virgínia. O local, que era da família dele e sediou os eventos no passado, está tomado por plantações de cana e laranja, o que inviabiliza a realização do festival lá. O espírito de liberdade segue uma meta e, para Leivinha, assim como em décadas passadas, o momento hoje também é de repressão. Ele aposta que o evento deve proporcionar um clima de comunhão. “Hoje temos a internet, que ao mesmo tempo aproxima e afasta. No festival, as pessoas terão contato físico”.

Leivinha e a empresa Intrusos Produções estão em fase de captação de recursos, por meio de leis de incentivo cultural. As conversas com os artistas já começaram. Leivinha diz que planeja convidar Nando Reis, Tulipa Ruiz e João Gilberto. “Como ele (Gilberto) foi um ícone de Águas Claras, pode ser que aceite”, aposta.

Nos anos 70, o festival começou despretensioso. Era para ser uma festa na fazenda, mas acabou conhecido como o Woodstock tupiniquim. Reuniu nomes como Gilberto Gil, Mutantes, Erasmo Carlos e Hermeto Pascoal. João Gilberto cantou em 1983, e sua apresentação até hoje é cultuada pelos fãs. Foi o único festival desse porte nos anos de repressão e durou até as Diretas. “Abriu e fechou um ciclo no país”, diz Thiago Mattar, jornalista e cineasta que pesquisa o tema desde 2008.

Mattar está produzindo um documentário sobre Águas Claras, a ser lançado em 2016. Conhecida como Sétima Lua, a artesã Rosa Cheixas participou da festa em 1983 e, um ano depois, grávida, voltou para rever os amigos. Não encontrou ninguém, mas acabou ficando em Iacanga, cidade de quase 11 mil habitantes. “O festival definiu minha vida. Precisava pisar aqui novamente”, relembra. “Lembro de venderem drogas como se vendia cigarro no cinema. Tinha tudo: LSD, maconha, haxixe. Cocaína era rara, mas tinha”, diz o psicólogo Carlos Roberto Alves de Almeida, que participou da edição de 1983. Moradora do Guarujá, litoral paulista, Mari Giancotti tem uma lembrança especial. “Fizemos doce de abóbora com cogumelos e apareceu gente de todo canto para comer”.

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