Uma bandeira na tela grande

Fora do país há quase dez anos, Carlos Fraiha considera o mercado brasileiro da área um potencial ainda inexplorado

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Outro lado do mundo. 

Fraiha é agora funcionário da Weta Films, produtora de Peter Jackson sediada na Nova Zelândia, nova casa do mineiro
Victor Huang
Outro lado do mundo. Fraiha é agora funcionário da Weta Films, produtora de Peter Jackson sediada na Nova Zelândia, nova casa do mineiro

Qual o maior problema do Brasil hoje para profissionais com sua formação?

É a dificuldade de ter trabalho ao longo do ano todo, algo comum em um mercado muito voltado para a publicidade. Você fica condicionado ao que as empresas querem gastar o que, por sua vez, depende da economia. Num ano apertado, tem um ou dois comerciais de animação. E não tem como sobreviver dessa forma, a não ser que sejam pouquíssimas pessoas. Conheço gente que animou “O Grilo Feliz 2” e não teve trabalho por um ano inteiro. Em países onde o mercado é mais desenvolvido, como Inglaterra e EUA, os estúdios têm departamentos especializados de iluminação, animação, e você tem a chance de se aprimorar no que faz. Só que um mercado tão pequeno não dá conta de pagar e manter isso. Eu gostava muito dos desenhos da “Turma da Mônica”, como “A Estrelinha Mágica”, nos anos 80. Ainda hoje acho a qualidade deles excelente, e queria que tivesse mais produções assim. Porque nosso mercado consumidor é muito grande, se você combinar uma série com uma merendeira, personagens de pelúcia, é melhor as crianças comprarem coisas daqui do que importados como a Peppa Pig.

Você já conheceu algum ídolo, teve algum momento de fã proporcionado pela carreira?

Na Inglaterra, conheci o Richard Williams, autor de um dos melhores livros da área e considerado um dos criadores do mercado de animação no país. Ele ainda foi o diretor de animação do “Uma Cilada para Roger Rabbit”, fazendo algo que já tinha sido experimentado em “Mary Poppins”, mas com um nível de sofisticação, usando todos os movimentos de câmera do diretor Robert Zemeckis sem nenhuma restrição, e uma qualidade impensável na época. E tudo quadro a quadro. Fui ao lançamento da nova edição do livro dele e consegui um autógrafo. Conheci também o Barry Purves, melhor diretor de stop-motion do Reino Unido. Em um festival na República Checa, encontrei o Bruno Bozzetto, conhecido como o Walt Disney italiano. Teve ainda o Dean Deblois, codiretor do “Lilo & Stitch” e dos dois “Como Treinar seu Dragão”. E conheci vários caras da Pixar, além do Andreas Deja, animador responsável por vários personagens, como o Jafar no “Aladdin”, o Gaston do “A Bela e a Fera”, o Scar de “O Rei Leão” e a Lilo de “Lilo & Stitch”.

E você pensa em voltar a dirigir seus próprios filmes? Quais são os planos para o futuro?

Tenho vontade de dirigir curtas meus, e até tenho a ideia e storyboard para alguns. Mas é algo que exige muito tempo. E meu trabalho hoje consome todo o tempo que eu tenho. As horas são longas. E fazer os dois juntos não seria bom. É uma coisa que vai ficar mais para frente. Quanto ao futuro, volto agora para a Nova Zelândia, para trabalhar na Weta. Mas não posso falar no quê. E nem tenho certeza, na verdade.

Qual seria seu conselho para quem pensa em seguir seus passos?

Buscar recursos para aprender – de livros a filmes até a internet. O Brasil não taxa a importação de livros, então você consegue comprar todos, quase exclusivamente em inglês. Bem antes de entrar na faculdade, e mesmo depois, sempre comprei muitos livros sobre técnica e história da animação. E lia também o que achava na biblioteca das universidades. Passei um ano chegando mais cedo na Uemg para ler um livro de animação, daqueles de mil páginas que não dá nem para carregar. E existe um monte de tutoriais na internet, e boas escolas de animação online também. Uma coisa importante é tentar trabalhar na área quando tiver chance. Um portfólio você constrói por conta própria, se for autodidata. Mas para ser contratado, a empresa vai querer alguma ideia de que você conhece o meio, sabe trabalhar em equipe, se relaciona bem com as pessoas e segue prazos.

E qual a reação da sua família a essa sua fama repentina, as muitas entrevistas, a distância?

Sinto muita falta deles, e eles também, mas entendem que essa é a realidade da minha carreira e estão muito orgulhosos. Tiram foto do meu nome nos créditos na tela do cinema. O que é algo muito legal porque cresci vendo esses filmes e adorava acompanhar a trajetória das pessoas sabendo o que fizeram em cada filme – o que hoje é bem mais fácil com o IMDb. Mas eu fazia com os créditos. É legal ver seu nome lá. Porque, talvez, outras pessoas com a mesma vontade corram atrás. Tenho muito orgulho de representar o Brasil e Minas, de ser daqui. Fico muito feliz de carregar a bandeira do Estado.

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