Inversão de prioridades

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Se é para devolver, por que aprovou? Após o retorno do auxílio-moradia para os deputados estaduais que moram em Belo Horizonte e na região metropolitana, muitos parlamentares com residências nas vizinhanças da Assembleia Legislativa apressaram-se em dizer que o recurso, que se transformou em escândalo e revolta contra eles próprios, será devolvido aos cofres públicos. A postura dissimulada desses deputados é mais um golpe contra a credibilidade da classe política. Porém, a cada avilte contra o trabalhador comum, mais imunes e insensíveis ficam os parlamentares perante aos absurdos cometidos contra os bolsos de quem já não suporta mais tanta carga de impostos, quedas sucessivas na qualidade de vida, precariedade dos serviços públicos essenciais e crescimento desenfreado da criminalidade. Em um primeiro momento, apenas quatro dos 77 deputados foram contra pagar o auxílio-moradia. Em segundo turno, esse número, devido às repercussões, passou para 22. Portanto, o que separou a aprovação da desaprovação foi o montante de 14 votos. Resumindo, se todos aqueles que dizem agora que vão devolver a grana tivessem votado contra, o projeto da moradia estaria reprovado, tornando-se desnecessário o falso ato de consciência das “madalenas arrependidas”. A nova versão do auxílio-moradia mostra mais uma vez que, independentemente do partido político, os anseios da população pouco ou nada importam para os mandatários de cargos eletivos. Mostra também que não adianta muito o choro da população e os penicos na escadaria da Assembleia ou de qualquer outra repartição pública. Não que se justifique, mas a quebradeira provocada pelos grupos de preto em meados de 2013 parece ser a única língua capaz de ser plenamente compreendida pelos nobres senhores dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Como foi dito pelo deputado Ivair Nogueira (PMDB), um dos que dizem que não farão uso do benefício recém-aprovado, “não é justo crucificar os políticos”. Certamente não é justo crucificar somente os políticos. Toda vez que um promotor e um juiz, até então reservas éticas de uma sociedade em descarada decadência, fazem uso de subterfúgios questionáveis, como é o caso do auxílio-moradia, perdemos mais um pouco da esperança, abrindo brechas para radicalismos e atitudes torpes. Somente no ano de 2015, mais de R$ 127 milhões serão torrados com repasses para quem já mora em mansões e apartamentos luxuosos de nossas cidades. Isso garantiria uma habitação digna para 2.500 famílias de sem-casa por ano. É uma cruel inversão de valores que nos revela um completo estado sem direito e nos confirma que não só de corrupção padecem nossos pacatos cidadãos.

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