Carnaval sem máscaras

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“Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval”. A composição “Máscara Negra”, de Zé Ketti e Pereira Matos, sempre foi a minha marchinha preferida, desde a época em que no Carnaval só se tocava esse tipo de música... Esse gênero musical predominou desde 1920, mas, a partir da década de 60, foi progressivamente sendo substituído pelos sambas-enredo. No fim dos anos 80, apareceu também o axé. E aos poucos as marchas foram ficando no passado. Mas até hoje eu adoro e fico feliz quando vejo que vários blocos têm resgatado as antigas marchinhas. O mais engraçado é que se hoje em dia alguém fizer uma música com a letra parecida com a de “Maria Sapatão” ou “Cabeleira do Zezé” pode até ser processado por discriminação! Mas independentemente do que estiver tocando, o fato é que no Carnaval as pessoas se tornam mais receptivas. Um simples olhar é um convite para aproximação. É como se a vida se resumisse àqueles cinco dias e depois deles nada mais fosse existir. Os sentimentos são, ao mesmo tempo, intensos e efêmeros. Arlequins choram por Colombinas que preferem escolher um novo par a cada dia... Aliás, essa é uma regra implícita nesta data: ninguém é de ninguém. Aquele moço que cantou no seu ouvido ontem e que te despertou vontade de passar o resto da vida com ele pode aparecer com outra bem na sua frente no dia seguinte. E te cumprimentar como se nada tivesse acontecido, ou, ainda pior, nem te cumprimentar. Cruel, mas quem gosta de Carnaval sabe que é assim que funciona. Muitas vezes, a data pode servir para rever “aquele Pierrot que te abraçou e beijou” no ano anterior. Afinal, se o Carnaval passado tiver sido bom, ele pode querer voltar ao mesmo local para tentar matar a saudade, assim como você... Mas não conte com isso. O mais provável é que você encontre um outro Arlequim e nem se lembre mais do que passou em outros Carnavais. O fuso horário também muda no Carnaval. Lembro que, em um deles, depois de vários drinques a mais, uma amiga e eu ficamos imaginando como seria se nessa época do ano o Brasil fosse observado de cima, por extraterrestres por exemplo. De dia, a calmaria reina. Nem um ser vivo à vista. Mas, de repente, quando o sol se põe, todos saem das tocas ao mesmo tempo. As ruas vão sendo tomadas e só voltam a ficar desertas quando o sol novamente aparece. Acho que os foliões têm hábitos meio vampirescos... Mas o mais engraçado do Carnaval é que nele agimos de um jeito completamente diferente do nosso usual. Tudo é permitido, tudo é desculpado. As pessoas ficam mais soltas, e o que menos se usa são máscaras, negras ou não. Fico pensando se o certo não são esses cinco dias de espontaneidade, quando tudo o que importa é ser feliz... Mas imagina se fosse o contrário? Trezentos e sessenta dias de folia e só cinco de seriedade. Tenho uma leve suspeita de que ninguém ia aguentar... Mas, enquanto isso não acontece e o resto do ano não se torna um longo Carnaval, o melhor é continuar aproveitando cada segundo dessa data comemorativa. E se alguém te encontrar, nesses dias, embriagada de alegria por uns beijos a mais, diga que você tem a música como cúmplice... Basta cantar: “Não me leve a mal, hoje é Carnaval”!

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